Programa da Qualidade do Diesel
O programa visa reduzir prejuízos causados pelo aumento do percentual de biodiesel no diesel.
- Programa da Qualidade do Diesel (PQD) foi lançado para apoiar empresas no uso do combustível.
- O programa visa reduzir prejuízos causados pelo aumento do percentual de biodiesel no diesel.
- 45 garagens já solicitaram o diagnóstico do PQD e 11 receberam relatórios com sugestões para melhorar a qualidade do diesel.
Combustível limpo é garantia de menos poluição para as cidades e mais economia para as empresas
Lançado em setembro do ano passado, o Programa da Qualidade do Diesel (PQD) visa apoiar as empresas nos processos de recebimento, armazenamento e uso do combustível, contribuindo para a eficiência energética e a economia operacional. O PQD chega em momento em que os problemas com o biodiesel adicionado ao diesel convencional vêm se avolumando e gerando prejuízos aos frotistas de todo o País.

A adição de biodiesel ao óleo diesel é considerada uma boa solução para a redução de emissões de poluentes. Foi instituída no Brasil em 2004, com a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). No ano seguinte, a Lei 11.097/2005 tornaria obrigatória a adição de biodiesel ao diesel, na proporção de 2% (B2). Esse percentual foi aumentando gradativamente, até atingir 10% em 2022, chegando a 12% em 2023 e 14% no ano seguinte. A ideia do PNPB era reduzir a utilização de combustíveis fósseis no País, com a introdução do combustível renovável na matriz energética, além de estimular a agricultura familiar e gerar empregos, ao mesmo tempo em que se aumentava a produção do biodiesel.
Prejuízos e danos a motores
A medida funcionou bem até a adição de 10% ao diesel (B10). A partir daí, começaram a ser relatados problemas nos motores, causados pelo surgimento de borra no combustível. Entupimentos de filtros e bicos injetores, diminuição da vida útil dessas peças, dificuldade para dar partida ao motor em locais mais frios, perda de força dos motores e até aumento de consumo do óleo diesel são queixas que se tornaram comuns entre os usuários a partir da introdução do B12. Após esse aumento na mistura, os gastos com manutenção cresceram, a utilização de aditivos passou a ser cada vez mais necessária e o controle dos tanques mais frequente. Isso numa fase pós-pandemia, cujo impacto no setor é bastante conhecido, com queda abrupta de demanda, diminuição de postos de trabalho nas empresas e grave crise de subsistência. Esse cenário levou a Semove a criar o PQD, prestando às empresas um apoio gratuito e oportuno na tentativa de evitar ao máximo as consequências nocivas do aumento do percentual do biodiesel no diesel convencional, fonte crescente de prejuízos no dia a dia das empresas.
O Programa foi cuidadosamente planejado e estruturado para atender as demandas das empresas que buscam aprimorar a qualidade do diesel utilizado. Reconhecendo a importância do conhecimento técnico especializado, a Semove buscou no mercado a renomada especialista Ana Paula Pinto da Silva, para orientar e apoiar as empresas participantes nas melhores práticas para controle da qualidade do diesel. A Federação adquiriu um veículo dedicado, um densímetro portátil e um contador de partículas, que permitem atendimentos nas próprias empresas. Foi também desenvolvido um aplicativo – App do PQD – que permite às empresas monitorar seus próprios indicadores, acompanhar os resultados das análises e ter acesso a recomendações práticas para manter e melhorar a qualidade do combustível.

Como funciona o programa
O primeiro passo é a coleta de amostras de diesel pela equipe de técnicos dos sindicatos associados à Semove, responsáveis pelas medições de fumaça do Convênio Selo Verde (parceria entre Semove, Instituto Estadual do Ambiente e Despoluir – Programa Ambiental do Transporte, da CNT e Sest/Senat). É gerado um book, cuja análise vai mostrar as práticas necessárias a cada garagem. Para se engajar no PQD, a empresa precisa manifestar seu interesse numa visita técnica às suas instalações, para diagnóstico da qualidade do diesel armazenado. Nessa visita, já de posse do book, Ana Paula e a equipe técnica do Programa fazem um check list minucioso e coletam amostra de Arla para teste. É então elaborado um relatório, cuja entrega é feita pessoalmente, com apresentação do diagnóstico. A partir desse momento, a empresa pode formalizar sua adesão ao PQD, se assim o desejar. Nesse caso, o controle da qualidade do combustível passa a ser mensal, com sugestões técnicas de melhoria e acompanhamento de todo o processo, desde a gestão de manutenção de elementos filtrantes e sistema operacional até os cuidados para evitar perdas durante o abastecimento. Quando há evidências de contaminação, testes de diálise são feitos para identificar a possibilidade de reutilização desse diesel. As empresas participantes também contam com treinamentos individualizados e workshops sobre o tema. Em 8 de abril deste ano, como parte do Programa, a Federação promoveu o workshop “Sistemas de Filtragem e suas Aplicações – Diesel”, no Sest Senat de São Gonçalo, em parceria com a Hydac Brasil, com presença de 60 técnicos das empresas de ônibus.

