De volta à cidade do futuro… Desejado

19/08/2020 |

A Mobilidade e a pandemia
A mobilidade e a logística urbana já vinham se deteriorando há vários anos. Podia-se observar pelos congestionamentos. A busca por qualidade de vida nas cidades tem sido uma grande demanda de todos, mas não tem sido dada a devida prioridade a isto.

A pandemia trouxe à tona algumas tristes e fortíssimas realidades da nossa vida. Entre elas, saber que a imensa maioria das pessoas está vivendo muito mal nas nossas cidades.

E na mobilidade e logística urbana estão duas das grandes mazelas das cidades, que são causa e consequência de anos de falta de valorizar como são fundamentais para a qualidade de vida.

 

Impactos na mobilidade urbana
A perda de empregos, redução na renda, novos hábitos irão gerar modificações e reduções nas viagens urbanas, em quantidade e motivos. Mudanças no trabalho e no fluxo urbano devem ser permanentes, muitos serão os reflexos a curto, médio e longo prazo.

Estima-se, ressaltando que foram adotadas premissas pela total falta de experiência na história da mobilidade urbana em casos desta magnitude, que a demanda de viagens em automóveis irá cair cerca de 5% do fluxo de 2019, enquanto a de coletivos poderá cair da ordem de 40% do fluxo, provavelmente mais nos transportes de massa2.

Mas estes valores podem ser ainda maiores nos primeiros meses, embora a tendência seja de reversão mais rápida para os transportes individuais. A queda destas viagens por automóveis irá ocorrer, mas, em médio prazo, o número voltará a subir e gerar mais congestionamentos.

O deslocamento urbano custa ao País3 cerca de 550 bilhões de reais por ano, dos quais 80% pelo transporte individual, advindos de congestionamentos. Se o sistema de transporte público, responsável por mais de 70% das viagens diárias, se colapsar, apesar de seu custo econômico ser só de 20% do total, este custo econômico anual poderá aumentar em mais 300 bilhões de reais em deseconomias urbanas, com brutal ônus para a Nação.

As cidades deverão ser repensadas, desde o funcionamento das atividades e o escalonamento de horários de fluxos de transporte, até
mudar a forma de planejar o sistema de transportes.

 

“O deslocamento urbano custa ao País cerca de 550 bilhões de reais por ano, dos quais 80% pelo transporte individual, advindos de congestionamentos”

 

Mudanças emergenciais
A mobilidade é essencial para a economia do País, e deve ser tratada de forma emergencial, com um modelo de financiamento para as operadoras, sejam públicas ou privadas.

O modelo de contratação de serviços não pode permanecer como está sendo vivenciado, com o ressarcimento de custos se dando apenas com base nas tarifas. Com a redução da demanda e o aumento de custo operacional previstos, dificilmente a conta vai fechar apenas baseada em tarifas pagas diretamente pelos usuários.

Entre as medidas emergenciais estará a priorização da circulação urbana para os transportes ativos, com alargamento de calçadas, implantação de bloqueios e priorização para os coletivos. São imprescindíveis as mudanças das linhas, para que as de curta distância tenham tarifa reduzida e estejam integradas.

Um ponto importante será mudar a imagem da sociedade sobre o transporte, sim tem que mudar muita coisa, mas o momento inicial será de emergência.

 

Mudanças a médio prazo
Nos anos seguintes, face à crise econômica, modelo institucional geral e visão política imediatista nos três níveis de governo, se não for feito um grande esforço para mudanças, infelizmente a crise de mobilidade poderá aumentar.

Muitas empresas operadoras de ônibus poderão ficar em maior dificuldade financeira, e daí, operacional. Como representam a maior quantidade de operadores nas cidades, isto é preocupante. Se não forem tomadas medidas agora, aumentarão riscos de mais viagens por moto e mototáxi, transporte clandestino, surgimento de modelos simplórios, tipo “tuc tuc” e similares. Isso representará incremento de acidentes de trânsito e mais violência urbana.

 

“Mas que cidade queremos para o futuro? Não aquela em que estávamos. Será a hora de repensar em tudo, e mobilidade e transportes serão itens fundamentais para a vida urbana”

 

A mobilidade que queremos
Mas que cidade queremos para o futuro? Não aquela em que estávamos. Será a hora de repensar em tudo, e mobilidade e transportes serão itens fundamentais para a vida urbana.

Não podemos voltar a um sistema de transportes em que a individualidade dos automóveis prevalecia nos investimentos viários. Não a um transporte coletivo superlotado nos picos, pois os custos são pagos apenas pela tarifa, sem dignidade para a população.

Os investimentos em mudança de formas pontuais de integração, melhorando a acessibilidade e a circulação em geral, terão um grande incentivo. A melhoria das redes de alimentação e da adequação da oferta (itinerários, frequência) será uma tendência muito forte.

A integração tarifária também deverá aumentar muito, e a necessidade de aperfeiçoar os investimentos aumentará a sua efetividade.

Sistemas integrados trazem ganhos para o cidadão e a sociedade como um todo, demandam menos recursos e são fundamentais para a estruturação urbana e metropolitana.

E isto poderá trazer um novo momento à mobilidade no Brasil.

Vai ser preciso usar muita criatividade, serão necessárias soluções “fora da caixa”, novas visões para resolver o problema, e trabalho, muito trabalho, para suprir as dificuldades que vão surgir agora.

Entender que vivemos em um País em dificuldades, com recursos em grande carência e necessidades, e que precisamos evitar que o quadro se torne caótico, em especial quando a economia for retornando e as taxas de mobilidade forem aumentando, com reflexos no sistema viário e de transportes coletivos.

É imprescindível que os políticos sejam instruídos e conscientizados de que se trata de um tema fulcral para a vida da população, pois transporte é a forma de ter suas necessidades econômicas e sociais atendidas.

 

Transporte humano
Em mobilidade e logística urbana, temos que partir na frente: ajudando na tragédia atual; fazendo o melhor na transição e mirando uma vida decente para nós – o povo brasileiro.

Precisamos implantar propostas que gerem muitos empregos, em especial para os com menor poder aquisitivo e capacitação, e na mobilidade e logística urbana existem muitas oportunidades para isso.

Será com vistas a esta bandeira: TRANSPORTE HUMANO: CIDADES COM QUALIDADE DE VIDA que todos nós, brasileiros, precisamos focar para irmos… de volta para o futuro que desejamos para o nosso povo.

 

1 – Willian Alberto de Aquino Pereira, Eng, Civil EEUFJF; M.Sc COPPE–UFRJ.; Coordenador Regional Rio de Janeiro da ANTP; SINERGIA Estudos e Projetos Ltda. willian@ sinergiaestudos.com.br.
2 – Baseado nas informações disponibilizadas pelo Plano Diretor de Transportes Urbanos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro – PDTU – 2015
3 – Estimativas da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos – 2020 (ex pandemia)

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