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Transporte público pode voltar a crescer


Edição nº 99

4/09/2017

Por Renato Siqueira

Mergulhado em um período de baixa nos investimentos em infraestrutura, em função da recessão econômica, com o ambiente político indefinido, o Brasil deve promover os ajustes necessários para voltar a crescer. Sabe-se que é preciso aporte de recursos em diversas áreas, para que a população seja minimamente atendida em suas necessidades mais básicas. Além de saúde, educação, o transporte público tem demandado inúmeros investimentos, nos últimos anos, sendo importante segmento, tanto para o dinamismo econômico quanto para a competitividade das cidades, com geração de empregos e elevação do volume de negócios do setor de serviços.

Dessa forma, impulsionadas pelos programas de investimentos com a abertura de linhas de crédito por parte do governo federal, em meados dos anos 2000, algumas cidades aproveitaram para remodelar os sistemas de transporte público. Corredores de ônibus, criação e ampliação das linhas de metrô e trens, além dos projetos de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) foram algumas das alternativas encontradas para a otimização dos deslocamentos nos grandes e médios conglomerados urbanos.


Mais expertise para evitar erros

Apesar do crédito abundante, em que somente o PAC Grandes Cidades destinou mais de 30 bilhões de reais para serem utilizados nos projetos de mobilidade, muitos deles não saíram do papel e, dentre os que foram executados, em pouco tempo, alguns já apresentam sinais de degradação ou de falta de manutenção. Ou seja, mesmo com os investimentos já realizados, é necessário que se façam ainda mais, agora com mais expertise, para que não se cometam erros como no passado recente.

Algumas cidades brasileiras optaram pelos sistemas de BRT para a melhoria da mobilidade, em função de atrativos como menor tempo de implantação e baixo custo, quando comparados a outros modais, como trem e metrô. Entretanto, nem mesmo a facilidade de crédito e a possibilidade de remodelação da matriz de mobilidade em curto prazo foram suficientes para que houvesse êxito na execução dos projetos de BRT. O que se viu foi uma série de equívocos por parte dos governos locais. Se por um lado, a população de algumas cidades ganhou uma nova forma de se locomover, por outro, o que deveria ser uma solução barata e duradoura, já necessita de reformas.


106 projetos de BRT e 24 implantados

No caso dos corredores estruturados para ônibus, de acordo com levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), existem 24 sistemas de BRT implantados no Brasil, de um total de 106 projetos. Apesar do argumento da entidade de que muitos não saíram do papel em função da crise política e econômica, sabe-se que muitos outros, apresentados ao Ministério das Cidades para obtenção de crédito em prol da melhoria da mobilidade nas cidades, eram, de fato, inconsistentes ou inviáveis. A NTU acredita que os investimentos em infraestrutura precisam ser retomados tão logo o País comece a sair da crise.

Se todos os projetos realmente forem finalizados, o Brasil contará com uma rede de mais de 1,7 mil quilômetros de BRT, distribuídos por 20 estados e 33 municípios. Atualmente, 10 estados e 12 cidades já foram contemplados com esse tipo de solução, totalizando 415 quilômetros de corredores. “A evolução dos sistemas de transportes depende de investimentos. A iniciativa privada também deve investir. É um campo que devemos alcançar, desde que a questão da segurança jurídica seja olhada de forma mais atenta pelos governos”, afirma o diretor da NTU, Marcos Bicalho.

Foto: Arthur Moura


Rio de Janeiro e Belo Horizonte

Entre as cidades que obtiveram êxito na implantação dos sistemas de BRT estão: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, além de Curitiba, que promoveu a revitalização de seus corredores. Aliás, a capital paranaense é a pioneira na adoção dessa tecnologia. A cidade deu o exemplo de que é possível estabelecer uma política de transporte capaz de proporcionar rapidez, segurança e comodidade para a população, ainda na década de 70, com o internacionalmente famoso “Ligeirinho”.

Dessa nova leva de corredores, Belo Horizonte e Rio de Janeiro são as cidades que mais se destacaram. A capital mineira desembolsou, aproximadamente, 1,4 bilhão de reais para a construção de três corredores, totalizando 24 quilômetros de vias exclusivas. O Rio de Janeiro foi além e implantou mais de 120 quilômetros de corredores.

