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Programa da Qualidade do Diesel

O programa visa reduzir prejuízos causados pelo aumento do percentual de biodiesel no diesel.

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Por Redação Revista Ônibus • 17 de junho de 2025
  • Programa da Qualidade do Diesel (PQD) foi lançado para apoiar empresas no uso do combustível.
  • O programa visa reduzir prejuízos causados pelo aumento do percentual de biodiesel no diesel.
  • 45 garagens já solicitaram o diagnóstico do PQD e 11 receberam relatórios com sugestões para melhorar a qualidade do diesel.

Combustível limpo é garantia de menos poluição para as cidades e mais economia para as empresas

Lançado em setembro do ano passado, o Programa da Qualidade do Diesel (PQD) visa apoiar as empresas nos processos de recebimento, armazenamento e uso do combustível, contribuindo para a eficiência energética e a economia operacional. O PQD chega em momento em que os problemas com o biodiesel adicionado ao diesel convencional vêm se avolumando e gerando prejuízos aos frotistas de todo o País.

A adição de biodiesel ao óleo diesel é considerada uma boa solução para a redução de emissões de poluentes. Foi instituída no Brasil em 2004, com a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). No ano seguinte, a Lei 11.097/2005 tornaria obrigatória a adição de biodiesel ao diesel, na proporção de 2% (B2). Esse percentual foi aumentando gradativamente, até atingir 10% em 2022, chegando a 12% em 2023 e 14% no ano seguinte. A ideia do PNPB era reduzir a utilização de combustíveis fósseis no País, com a introdução do combustível renovável na matriz energética, além de estimular a agricultura familiar e gerar empregos, ao mesmo tempo em que se aumentava a produção do biodiesel.

Prejuízos e danos a motores

A medida funcionou bem até a adição de 10% ao diesel (B10). A partir daí, começaram a ser relatados problemas nos motores, causados pelo surgimento de borra no combustível. Entupimentos de filtros e bicos injetores, diminuição da vida útil dessas peças, dificuldade para dar partida ao motor em locais mais frios, perda de força dos motores e até aumento de consumo do óleo diesel são queixas que se tornaram comuns entre os usuários a partir da introdução do B12. Após esse aumento na mistura, os gastos com manutenção cresceram, a utilização de aditivos passou a ser cada vez mais necessária e o controle dos tanques mais frequente. Isso numa fase pós-pandemia, cujo impacto no setor é bastante conhecido, com queda abrupta de demanda, diminuição de postos de trabalho nas empresas e grave crise de subsistência. Esse cenário  levou a Semove a criar o PQD, prestando às empresas um apoio gratuito e oportuno na tentativa de evitar ao máximo as consequências nocivas do aumento do percentual do biodiesel no diesel convencional, fonte crescente de prejuízos no dia a dia das empresas.

O Programa foi cuidadosamente planejado e estruturado para atender as demandas das empresas que buscam aprimorar a qualidade do diesel utilizado. Reconhecendo a importância do conhecimento técnico especializado, a Semove buscou no mercado a renomada especialista Ana Paula Pinto da Silva, para orientar e apoiar as empresas participantes nas melhores práticas para controle da qualidade do diesel. A Federação adquiriu um veículo dedicado, um densímetro portátil e um contador de partículas, que permitem atendimentos nas próprias empresas. Foi também desenvolvido um aplicativo – App do PQD – que permite às empresas monitorar seus próprios indicadores, acompanhar os resultados das análises e ter acesso a recomendações práticas para manter e melhorar a qualidade do combustível.

Combustíveis coletados com níveis diferentes de impurezas e contaminação

Como funciona o programa

 O primeiro passo é a coleta de amostras de diesel pela equipe de técnicos dos sindicatos associados à Semove, responsáveis pelas medições de fumaça do Convênio Selo Verde (parceria entre Semove, Instituto Estadual do Ambiente e Despoluir – Programa Ambiental do Transporte, da CNT e Sest/Senat). É gerado um book, cuja análise vai mostrar as práticas necessárias a cada garagem. Para se engajar no PQD, a empresa precisa manifestar seu interesse numa visita técnica às suas instalações, para diagnóstico da qualidade do diesel armazenado. Nessa visita, já de posse do book, Ana Paula e a equipe técnica do Programa fazem um check list minucioso e coletam amostra de Arla para teste. É então elaborado um relatório, cuja entrega é feita pessoalmente, com apresentação do diagnóstico. A partir desse momento, a empresa pode formalizar sua adesão ao PQD, se assim o desejar. Nesse caso, o controle da qualidade do combustível passa a ser mensal, com sugestões técnicas de melhoria e acompanhamento de todo o processo, desde a gestão de manutenção de elementos filtrantes e sistema operacional até os cuidados para evitar perdas durante o abastecimento. Quando há evidências de contaminação, testes de diá­lise são feitos para identificar a possibilidade de reutilização desse diesel. As empresas participantes também contam com treinamentos individualizados e workshops sobre o tema. Em 8 de abril deste ano, como parte do Programa, a Federação promoveu o workshop “Sistemas de Filtragem e suas Aplicações – Diesel”, no Sest Senat de São Gonçalo, em parceria com a Hydac Brasil, com presença de 60 técnicos das empresas de ônibus.

