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Mohamed Mezghani, secretário-geral da UITP: “Devemos nos envolver e trabalhar com novos atores da mobilidade”


Edição nº 102

14/06/2018

Mohamed Mezghani assumiu o cargo de secretário-geral da UITP em janeiro de 2018, sucedendo Alain Flausch. Ele foi nomeado pelo Conselho de Políticas, em outubro de 2017, em Barcelona, na Espanha. Com 25 anos de experiência em transportes públicos e mobilidade urbana, 18 deles na UITP, Mezghani chegou a secretário-geral adjunto da UITP em 2014. Antes, atuou como diretor de Conhecimento e chefe de departamento. Trabalhou como consultor independente e também da UITP, para projetos de assistência técnica e treinamento, na África e no Oriente Médio, e gerenciou diversos projetos envolvendo especialistas e equipes multidisciplinares. Graduou-se em Engenharia Industrial, em 1987, pela École Nationale d’Ingénieurs de Tunis, na Tunísia, e possui um mestrado em Transportes, concluído em 1988, na École Nationale des Ponts et Chaussées, Paris, França. Mezghani é ainda embaixador do Dubai Association Center. A Revista Ônibus conversou com o novo secretário-geral da UITP:

 

Foto: Divulgação


Revista Ônibus – Em seu discurso de posse, o senhor afirmou que 2018 seria o ano da ambição. Por que e o que será realizado, ou o que mudará efetivamente no transporte público que o levou a esta visão?

Mohamed Mezghani – Eu tenho uma visão em três níveis – para o transporte público, para a UITP e para a Secretaria Geral, em particular. Para o transporte público, nós precisamos continuar expandindo amplas redes de infraestrutura para lidar com a crescente demanda por mobilidade; e nós temos que fazer isso dentro de prazos curtos. Por outro lado, o setor deve seguir em direção à digitalização e à postura de termos o cliente como centro de tudo, ao mesmo tempo em que adotamos novos serviços de mobilidade. Na UITP nós devemos trabalhar com novos atores da mobilidade; fortalecer a defesa do transporte público através do relacionamento com tomadores de decisão, políticos e líderes de negócios; desenvolver serviços de alta qualidade, com um bom valor para o capital de nossos membros; e continuar a globalização da entidade, respondendo às especificidades locais e à diversidade de expectativas nas diferentes regiões do mundo, e para as diversas categorias de membros. Para a governança da entidade, espero ver os membros da diretoria, que oferecem seu tempo e seu conhecimento gratuitamente para a UITP, exercerem um papel mais ativo no orçamento, no processo de tomada de decisões e no gerenciamento. Eu estou totalmente satisfeito quanto a este desenvolvimento. Além disso, nós devemos garantir que o gerenciamento da Secretaria Geral seja perfeito e que a equipe esteja feliz. Esta é uma pergunta que eu farei a mim mesmo todos os dias.

 

RÔ – Qual a principal preocupação da UITP atualmente, e como a entidade pretende enfrentá-la?

MM – Embora o transporte público vá permanecer como a espinha dorsal de qualquer sistema de mobilidade em cidades, nós temos que vê-lo como um elemento de mobilidade de múltiplas opções à disposição dos cidadãos. Quanto mais flexíveis e compartilhadas as soluções desenvolvidas forem, menor será o uso individual de carros. Consequentemente, esse crescimento aumentará a demanda por transporte público. Essa complementaridade será o modelo futuro. Nós devemos colaborar com os legisladores e aqueles que estão em tal posição para avançarmos não apenas no nosso setor, mas no acesso a ele por tantos cidadãos quanto possível. O transporte público move a cidade e o seu povo, e a UITP precisa ser líder nisso.

 

RÔ – Quais os principais projetos e atividades programados pela UITP para os próximos dois anos?

MM – A UITP sempre irá se certificar de que, como uma entidade global, reconheça mudanças e desenvolvimento no mundo inteiro. Nós de fato precisamos liderar essas mudanças e trabalhar junto com os legisladores e tomadores de decisão em todo o mundo. Os anos de 2018 e 2019 serão maiores do que nunca para a UITP, com o nosso Congresso e Exposição de Transporte em Mena (Oriente Médio e Norte da África, na sigla inglesa), realizado em Dubai, em abril, e nosso evento internacional de ferrovia, que será realizado em Singapura, entre 9 e 11 de julho. Nossa Conferência Global de Transporte bienal será realizada em 2019, em Estocolmo, onde a indústria irá se reunir para testemunhar e discutir o progresso que fizemos e o que precisamos fazer para seguir em frente no nosso setor. Nós também unimos forças com um número de parceiros estratégicos, como o Banco Mundial, universidades de prestígio no mundo e grandes acionistas locais de transporte para o estabelecimento dos Centros UITP para Transporte de Excelência, para impulsionar os programas de treinamento nas regiões do Oriente Médio, África do Norte e Ásia-Pacífico.

 

RÔ – Qual o papel dos dois Centros de Excelência em Transportes da entidade?

MM – A UITP é uma entidade global, com 1.500 membros e 18.000 contatos associados, em 96 países. A consolidação dos serviços regionais tem sido um dos nossos principais objetivos de desenvolvimento, nos últimos anos. Esse trabalho inclui a criação dos Centros para Excelência de Transporte (CTEs ), nas regiões da Ásia-Pacífico e MENA. O objetivo dos CTEs é compartilhar conhecimento, conduzir pesquisas e treinamentos para apoiar o desenvolvimento de políticas e soluções eficientes de transporte público. Os CTEs visam a promover sistemas de mobilidade sustentáveis, como uma maneira de melhorar o padrão de vida em uma região específica. A UITP é extremamente ativa em todo o mundo e nossos Congresso e Exposição de Transporte em Mena, e Congresso e Exposição de Transporte Internacional em Singapura (SITCE ), que já citei, são provas disso.

