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Problemas no BRT do Rio vão da violência aos calotes, do asfalto à ausência das autoridades


14/09/2018

Diferente do Metrô e Supervia, o BRT é um sistema de transporte não segregado por muros e grades. “Sua beleza está justamente em ser integrado e participar diretamente da vida da cidade”, explica a diretora de Relações Institucionais do BRT Rio, Suzy Ballousier. E o que deveria ser um fator positivo se tornou um problema, com o sistema sujeito às mesmas situações de violência e falta de segurança pública enfrentadas pela população carioca. Junte-se a isso o fato das empresasde ônibus do Rio estarem passando por sua pior crise, com a queda crescente no número de passageiros transportados e a consequente dificuldade de renovação da frota, aumentando custos de manutenção e afetando a operação.

 

Foto: Arthur Moura

 

O custo mensal do vandalismo

Atualmente, o BRT transporta 450 mil passageiros por dia nos seus três corredores – Transoeste, Transcarioca e Transolímpica”; porém, 72 mil não pagam passagem. “Um número maior do que o transportado em muitas cidades da Europa”, revela Suzy. Segundo a diretora, a principal maneira de embarque irregular se dá com as pessoas forçando a porta, provocando desgaste prematuro do equipamento. “Para garantir as condições mínimas de operação, o custo com as evasões, depredações e outros tipos de vandalismo chega a R$ 1,4 milhão. Mas, se fossem reparados integralmente, todo mês, os prejuízos causados às estações custariam R$ 6,4 milhões”. Suzy explica ainda que as evasões comprometem a previsão de capacidade de demanda, já que os embarques se dão sem utilização do RioCard. “O resultado são estações e veículos mais cheios”, informa.

Além dessas questões, há também o problema de conservação do asfalto; em vários trechos a pista está totalmente irregular, com buracos e remendos, causando mais prejuízos à frota e à operação. No dia 16 de maio, uma matéria do RJ1 mostrou que o asfalto desnivelado do BRT Transoeste é reconhecido pela Prefeitura do Rio de Janeiro e custaria R$ 35 milhões para ser reparado. “A rapidez do BRT, indicada em pesquisas como o maior benefício do sistema, foi gravemente afetada pelas condições da pavimentação. Em algumas áreas, onde antes os veículos alcançavam 70km/h, agora chegam a no máximo 20km/h”, afirma a diretora de Relações Institucionais.

 

Cesário de Melo é trecho mais crítico

No fim do ano passado, o BRT Rio anunciou a possibilidade de fechamento das 22 estações da Cesário de Melo, que ligam Santa Cruz a Campo Grande, trecho mais afetado pelas depredações e calotes. A proposta foi vetada pelo poder concedente. Em maio, com a greve dos caminhoneiros, foi feito um plano de contingência devido à falta de combustível. O serviço foi suspenso no trajeto entre Madureira e o Fundão, e foram fechadas as estações da Cesário de Melo. Com a normalização do abastecimento, todas as estações, com exceção das 22 da Cesário de Melo, voltaram a operar. “A situação de violência lá é insustentável e, infelizmente, nosso apelo por uma segurança pública eficaz no local não teve êxito”, lembra Suzy.

No fim de maio, traficantes tomaram parte das estações, entre o ramal Cesarão 1 e o terminal Campo Grande, trecho que atende a 30 mil passageiros. Os bandidos invadiram pelo menos cinco estações, ameaçando funcionários. Os locais viraram quiosques e lojas para o tráfico de drogas. Na noite de 28 de maio, em Madureira, bandidos usaram granito para quebrar os vidros da bilheteria, por onde tentaram levar o computador da estação Madureira Manaceia, do corredor Transcarioca. O BRT informou que não estava conseguindo operar e que o eixo Cesário de Melo há tempos sofre com a violência. Desde o final da greve dos caminhoneiros, o serviço da linha 17 foi interrompido por 12 vezes, por causa de conflitos.

 

Foto: Fetranspor

 

Plano de segurança pode ser a solução

O vandalismo no BRT Rio, em especial no corredor Transoeste, já foi denunciado pela empresa em ofícios à Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) e à Polícia Militar. A destruição das estações a tiros, incêndios e pedradas, além de causar prejuízo financeiro e afetar a operação, aterroriza os passageiros. Com o problema se tornando cada vez mais grave, o BRT pediu às autoridades, logo após a greve dos caminhoneiros, a elaboração de um plano de segurança, prometido para um prazo de 90 dias, com previsão da presença de agentes da Guarda nas estações.

Enquanto isso, a empresa toma medidas contingenciais para continuar operando. No trecho onde as estações estão fechadas, por exemplo, circulam ônibus convencionais pela rua, na via normal, e não pela calha do corredor. Também, em casos de ameaças de violência, os serviços são suspendidos preventivamente. “Temos que deixar claro que o Consórcio não se beneficia, em hipótese alguma, com as paralisações. Deixamos de arrecadar e perdemos receita. Mas, a prevenção, nesses casos, é a única saída para evitarmos tragédias iminentes”, afirma a diretora.

O legado da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, no Rio, e uma das maiores promessas de melhoria da mobilidade urbana está ameaçado. Com 135 estações construídas para operar 24 horas por dia, o serviço espera poder retomar seu propósito inicial, de ser uma mudança na vida da cidade. “O que podemos fazer, estamos fazendo. Agora, nos resta apelar para que as autoridades públicas cumpram com suas atribuições na conservação das vias e na promoção da segurança e ordem pública. Acreditamos que, com o plano de segurança, que deve entrar em funcionamento no fim de setembro ou começo de outubro, o sistema possa voltar a ser um diferencial na mobilidade urbana carioca. De nossa parte, faremos campanhas de conscientização da população sobre a preservação e uso coletivo do BRT”, conclui Suzy.

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