Bilhetagem Eletrônica: tecnologia a serviço da mobilidade urbana

06/09/2021 |

Sistema melhora qualidade de vida e torna cidades mais amigáveis

Utilizados para facilitar o uso do transporte público, sistemas de bilhetagem eletrônica se espalham pelo mundo, com caraterísticas diferentes e adaptação às realidades locais. No Brasil, existem vários modelos desses sistemas, apoiados por tecnologias diversas. Mas, embora os cartões de pagamento ou gratuidade sejam parte da rotina dos passageiros do transporte público, nem todos sabem como funciona ou o que é, exatamente, um sistema de bilhetagem eletrônica.

Trata-se de um conjunto de equipamentos e softwares que permitem a administração de passagens no transporte coletivo urbano, envolvendo desde sua emissão, até a venda e compra de créditos que irão permitir o acesso ao modal escolhido, oferecendo vantagens, como descontos em integrações e habilitação de direitos como o benefício trabalhista do vale-transporte, por exemplo.

FACILITANDO A MOBILIDADE URBANA
A mobilidade é um dos pontos-chave para o bom funcionamento das cidades, e um problema para a maioria das metrópoles. O aumento do número de veículos individuais saturou as vias e criou problemas para o deslocamento das pessoas, assim como para a sua qualidade de vida, uma vez que o excesso de veículos aumenta significativamente o nível de ruídos, a emissão de poluentes para a atmosfera e, consequentemente, os problemas de saúde advindos da má qualidade do ar. É cada vez mais importante que sejam oferecidos sistemas de transporte público eficientes, interoperáveis e de fácil utilização no dia a dia, diminuindo congestionamentos e as mazelas por eles provocadas. E a bilhetagem eletrônica é um item fundamental para isso.

Muito mais do que um simples sistema de pagamento a bordo, a bilhetagem permite agregar funções como GPS, wi-fi , monitoramento de tempo das viagens e até da forma de dirigir de cada motorista. As informações coletadas podem contribuir para o aprimoramento do serviço prestado e o planejamento de projetos de mobilidade urbana. Nesta matéria, vamos mostrar um pouco sobre o sistema de bilhetagem de algumas cidades do Brasil e do exterior.

RIO DE JANEIRO É MODELO
Considerado um modelo a ser seguido, no livro “Vale-Transporte: Uma Conquista Nacional”, de Celso Campello Neto (veja na página 21), o sistema do Rio de Janeiro é um dos maiores do mundo em número de transações, e tem avançado na modernização e tecnologia. Parte desse avanço, a biometrial facial, tecnologia usada pelo sistema Riocard Mais cuja adoção em larga escala, por si só, já representou grande desafio, permite a identificação do portador dos cartões de benefícios, impedindo sua utilização fraudulenta, colaborando, assim, com sua gestão pelo poder concedente. Em 2019, teve início processo de modernização que priorizou a facilitação de uso do sistema Riocard Mais pelos clientes do transporte público. Além de mudança de logomarca, a migração dos cartões transformou as 25 versões então existentes em apenas três – Riocard Mais Expresso, Vale-Transporte e Empresarial –, simplificou as regras, aprimorou a comunicação com os clientes, mudou o visual dos cartões e focou em três atributos: praticidade, benefícios e tecnologia. O processo, pela magnitude e o sucesso alcançado, constituiu um marco para a bilhetagem, e um exemplo para outras cidades (leia mais na página 18).

Os cartões Riocard Mais permitem inclusão de benefícios tarifários, como Bilhete Único Carioca, Bilhete Único Intermunicipal e Bilhete Único de Niterói. O app Riocard Mais permite consulta de saldo, extrato, recarga de créditos e localização de pontos físicos de atendimento. O atendente virtual Tomais coloca a inteligência artificial ao dispor dos clientes. E, com o recém-criado aplicativo Cartão Digital, o pagamento pode ser feito por aproximação de smartphones, relógios e pulseiras, recurso valioso em tempos de pandemia, graças à tecnologia NFC (Near Field Communication). Para tal, ônibus, metrô e trens atualizam seus validadores, aumentando a usabilidade da tecnologia, já disponível em mais de 60% do total de equipamentos instalados no sistema de transporte. O portador de um cartão Riocard Mais ainda conta com o Clube Riocard, parceria entre Riocard Mais e Ecobonuz, onde o cliente obtém vantagens através do uso e recarga dos cartões e do cumprimento de desafios (veja no encarte Riocard Mais desta edição).

