Como a violência afeta o transporte por ônibus e seus profissionais

08/03/2021 |
“Eles tacaram fogo, deram três tiros para o alto e foram embora”

Assaltos, homicídios, sequestros, tráfico, milícia, vandalismo, entre outros crimes, estão tipificados na lei penal brasileira. O Brasil é um dos países com maior índice de violência urbana no mundo. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a cada 10 minutos uma pessoa foi assassinada no País, no primeiro semestre de 2020, um aumento de 7% em comparação com os seis primeiros meses de 2019. No total, foram 25.712 assassinatos, entre janeiro e junho de 2020. Os dados mostram que os números voltaram a crescer após dois anos seguidos de queda.

No setor de transporte por ônibus, além dos roubos e assaltos dentro dos coletivos, às vezes com vítimas fatais, a violência também se apresenta na forma de incêndios e depredações dos veículos. Segundo levantamento realizado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), desde 1987, mais de 4.000 ônibus já foram queimados por bandidos em todo o Brasil. A região Sudeste lidera o ranking, com São Paulo em primeiro lugar e o Rio de Janeiro em segundo. Desde 2016, 223 ônibus foram incendiados no Estado do Rio. Entre novembro do ano passado e janeiro deste ano, seis veículos foram queimados. Os criminosos entram nos coletivos, normalmente ordenam que todos desçam, e ateiam fogo. Na maioria das vezes, a violência acontece em represália à morte de algum chefe do tráfico ou por disputas territoriais de facções criminosas.

Os números confirmam que a violência urbana é um mal a ser combatido com mais eficiência e urgência. As perdas são irreversíveis e os traumas e medos gerados entre os cidadãos, muitas vezes, incuráveis. Para falar sobre como esse problema afeta o setor de transporte público por ônibus e seus trabalhadores, principalmente aqueles que atuam nas ruas, tanto na condução dos veículos que transportam a população como nos terminais e pontos (motoristas, cobradores, fiscais e despachantes), a Revista Ônibus inaugura, nesta edição, uma nova série. Profissionais do segmento que, no cumprimento de suas funções, tenham sido vítimas da violência urbana, contarão sobre essas experiências traumáticas e como isso marcou suas vidas.

Marcos Cesar Adriano Estevo, 39 anos, motorista da Transporte Machado, de Magé (RJ), há nove anos, é uma das mais recentes vítimas da violência contra o transporte público no Rio de Janeiro. Ele começou no transporte coletivo como manobreiro, na mesma empresa onde ainda atua. Em apenas um ano foi promovido a motorista. Atualmente, trabalha em turno único, mais conhecido como TU, cumprindo horário de manhã e de tarde, de segunda a sexta-feira. Sua linha é a 444L (Piabetá x Penha), intermunicipal. Casado com Graziele e pai de Milena, 15 anos, e Heitor, 5, Marcos conversou com a Ônibus e revelou que jamais irá esquecer o dia 15 de dezembro de 2020.

Era uma terça-feira, perto das 19h, e Marcos fazia a última viagem do dia. Quando passava pela Avenida Coronel Sisson, em Imbariê, com destino a Piabetá, seu ônibus foi interceptado por dois bandidos em uma moto. “Eu estava numa velocidade baixa e ainda reduzi mais um pouco porque ia passar por um quebra-molas. Então, vi uma moto, com dois rapazes. Eles deram a volta e pararam bem no meio da rua. O que estava de carona desceu, já sacando uma pistola, e veio para a frente do ônibus. O outro ficou parado, esperando. Foi tudo muito rápido. Ele já chegou apontando a arma e eu pensei que era um assalto”. A primeira preocupação de Marcos foi com a segurança dos passageiros e a sua própria. “Ele poderia atirar e a bala pegar em mim ou em algum passageiro”, lembra o motorista.

“Então, vi uma moto, com dois rapazes. Eles deram a volta e pararam bem no meio da rua. O que estava de carona desceu, já sacando uma pistola, e veio para a frente do ônibus. O outro ficou parado, esperando. Foi tudo muito rápido”
Marcos Cesar Adriano Estevo, motorista da Transporte Machado

Dentro do veículo havia cerca de 20 pessoas. No começo, ninguém percebeu nada, nenhum movimento estranho. Quando Marcos abriu a porta, o bandido pulou no degrau, pegou a garrafa de gasolina, que até então estava escondida em su – as costas, e foi aí que o motorista se deu conta do cri – me que estava por vir. “Pedi para ele deixar os passageiros descerem do ônibus. Ele, o tempo todo com a pistola aponta – da, gritando e jogando gasolina em tudo, mandava o pessoal descer. Chegou a molhar a perna de uma das passageiras com a gasolina, mas, graças a Deus, não aconteceu nada de mais grave com ela. Todo mundo conseguiu descer, eu também desci”. Marcos lembra que o bandido precisou se afastar para as pessoas poderem chegar até a porta, pois o ônibus era modelo executivo, com acesso para entrada e saída apenas na frente.

POLÍCIA, BOMBEIROS E IMPRENSA
Já na rua, Marcos se dirigiu para trás do ônibus, tentando sair da visão dos bandidos. Assim, conseguiu ligar para a polícia, para a empresa e para sua esposa. “Os passageiros estavam muito nervosos e eu também estava. Mas, pedi que Deus me acalmas – se para poder fazer o que era preciso naquele momento. A empresa logo enviou um inspetor para cuidar de tudo. A polícia também chegou rápido, mas os bandidos já estavam longe. Depois que eles tacaram fogo no ônibus, ainda deram três tiros para o alto e foram embora”, disse o motorista. O Corpo de Bombeiros foi acionado para controlar o fogo. A notícia se espalhou rapidamente, pois vários vídeos feitos por moradores da região e pelos próprios passageiros foram postados na internet e enviados pelo WhatsApp. No dia seguinte, jornais e portais de notícias informavam sobre o crime.

Após deixar a delegacia, Marcos foi para casa, mas não conseguiu pregar o olho aquela noite. E só voltou ao trabalho na semana seguinte, segunda-feira, dia 21 de dezembro. Quando encontrou alguns dos passageiros que estavam com ele no dia do incêndio, todos se mostraram solidários, mas traumatizados, como Marcos. “A gente pensou que ia morrer. O sentimento é de que nós nascemos de novo. Todo dia que eu passo por lá e vejo a marca de queimado no asfalto, no chão, eu lembro e me vem tu – do de volta à cabeça. Acho que nunca mais vou esquecer o que aconteceu”, disse.

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