 

RÔ – E o papel do Centro de Treinamento?

MM – A UITP reconhece o treinamento como um campo estratégico para desenvolver um dado montante de conhecimento e especialização para as empresas membro, ao redor do mundo. Ao longo dos últimos anos, o número de programas de treinamentos organizados pela UITP cresceu exponencialmente, com treinamentos sendo realizados em mais de 53 países e atraindo participantes de não menos do que 900 organizações. O portfólio de treinamento também foi expandido e inclui agora mais de 50 tópicos. Além disso, como afirmei antes, unimos forças com parceiros estratégicos. O portfólio atual e futuro dos programas fornecidos pelo Centro UITP de Treinamento irá aprimorar significativamente os serviços fornecidos pela UITP para os seus membros e ajudará as pessoas a realizarem seu potencial de carreira no setor de transporte público e mobilidade sustentável. Em 2018, a UITP realizará eventos sobre MaaS , Controle de Multidões, Ônibus Elétricos, Gestores de Transporte de Táxi e Fundamentos do Transporte Público, para citar alguns. Esses treinamentos irão ocorrer em uma ampla variedade de locais, como França, Singapura, China, Dubai e Turquia.

 

RÔ – A UITP realizou, em janeiro passado, evento para discutir as questões mais importantes sobre o impacto que os veículos rodoviários autônomos terão nas cidades e nos transportes públicos. Quais foram as principais conclusões?

MM – Veículos autônomos são de grande interesse para a UITP e para o transporte público. O debate envolvendo-os é muito importante e também está impulsionando a discussão sobre transporte público. Uma vez que a Comissão Europeia apoia o desenvolvimento e teste de veículos autônomos, o Departamento Europeu da UITP realizou uma conferência de meio dia (Bruxelas, 25 de janeiro de 2018) para perguntar: “Qual é o impacto nas nossas cidades europeias?”. O objetivo do evento foi lidar com as perguntas mais importantes envolvendo o impacto que veículos de estrada autônomos causarão nas cidades e no transporte público. Além dos aspectos tecnológicos, a UITP desejou destacar o que a implantação de veículos autônomos significará para as nossas cidades e sob quais condições essa inovação pode realmente se tornar bem sucedida. Nosso evento foi um enorme sucesso e contou com a presença de muitas figuras notáveis de institutos europeus e da indústria em si. Nós publicamos um informativo de políticas detalhado sobre esse assunto, o qual eu encorajo todos que tenham interesse a ler.

 

RÔ – Sobre a questão da digitalização nos transportes públicos, a UITP realizou uma pesquisa no ano passado visando a entender esse cenário. Quais foram os principais pontos apurados? A entidade já definiu alguma ação com base nos resultados dessa pesquisa?

MM – A digitalização não pode mais ser considerada uma tendência, mas, ao invés disso, uma evolução em andamento, influenciando de forma contínua cada aspecto de nossa vida cotidiana e dos nossos negócios. Naturalmente, esse avanço em tecnologias digitais apresentou um número de desafios e oportunidades para o transporte público. Para oferecer aos nossos membros um suporte completo e ideal, a UITP lançou a pesquisa para poder entender melhor o cenário atual e a preparação digital dos nossos membros. Os tópicos da pesquisa cobriram infraestrutura, regulações, estratégia, talento, financiamento e outros. Com base nos resultados dessa pesquisa, a UITP irá determinar as áreas prioritárias de trabalho para enfrentar melhor os desafios e dar suporte aos nossos membros nesse período de transição. A digitalização foi muito importante na nossa Conferência de IT-TRANS, em parceria com a KMK, que acabou de ser realizada em Carlsrue, Alemanha (6 a 8 de março de 2018). Encorajaria os interessados a ler, em nossos informativos oficiais, tudo sobre o que foi desenvolvido no evento de Calsrue, onde o setor se juntou para aprender, compartilhar e interligar.

 

RÔ – Como a UITP tem atuado com relação à questão do financiamento para os transportes públicos?

MM – Poucos países oferecem algum tipo de financiamento estrutural para o transporte. Outras fontes de renda não devem ser negligenciadas, mas investimento privado ainda é difícil de se garantir sem os quadros regulatórios corretos. Uma vez que a UITP tem promovido transporte público em um âmbito que envolve a sociedade e a sustentabilidade, acredito que agora é hora de conversarmos mais sobre como podemos ajudar a economia. Particularmente, devemos trabalhar lado a lado com os legisladores e governos para estabelecer uma mudança. Nós estamos trabalhando em conjunto com prefeitos ao redor do mundo, como parte de nossa defesa e alcance, já que eles têm influência real em nosso setor. Aqueles que tem possibilidade, devem investir no setor, para garantir que as melhores opções de mobilidade urbana estejam sempre disponíveis para o público. Transporte público será sempre a espinha dorsal das cidades.

 

RÔ – Qual a visão da entidade sobre o transporte público na América Latina, no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro (BR)?

MM – Uma vez que a UITP é uma entidade internacional, nós temos membros em todo o mundo e na América Latina não é diferente – nós realizamos eventos e treinamentos no continente e damos as boas-vindas a todo e qualquer desenvolvimento em transporte público lá. Nossa Conferência Internacional de Ônibus foi feita no Rio de Janeiro, nos últimos anos, e iremos realizar alguns seminários, com importantes discussões de mesas-redondas, no Brasil, ainda este ano. Uma vez que a América do Sul abriga uma grande população, devemos sempre assegurar que as pessoas nas cidades possam se locomover tanto quanto possível e que a mobilidade urbana permaneça no centro de qualquer expansão e desenvolvimento em transporte público em toda a América Latina e no mundo.

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