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Eleonora Pazos: Desafios da Bilhetagem para os próximos anos


Edição nº 101

25/04/2018

Os sistemas de bilhetagem são elementos-chave de um sistema de transporte público. O avanço tecnológico ajudou os sistemas a evoluírem dramaticamente nas últimas décadas.

Este ano estamos comemorando 100 anos da bilhetagem. Após moedas, bilhetes de papel, tiras magnéticas e tokens, a era do cartão inteligente emergiu na década de 2000, bem como o pagamento sem contato usando EMV, pagamento móvel usando os sistemas NFC e BiBo (be-in / be-out). A era do cartão inteligente e da emissão de bilhetes eletrônicos possibilitou uma “bilhetagem baseada na conta do usuário” (ABT), que oferece um nível de flexibilidade sem precedentes e abre oportunidades, como a ativação de Mobilidade como Serviço (MaaS).

Há um movimento claro do setor para a ABT como um modelo ideal. No entanto, todas as opções de emissão de bilhetes mencionadas ainda existem nos transportes públicos em todo o mundo, e haverá algum tempo antes de a ABT e a emissão de bilhetes eletrônicos serem uma realidade para todos. No meio tempo, há uma grande confusão entre operadores e autoridades sobre as diferentes tecnologias e soluções existentes no mercado e em desenvolvimento, sobre como migrar os sistemas de ciclos fechados para ABT e sobre as vantagens e limitações dos diferentes sistemas.

Foto: Divulgação

Imagine estar atrasado para um compromisso, com um smartphone na mão, na frente de uma fila de pessoas embarcando em um ônibus, e de repente você percebe que acabou de planejar toda a viagem no seu smartphone. Você sabe que este é o ônibus correto, mas agora não tem um cartão de ônibus ou não tem certeza de quando o carregou pela última vez. Uma situação desconfortável para qualquer usuário do sistema de transporte, mas a UITP acredita que um dia isto será coisa do passado.

Dentro deste contexto, a UITP tem trabalhado fortemente para o tema. Criou, em parceria com outras organizações, uma fundação Smart Ticketing Alliance (STA), dedicada a promover tecnologia de comunicação e interoperabilidade para a bilhetagem. Há uma missão de estabelecer um padrão tecnológico para a emissão de bilhetes de transporte público em todo o mundo.

A fim de garantir a interoperabilidade de uma perspectiva de padrão, a STA faz uso de padrões e especificações publicados pelas organizações de standards, organismos como o CEN e o ISO; e outros órgãos membros como a GSMA, o Fórum NFC etc. A STA gera vasta documentação de referência e considera essencial que as autoridades públicas e os usuários possam ter confi ança na qualidade da comunicação dos sistemas de bilhetagem sem contato. A certificação é o meio apropriado para dar confiança.

Mas na América Latina ainda estamos bastante distantes da realidade de discussão sobre padrões e standards para unificarmos os sistemas. Na década de 70, o bilhete Edmonson passou a ser utilizado em sistemas metroferroviários latino-americanos, e ainda hoje muitos deles os utilizam, como é o caso de São Paulo. Também em Caracas, na Venezuela, e no México ainda utilizam o bilhete Edmonson para integração de linhas de ônibus ao metrô.

No Brasil, nos sistemas de transportes operados especialmente por ônibus, a introdução e o notável crescimento da automação da arrecadação das tarifas foram impulsionados pela necessidade de controlar benefícios, descontos ou isenção tarifária, em especial para os usuários do vale-transporte, estudantes e idosos.

A mudança fundamental introduzida com os sistemas de bilhetagem foi a substituição da venda “dentro” do veículo para um sistema em que a venda de bilhetes passou para “fora” do veículo.

A década de 1990 assistiu à introdução de cartões ou bilhetes de papel com tarja magnética, cada vez com maior capacidade para armazenamento de informações, o que tornou possível o aumento da quantidade de “famílias” de bilhetes. Os novos meios de pagamento facilitaram também a integração temporal do sistema de transporte, mediante um processo de gravação e leitura dos bilhetes ou cartões magnéticos em validadores instalados nos ônibus, garantindo ao usuário o benefício da conexão entre linhas, em qualquer ponto da cidade, desde que realizada dentro de um período de tempo regulamentado. Nos demais países da América Latina o avanço foi mais lento, tendo chegado o sistema na década seguinte.

A automação também foi decisiva na contenção da evasão da receita e no consequente aumento da arrecadação. Além disso, melhorou o fluxo de passagem dos usuários pelas catracas dos ônibus, diminuindo tempos de parada para embarques, contribuindo para a melhoria da velocidade comercial de operação e para o aumento da segurança a bordo, com a diminuição do dinheiro em circulação nos coletivos.