O investimento da Cidade Maravilhosa para a construção desses sistemas foi da ordem de 5 bilhões de reais. Além disso, a capital fluminense ampliou a rede de metrô, com a linha 4 ligando a Zona Sul à Barra da Tijuca, e inaugurou suas primeiras linhas de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). A expectativa agora se concentra nas obras do corredor Transbrasil.


Transbrasil: lote 2 pronto em 2018

De acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação do Rio de Janeiro, a previsão é que a fase de obras no lote 2 do BRT Transbrasil termine em junho de 2018. O corredor deve contemplar a construção de cinco terminais de integração, percorrer 12 bairros, indo do Centro até Deodoro e beneficiando 800 mil pessoas por dia. Serão 16 estações, em 32 quilômetros de vias e o orçamento inicial prevê que sejam investidos aproximadamente 2 bilhões de reais somente neste projeto. A frota inicial estimada para operação no TransBrasil é de 400 ônibus articulados.

Em Belo Horizonte, apesar de não haver estatísticas, o superintendente de Transportes Urbanos da BHTrans, Sergio Carvalho, afirma que a implantação dos corredores de BRT trouxe benefícios para 500 mil usuários do sistema, como: diminuição do tempo de viagem, comodidade e segurança. Também melhorou os acessos aos serviços na capital mineira, com um custo menor para os passageiros. “Através da conexão de linhas, o usuário percorre grande área da cidade, pagando apenas uma única tarifa. Assim, partimos do pressuposto de que o serviço de transporte é fundamental para que os usuários tenham essa acessibilidade aos equipamentos públicos. Nesse sentido, ou seja, melhorando a acessibilidade, permitimos maior acesso a esses locais”, destaca Carvalho.


Norte, Nordeste e Centro-Oeste

Outras alternativas levantadas pela NTU, cujos investimentos são menores quando comparados aos necessários para implantação dos sistemas de BRT, são os corredores e as faixas exclusivas. No caso dos corredores, existem 206 empreendimentos, em 62 cidades, de 22 estados, somando 1.317 quilômetros. Trinta e oito deles já estão em operação; e estão em andamento 47 obras e outros 121 projetos.

Para este tipo de solução de mobilidade, estados do Norte, Nordeste e do Centro-Oeste aparecem como referências. Amazonas, Mato Grosso, Piauí, Goiás e Rio Grande do Norte têm, somados, mais de 50 projetos. As faixas exclusivas têm, ao todo, 159 empreendimentos, para 1.357 quilômetros de vias, contribuindo para o deslocamento diário em 35 cidades, de 17 estados. Já em operação são 125, e cinco em fase de obras; existem ainda 29 projetos. Fortaleza e Rio de Janeiro são as cidades com o maior número de faixas implantadas ou em projetos.

Foto: Arthur Moura


Apesar de ressalvas, BRT agrada passageiros

Em São Paulo, de acordo com a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), o Corredor Metropolitano ABD atende a mais de 300 mil passageiros por dia, entre São Mateus, na zona Leste da capital paulista, e Jabaquara, na zona Sul, passando pelos municípios de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema, com 33 quilômetros, e em mais 12 quilômetros na extensão entre Diadema e a região da estação Berrini da CPTM, na zona Sul. Curitiba dispõe de oito corredores, que operam com ônibus articulados e biarticulados, carregando até 250 passageiros por viagem. Conta com serviços do tipo expresso e parador, operados por cerca de dois mil ônibus, responsáveis pelo transporte de mais de 2 milhões de usuários todos os dias. Existe ainda a possiblidade de ampliação do sistema com mais uma linha a ser implantada até 2018, ligando as regiões Norte e Sul da cidade.

Mesmo com alguns sistemas ainda em fase de obras e outros que apresentam problemas, e apesar de algumas reclamações dos usuários e diminuição da qualidade dos serviços, os passageiros ainda preferem os BRTs a outros modais, como é o caso da gerente de Vendas Cibele de Almeida, que utiliza com frequência o corredor ABD: “A linha não pega trânsito e isso melhorou bastante, porque vai mais rápido até do que se eu viesse de carro”. O consultor de carreiras Obadia Sion, que utiliza o BRT Transoeste, do Rio de Janeiro, no trajeto de casa para o trabalho, também ressalta atributos importantes dos sistemas de corredores de ônibus. “O BRT é bastante prático, com ônibus confortável e sem o problema do trânsito, além de ser seguro. Hoje eu saio de casa às 8 horas da manhã para vir trabalhar, antes eu tinha que sair pelo menos às 7 horas”.

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