Primeiros resultados e entusiasmo 

Até o momento em que esta matéria foi escrita, 45 garagens já solicitaram o diagnóstico do Centro de Serviços Ambientais da Semove e 11 já receberam o relatório: Braso Lisboa, Linave, Pavunense, Ponte Coberta, Gardel, Real Brasil, Grupo Redentor (Barra I e II, Futuro e Redentor) e Tinguá. 

A importância desse suporte oferecido às empresas de ônibus se traduz em entusiasmo dos seus dirigentes e técnicos, como foi o caso do diretor da Braso Lisboa, Gustavo Albuquerque que, após a primeira visita à sua garagem, assim que as profissionais Ana Paula e Christiane Chafim de lá saíram, enviou a seguinte mensagem para o gerente de Planejamento e Controle da Semove, Guilherme Wilson: “Oi, Guilherme, passando apenas para informar que a Ana Paula e a Chris saíram agora aqui da Braso Lisboa. Participei da reunião com elas e fiquei muito bem impressionado com o trabalho de vocês nesse Programa da Qualidade do Diesel. Já manifestei a ambas nosso desejo de aderir ao programa e manter esse acompanhamento mensal que, certamente, irá nos provocar a melhorar continuamente, tanto em nossas práticas ambientais quanto em nosso resultado financeiro. Parabéns pela iniciativa e conte conosco nessa parceria. Forte abraço. Gustavo”.

João Martins, diretor da Real Brasil, também demonstrou grande entusiasmo em relação ao programa: “Recebemos com muita alegria a visita da Christiane e da Ana ­Paula, em outubro do ano passado. Na ocasião, elas nos apresentaram o programa, realizaram uma primeira visita, passaram o dia conosco, fizeram o levantamento do nosso parque de abastecimento e, em fevereiro, emitiram o relatório para a empresa”. Martins destaca que a questão do biodiesel é uma preocupação comum entre as empresas do setor. “É ­algo diretamente relacionado ao meio ambiente, mas sabemos que há também uma forte dimensão política envolvida”, observa, referindo-se às políticas ambientais do governo federal. Ele menciona transtornos provocados pela atual mistura do biodiesel, especialmente em relação à limpeza de bicos injetores e tanques. Em sua visão, esses problemas tendem a se agravar com o aumento do percentual de biodiesel na composição do combustível. “É algo com que temos que conviver”, lamenta.

A qualidade do diesel entregue pelas distribuidoras também é motivo de atenção para o diretor, que vê no PQD uma resposta oportuna às demandas do setor: “o Programa da Qualidade do Diesel veio ao encontro das necessidades do segmento, não apenas em relação ao biodiesel, mas também quanto à qualidade do diesel entregue pelas distribuidoras. Recebemos o primeiro relatório – um diagnóstico detalhado –, participamos de uma reunião com todos os envolvidos e agora nos preparamos para o segundo encontro, voltado à fase de implantação”. Martins elogia a profundidade do relatório e o andamento das atividades: “O material é muito rico e completo. Já estamos providenciando a aquisição dos insumos recomendados para essa nova etapa. Estamos saindo da teoria e do planejamento para a prática, onde iremos testar a temperatura, a densidade do diesel e aplicar, de fato, esse conhecimento na nossa operação. E conclui, com otimismo: “Estamos muito confiantes e felizes por fazer parte do Programa”.

Para a diretora do Grupo Redentor, Renata Antunes, o PQD criou vários sinais de alerta, chamando a atenção para ações que podem ser feitas para se diminuir os danos provocados pelo alto teor do biodiesel no diesel e para que se possa tirar todo o proveito possível do combustível. “É melhor para todo mundo, para a nossa empresa, para a fornecedora de combustível, que é nossa parceira, para os nossos clientes. É como ter um diagnóstico correto do médico, e passar a contar com o tratamento certo, assegurando a cura do problema”, exemplifica. Renata considera a iniciativa muito positiva e diz: “quem não aderiu, deve aderir”. Na empresa, o entendimento da importância desse acompanhamento levou à criação de um comitê, onde são trocadas informações e impressões sobre o andamento. Apesar de pouco tempo, a diretora afirma já estarem sendo observados resultados.

O gestor de Manutenção da Redentor, Fábio Moraes, falou dos impactos observados a cada aumento do percentual do biodiesel: a diminuição da vida útil de peças (a troca de bicos injetores, por exemplo, que era feita a cada 40 mil km, hoje é feita a cada 15 mil km); carros que falham na rua; contaminação do combustível pela geração de água nos tanques; e outros. “A manutenção tem de se readaptar a cada aumento, temos de estar cada vez mais alertas, preocupados com o cumprimento de metas que, às vezes, não conseguimos por causa dessas mudanças”, afirma. Renata lembra que toda a cadeia por onde o combustível passa fica comprometida, o que prejudica muito o desempenho dos veículos. Ela elogia a criação e execução do Programa: “o trabalho está sendo muito bem-feito”, conclui, dando os parabéns pela iniciativa da Semove e pelo trabalho dos profissionais envolvidos.

