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Programa QualiÔnibus: informação e conhecimento a serviço do transporte


Edição nº 104

10/12/2018

“A falta de informação sobre a operação e sobre a percepção dos clientes do transporte coletivo é um dos maiores problemas para a realização do planejamento, regulação e tomada de decisões para a melhoria da qualidade dos serviços de ônibus. Somado a isso, é comum que boas soluções do setor sejam tratadas de forma isolada, ficando cada cidade ou operador resignado a encontrar soluções individualmente, enquanto muitos dos desafios enfrentados são os mesmos.” A afirmação foi feita pela analista de Mobilidade Urbana do Programa Cidades do WRI Brasil, Mariana Müller Barcelos, ao explicar as razões que levaram à criação do Programa QualiÔnibus, concebido e coordenado pelo WRI, com apoio financeiro da FedEx Corporation.

O Programa QualiÔnibus, criado em 2017, conta com o Grupo de Benchmarking, formado por representantes de órgãos públicos de transportes de várias cidades e estados brasileiros, bem como entidades privadas, que representam os operadores. Participam desse Grupo: BHTrans, de Belo Horizonte; SPTrans, de São Paulo; Etufor, de Fortaleza; ICPS e GRCTM, de Recife; Settran, de Uberlândia, Sedest, de Uberaba; Settra, de Juiz de Fora; Setop, do Estado de Minas Gerais; o Metrô do Rio Grande do Sul; o Rio Ônibus (Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro), e a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro. Também fazem parte, como facilitadores, representantes da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), do ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento) e da FGV-Ceri (Centro de Estudos em Regulamentação e Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas). Seu objetivo é qualificar o serviço de transporte coletivo por ônibus para atrair os usuários ao sistema e tornar a mobilidade das cidades mais sustentável.


O papel do Grupo de Benchmarking

Para isso, o Programa propõe aos integrantes do Grupo de Benchmarking a discussão e promoção dos serviços de ônibus no Brasil, a partir de intenso e contínuo trabalho de avaliação da qualidade dos mesmos, por meio das ferramentas QualiÔnibus – indicadores de qualidade (satisfação, desempenho, planejamento e gestão) e pesquisas de satisfação. “Essas ferramentas são padronizadas e foram desenvolvidas com base em boas práticas nacionais e internacionais, passando por validações de pilotos e contribuições dos principais stakeholders envolvidos, ou seja, os provedores do transporte coletivo – planejadores, reguladores, fiscalizadores e operadores”, esclarece Mariana. Os indicadores servem para avaliar tanto sistemas completos, como linhas ou corredores específicos. E cada indicador possui uma ficha que detalha a metodologia de cálculo e coleta de dados. Mariana defende que, ao integrar o Grupo de Benchmarking e aplicar as ferramentas QualiÔnibus, “as cidades dão início a um círculo virtuoso de qualidade para o transporte coletivo por ônibus, com foco na satisfação das pessoas”.

Mas, na prática, como se dá todo esse trabalho? Os participantes do Grupo de Benchmarking, além de ficarem responsáveis e se comprometerem a coletar os dados sobre o transporte por ônibus em seus municípios, a partir de medidas diretas, inspeções, checklists e pesquisas de satisfação, fazem encontros online uma vez por mês, encontros presenciais a cada seis meses e realizam visitas técnicas nos diferentes sistemas de transporte, tudo com o objetivo de compartilhar experiências e identificar as boas práticas. O compromisso com o regulamento e termo de adesão e o respeito ao sigilo e anonimato das informações são regras básicas do Grupo. Ao reunir representantes públicos de várias cidades e operadores de transporte, o QualiÔnibus se dispõe a “criar um ambiente fértil para mudanças na cultura corporativa, coletando e analisando dados, estabelecendo padrões, enfrentando problemas e compartilhando soluções”, explica Mariana.

