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NTU realiza levantamento de ônibus incendiados no Brasil nos últimos 15 anos


Edição nº 105

11/04/2019

A NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) divulgou, no início do ano, um histórico de registros de ônibus totalmente incendiados, entre os anos 2004 e 2019, no Brasil. O levantamento tem sido atualizado mês a mês. Os últimos dados, fechados no dia 11 de março, registram 2.389 ônibus incendiados nesse período. Somente nos primeiros dois meses e meio de 2019, foram 39 incidentes.

O relatório também cita os números anteriores a 2004, antes da NTU iniciar o acompanhamento das ocorrências junto às empresas filiadas e à mídia. Para isso, a Associação usou, como fonte, pesquisas realizadas nos acervos dos jornais “O Estado de São Paulo”, “Folha de São Paulo” e “O Globo”, que permitiram identificar 2.023 ônibus incendiados no período de 1987 até 2003. Somando-se as ocorrências dos dois períodos, de pesquisa e de acompanhamento, o número chega a 4.412 ônibus incendiados, com 20 vítimas fatais, 63 feridos e cerca de R$ 2 bilhões em prejuízos materiais e socioeconômicos.

 

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

 

De acordo com o levantamento dos últimos 15 anos, a região Sudeste teve o maior índice de ônibus incendiados (71,9% ou 1.717 ocorrências), sendo o Estado de São Paulo o recordista, com 29,3% dos casos (700 ônibus totalmente incendiados), e desses, 18,5% (441) na capital. A cidade do Rio de Janeiro registrou 14,1% das ocorrências, que representam 336 veículos totalmente incendiados. Já na Região Metropolitana do Rio foram registrados 124 incêndios a ônibus (5,2% dos casos). Em todo o Estado do Rio os números chegaram a 572 ônibus queimados. Entre os estados do Sudeste, Minas Gerais ocupa a terceira colocação, com 388 registros, nos últimos 15 anos.

No comparativo entre as regiões brasileiras, o Nordeste fica em segundo lugar, com um total de 370 registros, o Sul ocupa a terceira posição, com 127, seguido pelo Centro-Oeste, com 106. A região Norte foi a que registrou o menor número de ônibus incendiados (69). Pelos dados do relatório, pode-se afirmar que o ano de 2014 foi o mais violento para o setor de transporte público por ônibus no Brasil, com 657 casos. Em 2015, o número caiu para 313 e, em 2016, para 259, subindo novamente no ano seguinte, para 345, e caindo para 225, em 2018.

 

“Fogueiras da insensatez”

Esses atos trazem à tona reflexões sobre como se tornaram tão recorrentes no país. Uma ampla análise da violência contra ônibus no Brasil, bem como dados e fotos de ônibus incendiados, que chocam pela imagem e pelo que representam, estão no livro “Fogueiras da insensatez – Por que queimam os ônibus no Brasil?”, de autoria do presidente do NTU e vice-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Eurico Divon Galhardi, publicado pelas duas entidades, no ano passado. Galhardi propõe ao leitor a busca do entendimento da questão da violência contra os ônibus no Brasil.

“Quando pensei em publicar este livro, para buscar compreender e explicar melhor o tema, imaginei que pudesse encontrar estudos, ideias e propostas consolidadas para enfrentar o problema. Mas, o que vejo é que a curiosidade sobre o tema ainda está restrita aos diretamente envolvidos com o assunto. A NTU vem liderando as discussões nesse sentido, após consolidar um estudo estatístico que mostra a história e a amplitude dos incêndios criminosos de ônibus urbanos”, afirma Galhardi.

 

Foto: Reproduções do livro “Fogueiras da insensatez”

 

Visão distorcida da população

O fenômeno em questão aumentou a partir dos protestos realizados em 2013, contra o aumento das passagens de ônibus, iniciados em São Paulo e aderidos pela população de várias outras cidades e capitais do Brasil, inclusive o Rio de Janeiro. Neste período, os registros de ônibus incendiados cresceram vertiginosamente em relação aos dados de anos anteriores, chegando ao recorde em 2014. E, se antes eram frequentes na região Sudeste, hoje em dia se alastraram por outras regiões do país, como, por exemplo, no Nordeste, que, a cada ano, indica um aumento de incidentes. De acordo com o livro, muitos dos casos são articulados dentro de presídios, onde os criminosos mobilizam moradores de áreas carentes para realizarem os atos de vandalismo. Os riscos da não participação são altos: há ameaça de execução da própria pessoa ou de algum parente.

Eurico Galhardi explica, na publicação, que a população não vê nas empresas de ônibus a figura do setor privado, e sim do poder público, o que ocasiona mais ataques como forma de represália às suas insatisfações. Ele alerta também para o fato de que quando esses atos de violência começaram, os ônibus eram queimados sem ocorrência de vítimas, mas os ataques evoluíram e muitos desses incêndios provocaram mortes de pessoas inocentes e deixaram outras gravemente feridas. Diante de todos os casos, os empresários lamentam a demora nos julgamentos e se ressentem com a impunidade, pois os culpados nunca são identificados e as empresas de ônibus ficam com um prejuízo que se reflete no serviço prestado à sociedade.

 

“Fenômeno brasileiro”

No prefácio da obra, o autor chama a atenção para o fato de que esse tipo de violência “é um fenômeno tipicamente brasileiro, que assola as maiores cidades do país há décadas e que começou como forma de chamar a atenção da opinião pública e de autoridades para problemas específicos, mas que, nos últimos anos, ultrapassou todas as fronteiras do bom senso, sendo responsável por mortes, pessoas feridas e destruição. Por trás de ocorrências assim, há criminosos de todos os tipos, que agem principalmente em represália a medidas de combate ao crime organizado dentro e fora das prisões”.

As informações sobre as ações criminosas apresentados no “Histórico de registro de ônibus totalmente incendiados” e no livro “Fogueiras da insensatez” revelam muitos desafios para o setor de transporte público por ônibus. Para Galhardi, os infortúnios socioeconômicos pelos quais o Brasil passa tendem a piorar ainda mais o cenário. Ele defende que é preciso encontrar a raiz do problema, de forma conjunta, unindo o poder público, o judiciário e o setor de transporte.

No dia 17 de janeiro, o presidente da NTU, Otávio Cunha, e Eurico Galhardi se reuniram com o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), para entregar o material sobre incêndios a ônibus produzido pela entidade. Heleno reiterou a preocupação do governo com o problema e disse que estão sendo tomadas as providências cabíveis.

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