Mitigação de danos e boas práticas

Para o engenheiro Guilherme Wilson, os crescentes valores do diesel no orçamento de uma empresa de ônibus, aliados ao aumento de teor do biodiesel nos últimos anos – que leva esses custos já altos a gerar outros, de manutenção – vêm levando as empresas a uma situa­ção financeira de insegurança e preocupação, aumentadas pelas previsões de acréscimo desse teor até 2030.  “Essa situação nos levou a buscar uma forma de auxiliar o setor, prestando um serviço que ajudasse a evitar tantas perdas, identificando pontos de melhoria, sugerindo ações corretivas, acompanhando os resultados e incentivando a aplicação de boas práticas. Esperamos contribuir para uma mudança de cultura e para a economia das nossas associadas”, afirma.

A coordenadora Christiane Chafim lembra que o embrião do PQD ocorreu em 2023, com um projeto-piloto feito com uma empresa associada, onde foram implantadas algumas boas práticas que resultaram numa economia de 4,66%. Com o diesel tendo se tornado o maior dos custos no orçamento das empresas de ônibus, toda economia é importante e ela considera que naquele momento “foi identificada a oportunidade de expandir o estudo e levar esse programa para todas as empresas filiadas à Federação”, explica.

Entidades nacionais se preocupam com percentual do biodiesel

A Confederação Nacional do Transporte (CNT) vem se preocupando com o tema e promoveu um levantamento, em 2021, que mostrou o setor rodoviário como responsável por 83,7% do consumo energético do biodiesel no País. Outros números obtidos pela sondagem demonstram que mais de 60% dos empresários têm evidências de comprometimento do diesel em função da adição do biodiesel; 44,8% dos respondentes consideraram que suas demandas e interesses legítimos não foram considerados na formulação de políticas públicas; e mais de 70% discordam do teor de biodiesel aplicado no Brasil (a média internacional é de 7%). 

Em janeiro deste ano, a CNT e mais cinco entidades nacionais (IBP, Brasilcom, Fecombustíveis, Abicom e SindTRR) entregaram ao Ministério das Minas e Energia documento em que defendem o estabelecimento de critérios técnicos; a realização de testes em diferentes condições de uso e com tecnologias veiculares diversas; e estabelecimento de diálogo com todos os envolvidos, antes de qualquer alteração no teor de biodiesel aplicado ao diesel tradicional. As entidades pleiteiam também que even­tuais mudanças nas especificações do biodiesel sejam precedidas por avaliações e ocorram de forma transparente. 

Mídia especializada também manifesta preocupação

A mídia especializada vem dedicando espaço à preocupação com as possíveis conse­quências de um aumento de biodiesel superior à capacidade de adaptação dos motores. O premiado jornalista Bóris Feldman, que acaba de ser reconhecido como “O + admirado da imprensa automotiva do Brasil”, vem há anos alertando para os problemas da adição de biodiesel acima do percentual de 10% (B10). No programa Autopapo, levado ao ar em 21 de abril do ano passado, ele denuncia: “a verdade pura e simples, que seus produtores negam para defender seu faturamento, é que, enquanto a mistura do biodiesel se manteve durante anos num limite de 10%, o chamado B10, 10% de biodiesel, não se registravam problemas. No ano passado, o percentual subiu para 12% e começaram as reclamações. Em março deste ano, o diesel foi de B12 para B14 e os problemas se agravaram”. 

Testes realizados com o B15 na empresa de ônibus Sam­baíba, de São Paulo, são mostrados no vídeo de Feldman, com os resultados e a opinião dos envolvidos.

Também a Universidade de Brasília (UnB) promoveu estudo cujo resultado mostrou que o aumento no percentual de biodiesel a partir de 7% (utilizado nos países europeus) eleva a emissão de CO2 e diminui a potência dos motores, provocando maior consumo de diesel e perdendo valor para a questão ambiental. 

Aumento do percentual x preços dos alimentos

O início do abastecimento com o B15, previsto para março deste ano, foi adiado pelo governo federal.  A decisão foi tomada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), sob a justificativa de que o biodiesel, embora mais interessante do ponto de vista ambiental, encarece o diesel, o que pode elevar os preços dos alimentos, uma vez que a maioria é transportada por caminhões. Note-se que não só os alimentos, mas produtos farmacêuticos e todo o tipo de bens, desde eletrodomésticos a vestuário, são deslocados no País pelas nossas rodovias.

A política ambiental brasileira prevê a continuação do aumento do percentual do biodiesel até o ano de 2030. O ideal é que esse aumento não traga prejuízos a frotistas e proprietários de veículos movidos a diesel. Mas, enquanto a qualidade desse combustível não melhora, o que se pode fazer para evitar danos à economia das empresas é buscar minimizar os prejuízos causados por meio de medidas como aquelas introduzidas pelo Programa criado pela Semove.

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