Considerado um facilitador da mobilidade no Estado, o Riocard Mais é o único cartão aceito em todos os modais de transporte coletivo do estado do Rio de Janeiro, abrangendo 70% dos municípios. Para a diretora executiva da Riocard TI, Renata Faria, o grande diferencial do sistema é “exatamente a interoperabilidade, a facilidade de se ter acesso, com um único cartão, a todos os modais de transporte público. Que ainda oferece o conforto e a facilidade de ter nele habilitados benefícios tarifários de vários municípios onde é aceito. Temos o Bilhete Único Intermunicipal, o Bilhete Único Carioca, o de Niterói, de Macaé, com todas as regras desses benefícios implantadas nele”. Renata ressalta que, nas últimas décadas, uma série de transformações tecnológicas vem redesenhando o ambiente competitivo e a Riocard segue na vanguarda, operando um parque tecnológico de última geração.”

Segundo Leonardo Ceragioli, diretor comercial da empresa Prodata, fornecedora de equipamentos para o sistema de bilhetagem do Rio de Janeiro desde 2003, os equipamentos utilizados hoje podem ficar ligados diretamente ao sistema Riocard, permitem análise de gestão dos cartões, com listas de recargas e bloqueios produzidas de forma instantânea. Ele explica que o sistema do Rio é inspirado no de Hong Kong, oferece tranquilidade e segurança aos clientes, que podem utilizar os cartões em qualquer modal. Ceragioli esclarece que o produto apresenta balanços e tem a segurança de ter seus números auditados.

Miguel Padula, gerente comercial da empresa NXP, fabricante de semicondutores com 30 anos no mercado brasileiro e fornecedora da tecnologia Mifare Plus utilizada pela Riocard, diz que a migração para os novos cartões Riocard Mais zerou as fraudes, trazendo ainda mais segurança para o sistema.

Cassiano Rusycki, diretor executivo da Riocard Mais, diz que um dos pilares da empresa “é transformar as conexões dos clientes em experiências positivas e agregar valor ao dia a dia das pessoas”. Segundo ele, a evolução precisa ser contínua, para, cada vez mais, facilitar o acesso dos passageiros ao transporte. “A Riocard tem 18 anos e é referência internacional, pela complexidade do sistema, sua abrangência e funcionamento, permitindo o uso de um único cartão em todo o Estado. Isso é uma grande facilidade e um grande conforto para o nosso cliente”, afirma. Rusycki fez questão de apresentar alguns números do sistema Riocard Mais.

Veja abaixo:

O cartão Riocard Mais é aceito em todos os modais de transporte coletivo do estado do Rio de Janeiro

Curitiba: multiplicidade de sistemas gera dificuldade para os usuários

Considerada modelo de mobilidade no Brasil e pioneira mundial na criação de BRTs, Curitiba tem hoje, em sua região metropolitana, um sistema de bilhetagem questionado pelos empresários e complexo para os usuários, principalmente aqueles que ultrapassam os limites da capital, devido a sua complexidade e à gestão pela prefeitura do Município.

Na RM de Curitiba, a bilhetagem é dividida em quatro cartões municipais e um metropolitano, cada um com uma tecnologia, não compatível com as demais, conforme tabela acima.