 

Foto: Arthur Moura

 

Cinco níveis de complexidade

O trabalho foi dividido em cinco níveis, que vão do menor detalhamento e complexidade ao maior. No primeiro nível, os participantes aplicam indicadores e checklists básicos; depois, no nível 2, vêm os resultados da pesquisa de satisfação do módulo básico; o nível 3 pede os resultados da pesquisa de satisfação dos módulos detalhados e indicadores e checklists deste nível; em seguida, virão os indicadores e checklists de nível 4 e, finalmente, os custos detalhados e indicadores operacionais e de gestão interna, específicos para cada aspecto.

Esses indicadores estão organizados em 18 aspectos do sistema: acesso ao transporte, disponibilidade, rapidez, confiabilidade, facilidade de fazer transferência, conforto dos pontos de ônibus, conforto das estações, conforto dos terminais, conforto dos ônibus, atendimento ao cliente, informação ao cliente, segurança pública, segurança em acidentes de trânsito, exposição a ruídos e poluição, facilidade em fazer o pagamento, gasto, aspectos gerais do sistema e custos.

 

Duas grandes coletas já realizadas

Todo o trabalho é conduzido pelo WRI, que pauta as reuniões, orienta sobre as principais questões, organiza as planilhas para serem entregues aos participantes, bem como as pesquisas a serem aplicadas. De acordo com Miguel Ângelo, consultor de Mobilidade Urbana da Federação do Rio de Janeiro e um dos representantes da entidade no Programa, o trabalho ainda está no nível 1, de indicadores considerados básicos, como: distância média entre pontos de acesso, velocidade média mensal nas horas de pico e no entrepico, índice de pontualidade das partidas, idade média da frota, veículos aprovados em vistoria, emissão de CO2 por passageiro, índice de utilização de bilhetagem eletrônica, demanda diária e mensal, IPK (índice de passageiro por quilômetro) e IPKe (índice de passageiros equivalentes por quilômetro), tarifa, subsídio, entre outros.

Dentro do nível 1, o Grupo finalizou a segunda grande coleta de dados em outubro passado (a primeira foi em abril de 2018). Miguel explica que é possível comparar indicadores de mesmo nível, mas não é possível visualizar indicadores de outros participantes de níveis à frente. “Após as coletas, o WRI analisa e nos dá o feedback”, informa o consultor.

 

A participação da Federação

A entidade participa do Programa desde o começo, com quatro representantes da Diretoria de Mobilidade Urbana – além de Miguel Ângelo, integram o Grupo: a gerente Eunice Horácio; a engenheira de transportes Evelyn Cortez, e a coordenadora de Meio Ambiente Christiane Chafim. No Grupo, a Federação contribui com os dados do sistema de transporte de Teresópolis (matéria de capa desta edição). “A entrada para esse grupo de trabalho, que conta tanto com representantes dos operadores de transporte público por ônibus, como órgãos fiscalizadores e reguladores, propicia a troca não só de informações, mas também de experiências, tendo sempre como objetivo a melhoria da qualidade do serviço de ônibus”, afirma Miguel Ângelo. “O viés é buscar conhecer ainda mais os desejos e expectativas dos clientes quanto a um serviço de ônibus de boa qualidade. Isso possibilita que os operadores tenham em mãos ferramentas que auxiliem na realização dos seus planejamentos, assim como nas tomadas de decisões para a melhoria da qualidade do serviço de ônibus”, completa o consultor.

O Programa QualiÔnibus está só no começo. Mais cidades e operadores poderão aderir ao Grupo de Benchmarking e trazer cada vez mais informação para agregar conhecimento e garantir o sucesso dos planejamentos e operação da mobilidade urbana no Brasil. “As cidades têm o poder de reverter essas tendências e melhorar a qualidade e o desempenho dos ônibus, priorizando o transporte coletivo e concentrando investimentos para mover pessoas, em vez de veículos privados”, finaliza Mariana.

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