Em síntese, a bilhetagem eletrônica teve efeito direto sobre a eficácia do sistema de transporte e traz benefícios a todos os atores: usuários, gestores públicos e operadores. Porém, indubitavelmente, é da fl exibilidade tarifária permitida e da possibilidade de implantação da integração tarifária temporal intra e intermodal que decorrem os maiores benefícios para os usuários.

Os inúmeros benefícios da adoção de tecnologias de pagamento eletrônico estão claramente estabelecidos na América Latina, mas ainda não conseguimos tirar proveito de todos.

Como, por exemplo, a maior flexibilidade de tipos de tarifa – a capacidade de modificar as estruturas tarifárias. Este é um ponto ainda pouco explorado para a região.

O preço do produto ou serviço é o seu valor de troca. No transporte público, é o valor de troca de uma viagem (uma ou mais viagens). “Preço” e “tarifa” são equivalentes. Uma política de tarifas inclui todas as ações para influenciar e definir preços, enquanto uma tarifa é uma visão geral de todos os preços diferentes do que uma rede oferece. A elasticidade de preço é o quociente da variação da demanda em porcentagem e a modificação do preço em porcentagem. Em princípio, o nível de tarifas deve ser tal que a receita total obtida por um serviço de transporte público seja suficiente para cobrir o custo total de fornecê-lo, mais um lucro razoável. Este princípio seria bom se o transporte público fosse operado como um serviço totalmente comercial. Mas este não é o caso, na maioria das cidades / regiões onde o transporte público é de iniciativa da autoridade e é implementado buscando objetivos sociais. Consequentemente, a política de preços dos transportes públicos deve encontrar o equilíbrio certo entre vários obetivos, às vezes contraditórios.

Assim, o maior desafio para uma política de preços é determinar uma estrutura tarifária que concilie a necessidade do usuário com um serviço público acessível e com os interesses comerciais das operadoras e, ao mesmo tempo, persiga os objetivos sociais da autoridade.

O sistema de bilhetagem permite este tipo de flexibilidade, onde se pode combinar diferentes opções de valores. Bilhetagem é uma ferramenta para a implementação de uma política de preços com a consideração de objetivos operacionais, comerciais e sociais. O sistema de emissão de bilhetes é a tradução de tarifas em meios concretos de pagamento (para o passageiro) e cobrança de tarifa (para o operador).

É relatado que a combinação de tarifas mais baixas, uma grande variedade de ingressos e um sistema de zonas simplificado pode fornecer previsibilidade e contribuir para aumentar o número de tarifas vigentes, mas são raros os exemplos que temos de tarifas variadas, em zonas em regiões urbanas da América Latina. A exploração da bilhetagem como uma ferramenta para melhorar a arquitetura tarifária dos sistemas poderia inclusive melhorar o financiamento e distribuição de recursos nos sistemas.

Seguramente, outro ponto ainda pouco explorado é a utilização dos dados gerados pela tecnologia de bilhetagem para o planejamento dos sistemas. Há alguns desafios na integração de cartões inteligentes e os dados GTFS para realizar a atribuição dinâmica de demanda de transporte.

Além desses benefícios da bilhetagem ainda não intensamente explorados está a possibilidade de serviços adicionais ao transporte. O sistema de bilhetagem eletrônica pressupõe a existência de um banco de dados com as informações cadastrais dos usuários e dos dados gerados nos equipamentos de venda e validação de créditos monetários, que poderão ser utilizados de diversas formas e principalmente beneficiando o usuário. Esse volume de dados e informações requer uma gestão comercial, incluindo ações de marketing, de relacionamento eficiente e rápido com os usuários e de lançamento de produtos. Isto poderá se tornar um instrumento importante para buscar novas parcerias, agregar novos serviços e receitas e fidelizar os clientes.

Resumidamente, podemos dizer que existem diversos desafios a serem superados, e, os principais serão:

• Melhorar o valor da infraestrutura sem contato existente;
• Maior conveniência do passageiro
• Baixar custos de vendas e distribuição, desmaterialização e benefícios ambientais (eliminação de mídia física)
• Validação rápida, precisa e transparente para o usuário
• Equipamento de validação de baixo custo
• Dados úteis, informações e preços em tempo real
• Menor movimentação de dinheiro
• Sistemas de bilhetes mais flexíveis e interoperáveis
• Comunicação personalizada com passageiros e promoção de transporte público
• E- comércio
• Soluções de transporte completas e integradas
E teremos que nos preparar para número cada vez maior de integrações, nos novos modos de mobilidade que derivam dos transportes sob demanda.

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