Segundo Dante Francheski, gestor da Auto Viação São José dos Pinhais e do Consórcio VEM de bilhetagem, que opera a cobrança de passagens dos ônibus na cidade de São José dos Pinhais, esse sistema dividido “não é nenhuma maravilha para o usuário de São José. Olha que loucura! É uma realidade muito dura para o passageiro. É muito ruim, para eles, ter que comprar três cartões, recarregar em três sistemas, em três quiosques distintos.”

Se, para os usuários, essa situação não é ideal, para os operadores, também não. “Para a operação também é muito complicado, pois os sistemas não se conversam. Os cartões não funcionam no validador dos outros sistemas, e cada veículo só tem um validador”. Ele explica que “as integrações ocorrem fisicamente, através dos terminais fechados da cidade. Então, na capital, o cliente sente um pouco menos isso, pois ali ele pode trocar de sistema. Isso faz com que ele, eventualmente, tenha que fazer um deslocamento maior para poder fazer a integração. Com um cartão único, como o Riocard Mais, do Rio, ele poderia fazer a integração em um percurso menor”, afirma. Dante acredita que essas dificuldades tiram o passageiro do sistema. Outra questão é a administração do cartão Urbs pela prefeitura de Curitiba. Nos sistemas de bilhetagem geridos pelos transportadores, a receita vai imediatamente para a empresa operadora. Mas, na capital, a receita é pública e o repasse para as empresas é feito posteriormente. “Em julho de 2021, tivemos atraso no repasse e aconteceram também atrasos no passado, em 2014, 2015. Além disso, a última atualização do sistema de bilhetagem da Urbs custou R$ 66 milhões, financiados com dinheiro do FUC – Fundo de Urbanização de Curitiba – , e a Urbs cobra, na tarifa, 4% de gestão. Esse dinheiro não é só para o sistema de bilhetagem, é para a gestão de toda a Urbs. Quanto desse percentual é gasto especificamente com bilhetagem, eu não sei», questiona.

Mas o cartão VEM, gerido pelo setor privado em São José dos Pinhais, é bem avaliado. “Em São José, 95% dos clientes usam o cartão. O dinheiro é usado apenas pelo cliente eventual, que não é da cidade e não transita diariamente no sistema. Essa porcentagem se deve também às integrações urbanas, temporais, na cidade de São José, que são viabilizadas pelo cartão VEM”. Para o empresário, facilidades como uma grande rede de recarga, totens e pagamento pela internet, via boleto e cartão de débito, com validação da carga nos próprios ônibus, 24 horas após o pagamento, oferecidas pelo VEM, fidelizam o cliente.

Belo Horizonte: sistema integrado com gestão pelos transportadores gera bons resultados

O sistema de bilhetagem da capital mineira teve seu início em 2001, com a criação do Transfácil, consórcio formado pelas empresas de transporte por ônibus, e criação do cartão BHBus. Além da integração física e temporal, no intervalo de 90 minutos, entre todas as linhas do sistema convencional e com o metrô, o usuário do BHBus se beneficia com descontos na segunda viagem e, nos domingos e feriados, tem a garantia de pagamento de, no máximo, uma tarifa predominante, mesmo utilizando mais de uma linha em sua viagem.

O BHBUS tem tecnologia Tacom e, desde 2012, é possível fazer a recarga do cartão a bordo dos próprios ônibus municipais, além de nas lojas da Transfácil, estações BHBus, estações de integração, transferência, postos ATM, quiosques do Move, bilheterias das estações do metrô, quiosques de venda e outros 36 pontos de embarque e desembarque, em que representantes das concessionárias, devidamente identificados, fazem a recarga, sem limite de valor. Também é possível comprar créditos por telefone, internet e celular.

Os passageiros que utilizam o Cartão BHBus podem também acumular pontos por meio de um programa de fidelidade e, posteriormente trocá-los por benefícios como recargas de celular, vale-presente em lojas parceiras de e-commerce e até pagamentos de contas de água e luz. Uma parceria do Transfácil e da Ecobonuz.