Primeiros resultados e entusiasmo
Até o momento em que esta matéria foi escrita, 45 garagens já solicitaram o diagnóstico do Centro de Serviços Ambientais da Semove e 11 já receberam o relatório: Braso Lisboa, Linave, Pavunense, Ponte Coberta, Gardel, Real Brasil, Grupo Redentor (Barra I e II, Futuro e Redentor) e Tinguá.
A importância desse suporte oferecido às empresas de ônibus se traduz em entusiasmo dos seus dirigentes e técnicos, como foi o caso do diretor da Braso Lisboa, Gustavo Albuquerque que, após a primeira visita à sua garagem, assim que as profissionais Ana Paula e Christiane Chafim de lá saíram, enviou a seguinte mensagem para o gerente de Planejamento e Controle da Semove, Guilherme Wilson: “Oi, Guilherme, passando apenas para informar que a Ana Paula e a Chris saíram agora aqui da Braso Lisboa. Participei da reunião com elas e fiquei muito bem impressionado com o trabalho de vocês nesse Programa da Qualidade do Diesel. Já manifestei a ambas nosso desejo de aderir ao programa e manter esse acompanhamento mensal que, certamente, irá nos provocar a melhorar continuamente, tanto em nossas práticas ambientais quanto em nosso resultado financeiro. Parabéns pela iniciativa e conte conosco nessa parceria. Forte abraço. Gustavo”.
João Martins, diretor da Real Brasil, também demonstrou grande entusiasmo em relação ao programa: “Recebemos com muita alegria a visita da Christiane e da Ana Paula, em outubro do ano passado. Na ocasião, elas nos apresentaram o programa, realizaram uma primeira visita, passaram o dia conosco, fizeram o levantamento do nosso parque de abastecimento e, em fevereiro, emitiram o relatório para a empresa”. Martins destaca que a questão do biodiesel é uma preocupação comum entre as empresas do setor. “É algo diretamente relacionado ao meio ambiente, mas sabemos que há também uma forte dimensão política envolvida”, observa, referindo-se às políticas ambientais do governo federal. Ele menciona transtornos provocados pela atual mistura do biodiesel, especialmente em relação à limpeza de bicos injetores e tanques. Em sua visão, esses problemas tendem a se agravar com o aumento do percentual de biodiesel na composição do combustível. “É algo com que temos que conviver”, lamenta.
A qualidade do diesel entregue pelas distribuidoras também é motivo de atenção para o diretor, que vê no PQD uma resposta oportuna às demandas do setor: “o Programa da Qualidade do Diesel veio ao encontro das necessidades do segmento, não apenas em relação ao biodiesel, mas também quanto à qualidade do diesel entregue pelas distribuidoras. Recebemos o primeiro relatório – um diagnóstico detalhado –, participamos de uma reunião com todos os envolvidos e agora nos preparamos para o segundo encontro, voltado à fase de implantação”. Martins elogia a profundidade do relatório e o andamento das atividades: “O material é muito rico e completo. Já estamos providenciando a aquisição dos insumos recomendados para essa nova etapa. Estamos saindo da teoria e do planejamento para a prática, onde iremos testar a temperatura, a densidade do diesel e aplicar, de fato, esse conhecimento na nossa operação. E conclui, com otimismo: “Estamos muito confiantes e felizes por fazer parte do Programa”.
Para a diretora do Grupo Redentor, Renata Antunes, o PQD criou vários sinais de alerta, chamando a atenção para ações que podem ser feitas para se diminuir os danos provocados pelo alto teor do biodiesel no diesel e para que se possa tirar todo o proveito possível do combustível. “É melhor para todo mundo, para a nossa empresa, para a fornecedora de combustível, que é nossa parceira, para os nossos clientes. É como ter um diagnóstico correto do médico, e passar a contar com o tratamento certo, assegurando a cura do problema”, exemplifica. Renata considera a iniciativa muito positiva e diz: “quem não aderiu, deve aderir”. Na empresa, o entendimento da importância desse acompanhamento levou à criação de um comitê, onde são trocadas informações e impressões sobre o andamento. Apesar de pouco tempo, a diretora afirma já estarem sendo observados resultados.
O gestor de Manutenção da Redentor, Fábio Moraes, falou dos impactos observados a cada aumento do percentual do biodiesel: a diminuição da vida útil de peças (a troca de bicos injetores, por exemplo, que era feita a cada 40 mil km, hoje é feita a cada 15 mil km); carros que falham na rua; contaminação do combustível pela geração de água nos tanques; e outros. “A manutenção tem de se readaptar a cada aumento, temos de estar cada vez mais alertas, preocupados com o cumprimento de metas que, às vezes, não conseguimos por causa dessas mudanças”, afirma. Renata lembra que toda a cadeia por onde o combustível passa fica comprometida, o que prejudica muito o desempenho dos veículos. Ela elogia a criação e execução do Programa: “o trabalho está sendo muito bem-feito”, conclui, dando os parabéns pela iniciativa da Semove e pelo trabalho dos profissionais envolvidos.

Mitigação de danos e boas práticas
Para o engenheiro Guilherme Wilson, os crescentes valores do diesel no orçamento de uma empresa de ônibus, aliados ao aumento de teor do biodiesel nos últimos anos – que leva esses custos já altos a gerar outros, de manutenção – vêm levando as empresas a uma situação financeira de insegurança e preocupação, aumentadas pelas previsões de acréscimo desse teor até 2030. “Essa situação nos levou a buscar uma forma de auxiliar o setor, prestando um serviço que ajudasse a evitar tantas perdas, identificando pontos de melhoria, sugerindo ações corretivas, acompanhando os resultados e incentivando a aplicação de boas práticas. Esperamos contribuir para uma mudança de cultura e para a economia das nossas associadas”, afirma.
A coordenadora Christiane Chafim lembra que o embrião do PQD ocorreu em 2023, com um projeto-piloto feito com uma empresa associada, onde foram implantadas algumas boas práticas que resultaram numa economia de 4,66%. Com o diesel tendo se tornado o maior dos custos no orçamento das empresas de ônibus, toda economia é importante e ela considera que naquele momento “foi identificada a oportunidade de expandir o estudo e levar esse programa para todas as empresas filiadas à Federação”, explica.
Entidades nacionais se preocupam com percentual do biodiesel
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) vem se preocupando com o tema e promoveu um levantamento, em 2021, que mostrou o setor rodoviário como responsável por 83,7% do consumo energético do biodiesel no País. Outros números obtidos pela sondagem demonstram que mais de 60% dos empresários têm evidências de comprometimento do diesel em função da adição do biodiesel; 44,8% dos respondentes consideraram que suas demandas e interesses legítimos não foram considerados na formulação de políticas públicas; e mais de 70% discordam do teor de biodiesel aplicado no Brasil (a média internacional é de 7%).
Em janeiro deste ano, a CNT e mais cinco entidades nacionais (IBP, Brasilcom, Fecombustíveis, Abicom e SindTRR) entregaram ao Ministério das Minas e Energia documento em que defendem o estabelecimento de critérios técnicos; a realização de testes em diferentes condições de uso e com tecnologias veiculares diversas; e estabelecimento de diálogo com todos os envolvidos, antes de qualquer alteração no teor de biodiesel aplicado ao diesel tradicional. As entidades pleiteiam também que eventuais mudanças nas especificações do biodiesel sejam precedidas por avaliações e ocorram de forma transparente.

Mídia especializada também manifesta preocupação
A mídia especializada vem dedicando espaço à preocupação com as possíveis consequências de um aumento de biodiesel superior à capacidade de adaptação dos motores. O premiado jornalista Bóris Feldman, que acaba de ser reconhecido como “O + admirado da imprensa automotiva do Brasil”, vem há anos alertando para os problemas da adição de biodiesel acima do percentual de 10% (B10). No programa Autopapo, levado ao ar em 21 de abril do ano passado, ele denuncia: “a verdade pura e simples, que seus produtores negam para defender seu faturamento, é que, enquanto a mistura do biodiesel se manteve durante anos num limite de 10%, o chamado B10, 10% de biodiesel, não se registravam problemas. No ano passado, o percentual subiu para 12% e começaram as reclamações. Em março deste ano, o diesel foi de B12 para B14 e os problemas se agravaram”.
Testes realizados com o B15 na empresa de ônibus Sambaíba, de São Paulo, são mostrados no vídeo de Feldman, com os resultados e a opinião dos envolvidos.
Também a Universidade de Brasília (UnB) promoveu estudo cujo resultado mostrou que o aumento no percentual de biodiesel a partir de 7% (utilizado nos países europeus) eleva a emissão de CO2 e diminui a potência dos motores, provocando maior consumo de diesel e perdendo valor para a questão ambiental.
Aumento do percentual x preços dos alimentos
O início do abastecimento com o B15, previsto para março deste ano, foi adiado pelo governo federal. A decisão foi tomada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), sob a justificativa de que o biodiesel, embora mais interessante do ponto de vista ambiental, encarece o diesel, o que pode elevar os preços dos alimentos, uma vez que a maioria é transportada por caminhões. Note-se que não só os alimentos, mas produtos farmacêuticos e todo o tipo de bens, desde eletrodomésticos a vestuário, são deslocados no País pelas nossas rodovias.
A política ambiental brasileira prevê a continuação do aumento do percentual do biodiesel até o ano de 2030. O ideal é que esse aumento não traga prejuízos a frotistas e proprietários de veículos movidos a diesel. Mas, enquanto a qualidade desse combustível não melhora, o que se pode fazer para evitar danos à economia das empresas é buscar minimizar os prejuízos causados por meio de medidas como aquelas introduzidas pelo Programa criado pela Semove.