Armando Guerra Júnior: “Nossos valores refletem nossos princípios”

09/09/2019 | Edição nº 107

Revista Ônibus: A Federação está vivendo uma nova fase, com grandes mudanças, após a crise que afetou todo o Estado. Pode dizer o que está sendo feito nesta nova fase?

Armando Guerra: Estamos implantando uma nova governança. O processo iniciou com orientação e apoio do Conselho de Gestão, por mudanças internas de comportamento, visando à ética e à transparência, que se consolidam por meio de implantação de rigoroso Programa de Integridade e Conformidade. A ideia é que cada um de nossos colaboradores e dirigentes esteja perfeitamente alinhado com os pilares do Programa, fazendo nascer uma entidade de conduta cada vez mais eficiente e transparente.

 

R.O.: Quais os principais problemas enfrentados neste período?

A.G.: Encontramos, sem dúvida, várias dificuldades e temos muitos desafios a serem enfrentados. Dentre esses, ações civis públicas que chegam a pedir o fim da Federação e estipulam multas milionárias. Há também inúmeros projetos de lei, tramitando tanto na Câmara de Vereadores como na Alerj, cuja aprovação aumentaria significativamente os custos da operação, com inevitáveis impactos na tarifa. Na verdade, isso não interessa a ninguém, pois não só dificulta a implantação de melhorias, pelo empresário de transporte por ônibus, como vai onerar os passageiros pagantes, diminuindo ainda mais a demanda, que já vem caindo em todo o País. O que acontece aqui entre nós é uma distorção, que leva os mais pobres a arcarem com os ônus de transporte daqueles que, também pobres, trabalham e podem contar com vale-transporte. Não podemos ignorar a crise por que passa o setor, que é grave, e os riscos de se degradar o transporte público, aumentando as dificuldades que já existem.

 

R.O: E o que está sendo feito para enfrentar esses problemas e minimizar os riscos para o setor?

A.G.: Com relação às ações civis públicas, estamos fazendo a mediação com o Ministério Público, pautando esse relacionamento pela total transparência e buscando um acordo quanto às penalidades a serem impostas, de modo que essas não inviabilizem a operação pelas empresas. A situação aqui no Estado já causou o fechamento de várias empresas de transporte por ônibus, e isso gera um cenário ruim para a maior parte dos trabalhadores, que dependem do ônibus para seus deslocamentos diários, além da própria insegurança que traz para o setor.

 

R.O.: E o relacionamento com o governo estadual, nesse cenário de mudanças?

A.G.: Como nos propomos no relacionamento com toda a sociedade, procuramos manter total transparência em todas as informações prestadas e manter relações respeitosas, em que os direitos e deveres de ambas as partes sejam assegurados. Esperamos conseguir resolver questões como a tarifária, uma vez que há que se manter a modicidade da tarifa, prevista na própria legislação. O que está mais difícil a cada dia, pois que o setor público não tem condições de subsidiar o transporte público, como ocorre em outras cidades, como São Paulo, por exemplo, e os custos da operação vêm aumentando, enquanto o número de passageiros pagantes está caindo. Ao se criar gratuidades em qualquer serviço, por exemplo, é preciso que fique bem claro para toda a sociedade quem paga essa conta. Outra questão diz respeito ao Bilhete Único Intermunicipal – BUI – benefício concedido pelo Estado aos cidadãos, a fim de facilitar a empregabilidade, pois a moradia longe do local do emprego desencorajava os empregadores na contratação de seus trabalhadores, pelo aumento dos custos de deslocamento e o risco maior de absenteísmo. É preciso que haja um fluxo de recursos regular, pelo poder concedente, ao operador, referente ao benefício que concede ao cidadão. Não me refiro apenas ao operador do ônibus, mas de todos os outros modais: metrô, trem, barcas etc. No caso da bilhetagem eletrônica, acabamos de lançar o Riocard Mais, que não só otimiza a tecnologia e a praticidade dos antigos cartões, como oferece benefícios aos portadores, como descontos na aquisição de produtos e serviços. Estamos concentrando nossos esforços em três pontos básicos: aumentar a segurança, evitando fraudes, modernizar o sistema e melhorar o atendimento.

 

R.O.: E quanto à licitação das linhas intermunicipais?

A.G.: No momento, aguardamos a revisão do edital pelo poder concedente. A demanda anteriormente considerada se baseou em números de 2014 e, de lá para cá, houve queda de cerca de 30% no número de passageiros transportados, o que gera a necessidade de adequação dos riscos da concessão, em cenário de tantas vulnerabilidades e incertezas econômicas e sociais em nosso Estado. Mas a licitação é vista com bons olhos, pois temos uma expectativa de que aumentará a segurança jurídica.

 

R.O.: Como definiria a nova fase da Federação, representante de todo o segmento de transporte por ônibus no estado do Rio de Janeiro?

A.G.: Eu diria que nossos valores refletem nossos princípios, considerando-se que princípios são aquelas verdades inabaláveis e indiscutíveis, que fazem parte de nossa essência e de que não abrimos mão. E valores são normas criadas para alinhar comportamentos e atitudes a esses princípios. Em nosso novo modelo de governança, esperamos vivenciar essa máxima, aproveitando toda a experiência do passado e fazendo dos erros oportunidades de aprendizado, na construção de um futuro melhor para a mobilidade do estado do Rio de Janeiro.

 

Foto: Carol Veras

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