REGIÃO METROPOLITANA
Em 2008, a bilhetagem eletrônica foi expandida para a região metropolitana da capital mineira com o cartão Ótimo. O sistema é aceito nas linhas dos 33 municípios da região metropolitana, seja nas municipais (com exceção de Sabará, Nova Lima e Betim), seja nas metropolitanas, e, ainda, no Move metropolitano e metrô. É também gerido pelas operadoras, através do Sintram – Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano.

Com tecnologia embarcada da Empresa 1, recargas on-line e reconhecimento facial biométrico, os sistemas da RMBH que possuem bilhetagem eletrônica transportavam, antes da pandemia, 970.000 usuários por dia útil. Atualmente, são 650.000 passageiros.

Segundo o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram), Rubens Lessa Carvalho, o sistema de bilhetagem vem recebendo elogios pela possibilidade de integrar cidades e modais com economia (desconto da integração), pelo controle no uso das gratuidades (sistema Sigom Vision) e também pela agilidade nos embarques, possibilidade de recuperação de créditos e recarga on-line. “A bilhetagem propicia melhor gestão do serviço de transporte público e reduz a circulação de dinheiro em espécie no ônibus, aumentando a segurança dos usuários. Por meio dos cartões, foi possível ofertar conforto e agilidade aos passageiros. Graças ao desenvolvimento inteligente foi possível integrar, com desconto nas tarifas, as cidades da região metropolitana de BH, em modais como ônibus e metrô”. Lessa acredita que, para os empresários, os investimentos proporcionaram a tranquilidade do vale-transporte, que possibilita ao empregador mais controle sobre os benefícios concedidos aos funcionários. Para o RH das organizações, o sistema traz mais facilidade na aquisição dos créditos.

“A bilhetagem eletrônica da Região Metropolitana, com 13 anos, nos atendeu bem, mas está na hora de atualizar para algo mais moderno, com mais opções de serviços on-line. Por isso, o Sintram vem pesquisando alternativas para modernizar os equipamentos, buscando atender seus clientes com agilidade, praticidade e segurança.” pondera Rubens Lessa.

Londres, Reino Unido: duas formas de utilização de um só cartão

Quando o número de passageiros no metrô de Londres cresceu dramaticamente, na década de 1990, o TfL – Transport for London -, órgão do governo local responsável pela maioria dos aspectos do sistema de transporte na Grande Londres, precisou agilizar o ingresso das pessoas nas estações. Então, decidiu investir em novas tecnologias, e o cartão de viagens Oyster, sem contato, foi finalmente introduzido em 2003.

O Oyster pode conter bilhetes únicos, periódicos e outras autorizações de viagem, todas devendo ser adicionadas ao cartão antes da viagem. É usado em vários meios de transporte, incluindo o metrô subterrâneo, ônibus e metrô. O saldo pode ser usado com pagamento pelo uso (pay as you go), ou com abono de transporte (Travelcard), podendo as duas modalidades serem utilizadas no mesmo cartão. Em 2013, mais de 60 milhões desses cartões foram emitidos, e mais de 85% das viagens de trem e ônibus foram pagos pela Oyster.

Mobilidade e tecnologia

Com o crescimento das cidades e a globalização, não há mais como desvincular a mobilidade urbana da tecnologia. Sistemas de bilhetagem não são mais uma novidade no mundo, mas se tornam uma exigência para que grandes cidades ofereçam bons padrões de deslocamento para os cidadãos, nos diversos modais de transporte. Mais do que simplesmente agilizar e tornar mais prático o pagamento das passagens, esses sistemas permitem a coleta de informações preciosas, para que se conheça melhor desde a eficiência das rotas até os hábitos dos usuários, permitindo aliar a evolução tecnológica ao contínuo aprimoramento dos serviços, adequando-os às reais necessidades dos clientes do transporte público. As experiências de cidades como Hong Kong e Rio de Janeiro, em suas diferentes realidades, mostram que não há mais como sequer imaginar o funcionamento de seus modais de transporte público sem os respectivos sistemas de bilhetagem eletrônica.

Comente aqui

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *