Crônicas Noturno: um livro sobre ônibus, pessoas e a noite paulista

01/06/2021 |

Jornalistas publicam instalivro com 24 histórias de passageiros e rodoviários

É madrugada. No banco solitário de um ônibus, alguém se senta, aparentemente perdido em seus pensamentos, para a primeira ou última viagem do dia. O que se passa em sua cabeça? Que sonhos e lutas traz consigo? Difícil saber. Mas, com toda certeza, há ali uma história de vida que merece ser contada. E foi exatamente isso o que fizeram os jornalistas Rafael Moura, 29 anos, Marcos Candido, 26, e Lucas Alves, 25, junto com a ilustradora, designer e fotógrafa Tuia, 30, ao lançarem o livro virtual “Crônicas Noturno”, publicado no Instagram sob o perfil @cronicasnoturno. No instalivro, nome desse novo formato de livro, criado para o Instagram, eles narram histórias de passageiros dos ônibus que circulam durante a madrugada, na cidade de São Paulo.

A ideia surgiu quando Rafael, Marcos e Lucas ainda cursavam jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. No último período da faculdade, em 2016, a capital paulista estava comemorando um ano de operação das linhas noturnas – até 2015, São Paulo era um dos poucos grandes centros urbanos no Brasil sem serviço de ônibus nas madrugadas. Os três amigos perceberam que ali estava um ótimo tema a ser explorado no trabalho de conclusão de curso (TCC), que fariam em grupo. Após aprovação da ideia pela professora orientadora, partiram para a etapa de observação e pesquisa, que consistia em viajar nos ônibus da rede noturna e colher histórias de passageiros, motoristas e cobradores. “Aquele ambiente vazio e solitário de ônibus da noite se transformava quando a gente sentava para conversar com as pessoas, que se mostraram muito mais abertas do que costumam ser durante o dia. O espaço se tornava um lugar acolhedor e íntimo, o que foi uma das nossas principais descobertas e fez com que pudéssemos coletar relatos bem mais ricos. Tinha muita vida ali”, afirma Lucas Alves.

ENTRE 80 E 100 VIAGENS
Das 151 linhas que operam entre meia noite e 4h, na cidade de São Paulo, Rafael calcula que o trio tenha conseguido embarcar em 40%. “Por noite, era possível fazer até três viagens, em média. Na ida, conversávamos com o passageiro e, na volta, com o motorista. No total, acredito que fizemos entre 80 e 100 viagens”, conta. De acordo com o jornalista, a rede noturna funciona de duas formas: uma com linhas que operam dentro dos bairros e demoram mais tempo para passar nos pontos e outra com linhas diretas, que operam nas vias principais, com maior frequência entre os ônibus e viagens mais longas, de 50 minutos a 1h e 10 minutos em média. Os itinerários mais longos foram os escolhidos pelos jornalistas para o trabalho de campo, pois o tempo do percurso permitia que se aprofundassem nas conversas, e a maior rotatividade de passageiros gerava uma gama de personagens mais interessantes.

“Aquele ambiente vazio e solitário de ônibus da noite se transformava quando a gente sentava para conversar com as pessoas, que se mostraram muito mais abertas do que costumam ser durante o dia. O espaço se tornava um lugar acolhedor e íntimo” Lucas Alves

Assim, ao longo de três meses, Lucas Alves, Marcos Candido e Rafael Moura produziram uma série de entrevistas com os personagens que viajavam nos ônibus nas madrugadas de São Paulo. Entre as histórias contadas estão: a de um chapeiro de padaria gay, que sofria por conta de homofobia dos colegas e tinha o sonho de viajar para o Canadá, onde imaginava ser aceito; a de um grupo de garçons que apostava tudo o que ganhava no baralho; a de um passageiro que usou o ônibus para fugir do cerco da polícia; a de uma mulher que lutou contra uma tentativa de feminicídio; e a de um segurança orgulhoso por ter trabalhado num estádio de futebol durante uma partida da Copa do Mundo no Brasil, embora não tenha visto o jogo, pois ficava de costas para o gramado. “A gente passou com nota máxima na faculdade. O projeto do livro ficou engavetado, mas nossa intenção era retomá-lo e publicá-lo. E foi o que fizemos no ano passado”.

