Ambiente da Pesquisa em Transportes no Brasil e a Mobilidade Urbana Sustentável
Leis como o CTB, Estatuto das Cidades e Lei de Mobilidade Urbana estabelecem diretrizes para a mobilidade sustentável.
- Brasil registra 33 mortes diárias em acidentes de motocicleta, de acordo com o Datasus.
- Leis como o CTB, Estatuto das Cidades e Lei de Mobilidade Urbana estabelecem diretrizes para a mobilidade sustentável.
- Pesquisas buscam reduzir a dependência do transporte individual e melhorar a segurança de pedestres e ciclistas.
O cenário da mobilidade urbana brasileira em 2026 não pode ser analisado sem considerar os ecos do Brasil do passado. Aquele da escolha praticamente incondicional pelo rodoviarismo a partir de 1930 a um tardio e ainda incipiente reconhecimento do transporte ativo como elemento central para a mobilidade urbana sustentável. Vivemos a época do “carro popular” em 1990, testemunhamos o crescimento de aglomerações urbanas sem qualquer planejamento integrado ao sistema de transportes, observamos a política de massificação do uso das motocicletas e choramos o seu desastre social a partir de 2000. De acordo com o Datasus, ao final do dia de hoje outras 33 pessoas perderão suas vidas sobre motocicletas, sendo assim, amanhã, e depois, e depois…, em um ciclo destrutivo que parece irreversível.
Parte de nossas escolhas do passado se refletiu no acervo técnico e científico produzido pela academia e instituições técnicas nas mais diversas esferas administrativas. Importamos, ainda na década de 1960, um modelo de planejamento de transportes norte-americano que praticamente desconsiderava a integração seminal entre o sistema de atividades e o sistema de transportes, incentivava a segregação espacial e, consequentemente, aumentava a dependência do transporte motorizado, além de excluir pedestres e ciclistas no cerne de suas ferramentas de modelagem. Sobre a micromobilidade, aquela que olha finalmente para os usuários mais vulneráveis, os que usam os elementos da mobilidade de forma sustentável, seja do ponto de vista ambiental, social e econômico, basta dizer que, em pleno século 21, nossos manuais ainda se referem ao tempo de verde dado a uma travessia de pedestre como “tempo perdido”. Perdido para quem?
A boa notícia é que a evolução na política de mobilidade urbana no País também se faz presente. Dentre os ecos positivos e duradouros, tivemos o CTB em 1997, o estatuto das cidades em 2001 e a Lei de Mobilidade Urbana em 2012, que estabelecem diretrizes firmes e essenciais para trazermos o protagonismo de nossa mobilidade para o ser humano e não para o transporte motorizado individual.
A política de produção científica do País dá sinais de alinhamento aos recentes avanços na política de mobilidade. Observam-se esforços no sentido da ampliação geográfica da nucleação e produção científica. De acordo com a Diretoria de Avaliação da Capes, em 2000, os estados do Rio de Janeiro e São Paulo concentravam aproximadamente 62% de toda a produção científica brasileira. Em 2024, os mesmo dois estados passaram a responder por “apenas” 39% dessa produção. Sob a ótica da mobilidade urbana, a diversidade de cenários socioeconômicos em nossas regiões é elemento fundamental para a produção de pesquisas que produzam resultados mais efetivos e moldados às diversas realidades encontradas em nosso País.
É possível dizer que a produção científica na área de transportes no Brasil, apesar de ter sido fortemente impactada pelo período pandêmico e sucessivos retrocessos na política nacional de pesquisa entre 2018 e 2022, “passou” na prova de resiliência e segue firme em busca de novos caminhos para a mobilidade urbana sustentável. A Associação Nacional de Pesquisa e Ensino e Transportes (Anpet), maior fórum nacional de discussão técnico-científica do setor, em sua 39ª edição em Goiânia (2025), trouxe mais de 500 trabalhos inéditos com foco específico em transportes. O encontro teve a participação de 695 congressistas de 186 instituições, entre universidades, centros de pesquisa, empresas, órgãos públicos e organizações do setor de 21 unidades federativas do Brasil, além de representantes da Colômbia, Alemanha, Estados Unidos, Argentina, Malta, Paraguai e Uruguai.
Dentre as questões com maior concentração de esforços de pesquisa, algumas merecem destaque. Como reduzir a crescente dependência do transporte individual em geral, mas hoje, com especial atenção ao uso das motocicletas? Apesar dos claros avanços para o fortalecimento do transporte público em termos de infraestrutura, regras operacionais e incentivos tarifários, observa-se uma crescente e preocupante migração de passageiros para o transporte por motocicletas. Parte do problema (talvez a maior) esteja associada aos tempos de viagem que, quando comparados, são naturalmente diferentes. Existem, entretanto, outros desafios coletivos nessa mudança e o maior deles é a tragédia social que os sinistros com motociclistas representam. Desta forma, do lado do transporte público, diversas pesquisas procuram otimizar o processo de caracterização da demanda e planejamento de linhas em tempo real, a partir de big data e inteligência artificial, maximizando o IPK sem comprometer o conforto e diminuindo o tempo de viagem. Em paralelo, sob a ótica do motociclista, crescem iniciativas para entender os fatores comportamentais que levam ao excesso de velocidade da categoria, reconhecendo os paradigmas modernos dos sistemas seguros e visão zero, em que a vulnerabilidade e a energia (velocidade) são elemento centrais a serem observados para a redução da letalidade em nossas vias.
Outra área que merece destaque é a micromobilidade. Pedestres e ciclistas têm recebido atenção especial da academia principalmente nos últimos 10 anos. Os avanços mais significativos estão no sentido de conceber estratégias de avaliação da caminhabilidade e da qualidade de nossa política cicloviária. Em nosso novo olhar para estes usuários, a criação de indicadores multidimensionais para a qualidade da caminhada em nossas ruas, como o iCam, representa um avanço significativo para o desenvolvimento de políticas urbanas verdadeiramente inclusivas e sustentáveis.
Em outra frente, entender como programas de bicicleta compartilhada, por exemplo, podem impactar positivamente no deslocamento terminal, atuando de forma complementar e, portanto, aumentando a demanda do transporte público; e avaliar o impacto de diferentes infraestruturas cicláveis e avanços tecnológicos trazidos pelas bicicletas assistidas no incentivo ao uso deste modo de transporte, são temas atuais em vários de nossos centros de pesquisa.
O futuro da mobilidade urbana no Brasil é algo que se desvela como desafiador, entretanto é seguro dizer que, a comunidade científica brasileira da área de transportes se apresenta como componente fundamental para catalizar esforços e iniciativas existentes além de liderar iniciativas em prol de sistemas de transporte urbanos equitativos e sustentáveis em nossas cidades.

Prof. Flávio José Craveiro Cunto, Presidente da Associação Nacional de Ensino e Pesquisa em Transportes