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Mais uma luta para a mulher


Edição nº 101

14/03/2018

Casos recentes de assédio sexual contra mulheres dentro do transporte público causaram indignação por parte da sociedade. Em São Paulo, as denúncias tiveram um aumento de 850% em quatro anos. Ainda assim, o que veio à tona e ganhou repercussão na mídia representa uma parcela muito pequena do que de fato acontece. De acordo com pesquisa do Instituto Datafolha, 42% das mulheres brasileiras relatam já terem sofrido assédio e 35% delas estavam no trem, metrô ou ônibus. Mas, a impunidade, não saber como agir ou denunciar e o medo de se expor são alguns dos motivos que contribuem para que esses crimes não sejam denunciados. O assunto motivou a Universidade Corporativa do Transporte (UCT) a promover o Fórum “Como Lidar com o Assédio Sexual no Transporte Público”. O evento foi realizado dia 21 de fevereiro, na sede da UCT, e contou com a presença de cerca de 50 pessoas, além de ter sido transmitido online para as 200 empresas de ônibus do Estado do Rio de Janeiro.

Para falar sobre o tema, foram convidadas: a filósofa, psicóloga, psicanalista e especialista em elaboração e implementação de políticas públicas, Viviane Mosé, que também foi apresentadora do quadro “Ser ou Não Ser”, do Fantástico; a diretora de Relações Institucionais do BRT, Suzy Balloussier, e Jamily Normando, assistente de Comunicação do Grupo JAL, que integra as empresas de ônibus Flores, Turismo Três Amigos, Real Rio, Planalto, Rio D’Ouro, Beira Mar, Mageli e Brazinha. Também participou do evento a deputada Marcia Jeovani, autora da lei que criou o Programa de Prevenção ao Assédio nos Transportes Coletivos Públicos e Privados, no âmbito do Estado do Rio de Janeiro, sancionada dia 15 de janeiro passado, pelo Governador Luiz Fernando Pezão.

Reflexão, educação e luta

Ao abrir os debates, a diretora do UCT, Ana Rosa Bonilauri, chamou a atenção para a importância de se ver o transporte de passageiros como um local de convivência que pode ser transformado em espaço educacional, aproveitando o momento da viagem para o ensino e aprendizagem. A diretora informou sobre pesquisa realizada junto às empresas de ônibus, cujo resultado apontou que a questão do assédio dentro do transporte coletivo não é conhecida no setor, reforçando ainda mais a necessidade do debate. Segundo Ana Rosa, a principal proposta do encontro foi ouvir e refletir sobre práticas que possam ser adotadas. “Que isso seja o primeiro passo e que possamos refletir e sair daqui com compromissos”.

Viviane Mosé começou sua palestra destacando que a luta mais organizada hoje é a luta das mulheres, ao lado da luta pela liberdade de gêneros. “Nunca existiu, em nenhum momento histórico, uma força tão determinante. Essas microlutas são essenciais e se tornam macrolutas”, afirmou. Segundo a filósofa, o mundo passa por uma grande transformação nos últimos 20 anos, a qual considera favorável por dar voz às minorias. “Vivíamos numa sociedade piramidal, na qual quem dominava era o homem, branco, de mais de 50 anos. Hoje, quem domina são os jovens”, disse.

Respeito, limite e consentimento

Para Mosé, o assédio sexual é uma situação antiga, complexa e humilhante. “Muitas lutas precisam acontecer para se conquistar o respeito e uma sociedade mais ética e mais justa”, disse. A palestrante destacou também o fato de o Brasil ser um país erótico, “no melhor sentido”. E que temos que manter essa “eroticidade”, mas fazendo valer, acima de tudo, o respeito. “Tem que ter respeito, limite e consentimento. E para chegar nesse grau de consciência é preciso mudança de cultura”, defendeu. A psicanalista lamentou a grande dificuldade de lidar com situações de assédio, que sempre causam constrangimento e em que, na maioria das vezes, não há reação por parte da vítima. E defendeu medidas para a conscientização e incentivo à acusação: “a denúncia é um caminho essencial, mas também é necessário construir no transporte coletivo um espaço educativo, através de campanhas lúdicas e criativas”.

Segundo Suzy Balloussier, ao contrário do que imaginamos, o público atendido pelo ônibus e pelo BRT é, em sua maioria, feminino. E 86% das mulheres que utilizam o transporte público já sofreram assédio, porém a maior parte não é denunciada. Para a diretora de Relações Institucionais do BRT, esta é uma informação importante, ainda não disseminada, que pode ajudar a embasar iniciativas de combate a esse tipo de crime. Esses dados motivaram o Consórcio BRT a realizar algumas ações de conscientização para a questão do assédio.

Ações no BRT

Em novembro e dezembro passados, o BRT levou para o Terminal Alvorada a exposição itinerante “Nunca me calarei”, do artista e fotógrafo Marcio Freitas, que integra a campanha “16 Dias de Ativismo contra a Violência de Gênero”. A mostra é composta por painéis de 2m x 2m, com fotografias de rostos de mulheres de todas as partes do Brasil, que sofreram algum tipo de assédio, tentativa ou abuso sexual. Também no ano passado, em várias ocasiões, o Terminal Alvorada recebeu o “Ônibus Lilás”, projeto da Secretaria de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos, promovido através da Subsecretaria de Políticas para Mulheres. O ônibus percorre vários municípios do Estado do Rio, levando atendimento jurídico e psicossocial a mulheres. Além do atendimento, foi distribuído material informativo sobre os direitos da mulher e todos os serviços prestados nos centros especializados no Rio de Janeiro.

O objetivo desse trabalho, segundo Suzy, é conscientizar as mulheres de que, “além da agressão física, há outros tipos de violência, como a moral, patrimonial e psicológica”.

Campanha do Grupo JAL

A terceira palestrante do Fórum, Jamily Normando, falou sobre a campanha “O ônibus é público, meu corpo não”, realizada em outubro passado pelo Grupo JAL, para combater o assédio sexual contra mulheres dentro dos ônibus, conscientizando motoristas, cobradores e clientes sobre como agir em situações de assédio. A ação se deu por meio de blitzes educativas em pontos na Pavuna, no Centro de São João de Meriti, de Duque de Caxias e Vilar dos Teles. Em novembro, a campanha foi realizada no campus da UFRJ, na Ilha do Fundão.

Durante as blitzes, uma grande faixa era exibida, enquanto eram distribuídos ao público panfletos contendo informações sobre o que é assédio sexual e como as pessoas podem denunciar o crime, bem como os telefones da Central de Atendimento à Mulher e de algumas delegacias de Atendimento à Mulher na Baixada Fluminense, na Zona Oeste e no Centro do Rio. Também foram distribuídos porta-cartões de RioCard e Bilhete Único, trazendo o slogan da campanha e os telefones das delegacias.

A deputada Marcia Jeovani encerrou as apresentações destacando a importância dessas ações educativas e da luta da mulher para conquistar seu espaço e respeito na sociedade. “Não se trata apenas de punição, mas de prevenção através da educação”, defendeu a deputada.

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