LIVRO FÍSICO X LIVRO VIRTUAL
Levando em consideração as dificuldades de se produzir um livro físico e, principalmente, o custo dessa produção, os autores optaram por esse novo formato, o instalivro, virtual e em capítulos (postagens), e publicado em uma das maiores redes sociais do mundo, o Instagram. “Procuramos editais da Prefeitura para viabilizar o livro na versão impressa, mas além de escassos durante a pandemia do novo coronavírus, vimos que o formato já não fazia tanto sentido. Os leitores estão nas redes sociais, que são usadas de graça, democratizam a leitura e ainda aumentam o alcance da nossa obra. Queríamos que as pessoas tivessem acesso gratuito ao livro; não havia interesse financeiro”, revela Rafael. E acrescenta: “Nosso diferencial estava nas histórias reais, que geravam identificação, e no fato de ser um livro inédito. Resolvemos subverter a lógica do papel, da editora, do custo e adaptar para o novo formato”.

Os amigos, então, convidaram a artista Tuia para criar uma identidade visual para o projeto e as ilustrações de cada postagem. “Para o Instagram, a questão da imagem é muito forte, e a gente precisava de alguém conectado com esse universo de São Paulo, da noite, do transporte público. Foi aí que entrou a Tuia, uma pessoa com experiência do noturno, das peculiaridades da noite”, explica Rafael.

Os seis primeiros posts do perfil no Instagram foram feitos no dia 12 novembro de 2020, utilizando uma mesma ilustração, dividida em seis partes entre os chamados posts. Neles, autores e projeto foram devidamente apresentados. As postagens eram também um convite para seguir a página e acompanhar as crônicas, que seriam publicadas nos stories (ferramenta do Instagram para publicar fotos e vídeos, que ficam disponíveis por 24 horas), todas as terças-feiras. Os stories seriam, então, salvos nos destaques ou highlights (recurso que permite salvar os stories, por categoria, por tempo indeterminado), para permitir a leitura a qualquer momento.

“Por noite, era possível fazer até três viagens, em média. Na ida, conversávamos com o passageiro e, na volta, com o motorista. No total, acredito que fizemos entre 80 e 100 viagens” Rafael Moura

Uma semana após o lançamento do perfil, no dia 17 de novembro, o @cronicasnoturno publicou a primeira história, “Todos a bordo”, que era uma espécie de introdução do livro virtual, falando sobre o que é o “Noturno”. No feed (página) do Instagram, estava uma chamada para os seguidores abrirem os stories, onde encontrariam essa primeira crônica. Ao todo, foram publicadas 24 histórias, entre novembro do ano passado e abril deste ano. A última, com o sugestivo nome de “Ponto Final”, foi postada dia 27 de abril. Agora, encerrado esse ciclo do “Noturno”, os amigos pensam em manter o perfil para novos projetos, ainda não definidos. O certo é que o instalivro deve continuar, com novas crônicas, para deleite dos seguidores.

INSPIRAÇÃO E HISTÓRIAS MARCANTES
Segundo Rafael Moura, um dos jornalistas à frente do projeto @cronicasnoturno, o formato instalivro (do inglês: insta novel) é inspirado em um projeto de adaptação de livros da Biblioteca Pública de Nova York, nos EUA, para a internet. O trabalho foi premiado por adaptar para o modelo virtual obras como “A metamorfose”, de Franz Kafka, e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Caroll. “Eles perceberam a falta de interesse das pessoas em ler livros e o fato de elas estarem mais presentes no digital, na internet, no celular, nas redes sociais. E a gente viu naquele projeto um formato muito interessante”, conta. Outra fonte de inspiração, segundo o jornalista, foi “O Livro Amarelo do Terminal”, um livro-reportagem sobre a rodoviária paulista do Tietê, da jovem escritora Vanessa Barbara.

Questionado sobre as histórias mais marcantes, entre as que ouviram dentro dos ônibus, Rafael destaca, entre as de sua autoria, a do senegalês que morava em uma república com outros imigrantes africanos e veio para o Brasil, primeiro para o Rio Branco (AC) e depois para São Paulo (SP), tentar a vida vendendo bijuterias e relógios. “Essa história me tocou porque, quando entrei na universidade, o tema da redação era o impacto da imigração de haitianos em Rio Branco, e essa redação foi responsável por eu conseguir minha bolsa de estudos. Aí, no final do curso, eu conheci esse cara. E é uma história muito forte”, conta. No caso de Lucas, segundo Rafael, são três as crônicas que mais gostou de escrever: a de um jovem cansado depois de uma festa, a de uma mulher que sofria agressão do marido e dormia com uma faca embaixo do travesseiro, e a do chapeiro gay. Entre as de Marcos, Rafael revelou que duas se destacaram: a que conta a história de Maria, única motorista mulher da rede noturna, e a última postada no instalivro, chamada “Ponto Final”, que resume o projeto mostrando como o transporte interfere na cidade e nas pessoas.

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