Como os Jogos Olímpicos do Rio contribuiram para mudar a cara do Rio e melhorar a mobilidade

26/11/2016 | Edição nº 96

Grandes eventos internacionais mudam a vida das cidades que os sediam. Dentre eles, talvez a Olimpíada seja o mais marcante. As cidades onde acontecem as competições se preparam durante anos, a fim de oferecer uma infraestrutura aos turistas, tanto de estádios e locais de disputas, como de transporte, rede hoteleira etc. Este conjunto deve formar um legado, que ficará para a população. E o legado da Rio 2016? Em termos de mobilidade, o que foi proposto e o que vai ficar efetivamente?

Não é à toa que grandes capitais do mundo se candidatam a sediar eventos como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Para as vencedoras, criam-se compromissos com os organizadores e, indiretamente, com toda a comunidade mundial, que passa a acompanhar com interesse os preparativos. Muitos projetos que, de outra forma, poderiam demorar muito para sair do papel, tornam-se prioridades passa a ser construída toda uma herança urbana para a população. Desde os já citados locais de competições até os alojamentos dos atletas, tudo deve ser pensado de forma a trazer, posteriormente, benefícios aos moradores.

Povo que surpreende

A Rio 2016 gerou muita expectativa. A crise econômica e política do país, a onda de violência e a epidemia de zika foram alguns dos fatos que levaram a mídia internacional a duvidar – e até, em alguns casos, a ridicularizar – da capacidade nacional de realizar um evento do nível de uma Olimpíada, oferecendo segurança, organização, boas instalações e mobilidade eficiente a todos, moradores e visitantes. Mas o brasileiro, com todas as suas dificuldades e problemas, é um povo surpreendente. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos foram realizados e encantaram o mundo. Suas cerimônias de abertura e de encerramento foram bonitas, emocionantes e mostraram um pouco da nossa alma. Os contratempos surgidos durante as competições foram resolvidos sem grandes problemas e a cidade acolheu os turistas com carinho e alegria. Os espaços e a infraestrutura criados foram utilizados sem transtornos. A mobilidade, fator nevrálgico nesses grandes eventos, funcionou a contento e acabamos sendo motivo de elogios na mídia internacional, a mesma que fizera críticas anteriores à realização dos Jogos.

Foto: Arthur Moura

Soluções rápidas

Apesar das dúvidas dos cariocas, os poucos incidentes relativos a transporte e trânsito foram resolvidos rapidamente, como ocorreu com o fechamento da estação Jardim Oceânico, do metrô, após 1 hora da manhã, que gerou a divulgação imediata de um serviço especial de BRT previamente planejado para atender nesse horário, com oito paradas, todas próximas a estações de metrô, garantindo a integração. Corredores de BRS, BRT, implantação de VLT e da linha 4 do metrô são um legado consistente, que vai garantir viagens mais eficientes com integração e conforto (veja os números no quadro ao lado). A derrubada do viaduto da Perimetral, em 2012, foi um marco, por representar uma mudança no conceito de mobilidade urbana. Quando de sua construção, em 1950, foi considerado um avanço pelos entusiastas do automóvel. Os ônibus não podiam trafegar pelo novo viaduto, o que estava de acordo com a visão da época, em que as cidades americanas, voltadas para o transporte individual, eram modelos copiados pelo mundo afora.

Com o esgotamento desse conceito, no entanto, e o engessamento dos espaços urbanos causado pelo excesso de veículos nas ruas, o Rio de Janeiro finalmente optou por um modelo de transporte que privilegia o coletivo, em detrimento do individual, democratizando os espaços públicos. Toda a região portuária e seu entorno receberam obras, e a criação de espaços como o Boulevard Olímpico levou o carioca a curtir locais antes deteriorados. A média de visitação do Boulevard, no período da Rio 2016, foi de 80 mil pessoas/dia, onde se misturavam turistas nacionais e estrangeiros aos moradores da Cidade Maravilhosa.

“Obras extraordinárias”

O presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi, em entrevista ao site HuffPost Brasil, destacou a mudança por que passou a cidade, na preparação para os Jogos: “O Rio realmente sofreu uma transformação provocada pela decisão de sediar os Jogos. Teve uma grande transformação na mobilidade urbana, com a recuperação da região central, a demolição do elevado, abertura da vista da cidade, o Museu do Amanhã. São obras extraordinárias feitas pelo homem, junto com a beleza natural da cidade. É um ganho”, afirmou.

Quanto ao legado propriamente dito, disse: “O Parque Olímpico, os alojamentos serão ocupados futuramente pela população do Rio, assim como foi feito em Londres. Isso vai ocorrer em uma condição melhor do que foi feito no Pan. A experiência dos resultados negativos do Pan ensinou para que, desta vez, fizessem obras com condições melhores, não só nos equipamentos para esporte, como também nos alojamentos”.

Para o presidente da Fetranspor, Lélis Teixeira, a Rio 2016 trouxe, além das conquistas alcançadas pelos atletas, muitas que couberam aos cariocas: “o Rio de Janeiro passou por uma profunda transformação, em que a mobilidade foi, talvez, o elemento estruturante de maior relevância. O transporte público mudou, nos últimos seis anos, ganhando corredores de BRS e BRT, VLT, uma linha de metrô e investimentos em todos os modais. Foi inaugurado um novo modelo de mobilidade urbana, mais voltado para o coletivo, criando uma cidade mais amigável para as pessoas”. Quanto ao funcionamento do sistema ônibus, Lélis brincou: “Podemos nos considerar medalhistas. Fizemos muito esforço, superamos limites e, como toda equipe esportiva, continuamos nos empenhando e suando para alcançar novos recordes”, disse.

Foto: Arthur Moura

O futuro da mobilidade

Em termos de mobilidade urbana, dois indicadores podem dar a dimensão do legado que a população do Rio ganhou – e que continua sendo construído. Um deles é o People Near Transit (PNT), que registra o percentual da população que mora a uma distância de até um quilômetro do acesso ao transporte de média ou alta capacidade. Com o funcionamento integral do VLT, Linha 4 do metrô e a entrada em operação do Transbrasil, o PNT do Rio será de 56%, quando, em 2010, chegava apenas a 36%. O outro, o índice de utilização do transporte de massa, de 18% em 2010, com esse funcionamento integral, chegará a 63%. Para efeitos comparativos, vejamos o PNT de algumas cidades: São Paulo, 25,3%; Belo Horizonte, 26%; Nova Iorque, 74%; e Paris, 99%.

Além do aumento da oferta, o principal atributo, no caso do legado da mobilidade, é o aumento da qualidade do transporte, com veículos de última geração, tempos menores de viagens, em função de maior prioridade para o transporte coletivo e a reordenação das linhas. Quando se fala em melhoria da mobilidade, estamos falando da própria qualidade de vida da população. Uma mobilidade eficiente é aquela que oferece deslocamentos seguros, confortáveis, mais rápidos e com opções de integração. Esses itens, juntos, diminuem o número de veículos nas vias, reduzindo a incidência de congestionamentos e os níveis de poluição sonora e atmosférica, com reflexos na saúde.

Sabe-se que a mobilidade é um dos legados da Rio 2016, pois existem outros, desde os culturais até o do resgate da autoestima dos cariocas e a utilização de alojamentos, arenas e outras obras feitas em função dos Jogos, em benefício dos cariocas. Para qualquer um deles, o essencial, daqui para a frente, é a garantia de que continuem efetivamente a beneficiar a cidade e seus moradores.

Comente aqui

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *