Davi Lucas realiza sonho de conhecer empresa de ônibus

09/03/2021 |

O aniversário de seis anos de Davi Lucas Galvão Ribeiro, comemorado dia 18 de dezembro de 2020, ficará marcado em sua vida para sempre. Foi nesse dia que o menino, um apaixonado por ônibus, visitou pela primeira vez uma empresa de transporte coletivo, a Bel Tour Turismo e Transporte, em Quintino Bocaiuva, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. O passeio foi conseguido por sua mãe, Fernanda Barbosa Galvão. “Por causa da pandemia, 2020 foi um ano difícil. A gente não ia poder comemorar o aniversário dele da maneira que gostaria. Então, tive a ideia de levá-lo para conhecer uma empresa de ônibus”, conta Fernanda. Para colocar seu plano em prática, ela entrou no perfil de várias empresas de transporte por ônibus no Instagram e enviou mensagens contando um pouco sobre Davi e sua admiração pelos ônibus. E é essa a história que a Revista Ônibus também contará aqui.

Davi é portador do Transtorno do Espectro Autista (TEA), mais conhecido como autismo, uma condição neurológica que afeta o desenvolvimento e a forma como a pessoa percebe o mundo e se socializa. O diagnóstico definitivo veio após ele completar quatro anos. Mas Fernanda já notava algo de especial no filho. O autista possui um déficit na comunicação e na interação social e costuma apresentar padrões restritos e repetitivos de comportamento. Uma das características são os focos de interesses. No caso do Davi, seu principal foco está justamente no ônibus. E tudo começou quando ele ganhou um ônibus de brinquedo, no Dia das Crianças de 2017. “Era azul, uma réplica de um veículo da Iveco, se não me engano. Como ele já tinha muito carro e caminhão, eu achei diferente e comprei pra ele, imaginando que ele iria gostar”, lembra Fernanda. Pois ele gostou; e muito. “Depois que ele ganhou aquele primeiro ônibus, ficou completamente apaixonado, e todo dia pedia um novo pra mim e para o pai. Era a única coisa que ele pedia de presente. De lá pra cá, já perdi as contas de quantos ônibus o Davi já teve. Até pra brincar na piscina ele leva os ônibus”, completa.

“ÔNIBUS DE Ô” E “ÔNIBUS DE POTITI”
Segundo Fernanda, aquele presente foi a porta de entrada de Davi para sua principal área de interesse, o chamado hiperfoco, que é quase uma obsessão, explica: “Atualmente, são três as áreas de interesse dele. Além do ônibus, que é a principal, tem os objetos giratórios, principalmente ventiladores, ou qualquer objeto com hélice, ou cuja imagem remeta a uma hélice. Ele pega uma flor, por exemplo, e arranca as pétalas até conseguir deixá-la igual a uma hélice. Nesse caso, é o que chamamos de estereotipia. Os estudos dizem que é para aliviar a tensão, quando o autista está estressado. A terceira linha de interesse, e a mais recente, são os desenhos de notas musicais. Mas o ônibus, sem dúvida, é sua grande paixão”. Fernanda conta que Davi até deu nomes para os modelos urbano, de duas portas, e executivo, do tipo rodoviário, com uma porta. O primeiro, ele chama de “Ônibus de Ô” e o outro, de “Ônibus de Potiti”. “E aqui em casa todo mundo fala assim também”, diz a mãe.

Após ganhar seu primeiro ônibus de brinquedo, Davi começou a demonstrar vontade de andar de ônibus com mais frequência. Quando via algum diferente daqueles em que estava acostumado a embarcar, queria subir para ver como era o veículo por dentro. “Ele quer ver todos, entrar em todos. Fui notando o interesse gradativamente. Ele queria sempre sentar perto do motorista e ficava triste quando as pessoas não entendiam. Hoje em dia ele já se expressa melhor e os motoristas das linhas aqui perto de casa já o conhecem. Ele já entra no ônibus falando: `E aí, meu campeão?`. Com isso, foi conquistando eles”, conta Fernanda.

DESMONTAR, MONTAR, SIMULAR E APRENDER
Com o passar do tempo, Davi começou também a se interessar pelos componentes do veículo, como motor, pneu, retrovisor, portas, janelas etc. “De tempos em tempos, ele foca numa parte específica do ônibus. E ele também desmonta e monta os veículos. Tira o chassis de um e coloca em outro, troca as rodas, tira a calota e coloca ao contrário. Agora cismou com o que ele chama de canudinho do pneu, que é aquele negócio onde coloca o ar para encher o pneu”, diz Fernanda. Ela conta também que, algumas vezes, ao montar e desmontar, ele fica impaciente, se irrita, joga tudo no chão e quebra. Outra brincadeira são os jogos com ônibus. Recentemente, o pai de Davi, Marcelo Ribeiro da Silva, baixou um, de simulador de direção, e sempre coloca na televisão para o filho brincar. “Ele faz o papel do motorista, num ônibus executivo, durante uma viagem. E ele também gosta de assistir a vídeos sobre ônibus”, diz a mãe. Na visita à garagem da Bel Tour, Davi, a irmã Yasmin, 12 anos, e a mãe foram recebidos pelas analista e auxiliar de Recursos Humanos, Francinete Trajano e Larissa Oliveira, e pelo técnico de Segurança do Trabalho, Anderson Lima. “Não bastasse eles estarem realizando o sonho do Davi, de conhecer uma garagem, fizeram uma festa de aniversário pra ele. Eu acho que foi a melhor comemoração de aniversário da vida dele. E pra completar, deram de presente uma réplica de um ônibus da empresa, feita de ferro. É idêntico em todos os detalhes e até abre a porta e o bagageiro. Aí o Davi ficou com o dele na mão, comparando com o de verdade, pra ver se era igual mesmo. Achei até engraçado que ele descobriu uma portinha, na parte da frente, que no dele não abre. Ele reclamou e o pessoal da empresa teve que abrir a do ônibus real para ele ver como era”, lembra Fernanda.

CIDADE DO AÇO TAMBÉM RECEBEU DAVI
Outra empresa que respondeu a mensagem de Fernanda e atendeu seu pedido foi a Viação Cidade do Aço. A visita aconteceu dia 29 de janeiro, na garagem localizada em Santo Cristo, bairro onde fica a Rodoviária Novo Rio. “Quem recebeu a gente foi o motorista instrutor Francisco Sá da Rocha, um querido, muito gentil”, conta Fernanda. “O Davi, quando não conhece uma pessoa, fica introspectivo, não quer falar, não quer olhar, finge que não está nem ouvindo. Mas quando a gente chegou, que ele viu o Sá, já abraçou e ficou agarrado com ele. Aí, os dois saíram de mãos dadas e foram entrando nos ônibus”. Lá, ele ganhou vários brindes e até um encosto de cabeça.

Fernanda revela que vai continuar pedindo a outras empresas para receberem Davi em suas garagens. A Bel Tour prometeu levá-lo em um passeio de ônibus pela cidade do Rio e a Cidade do Aço pretende agendar uma visita à garagem de Barra Mansa, onde funciona sua sede. Enquanto espera por novos convites, Davi se divide entre a escola, os diversos tratamentos que ajudam no seu desenvolvimento, como fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia, realizados na Apae de Nova Iguaçu, cidade onde a família vive, e, claro, aprendendo cada dia mais sobre ônibus. Montando e desmontando seus veículos de brinquedo, dirigindo no jogo de simulação, visitando rodoviárias para ver de perto os “de Ô” e os “de Potiti”, sentando perto dos motoristas quando embarca e cumprimentando todos com um “E aí, campeão?”.

CONHECE ALGUM BUSÓLOGO?
Explicar a paixão já é difícil, imagina uma tão peculiar como a de Davi. Mas ele não está sozinho nessa. Há milhares de outras pessoas que, como ele, se dedicam a estudar o veículo nos detalhes e a colecionar fotografias, miniaturas e histórias sobre esse meio de transporte. O termo para designar os apaixonados por ônibus é busólogo. A Revista Ônibus, para homenagear os busólogos, criou esta série para contar outras tantas histórias como a de Davi. Se você conhece algum busólogo mirim ou cuja paixão por ônibus tenha se iniciado na infância, nos informe pelo e-mail comunicacao@fetranspor.com.br.

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