Eles fazem o ônibus nosso de cada dia circular

08/06/2022 |

Otransporte público rodoviário de passageiros é responsável pelo deslocamento da maioria da população brasileira, em suas idas e vindas para o trabalho, lazer, acesso a serviços como consultas médicas, compras, enfim, no vai e vem diário de cada cidadão. Reconhecida como essencial, a atividade está entre aquelas coisas que fazem parte de nossa rotina de tal forma, que nem paramos para pensar sobre elas. Como o fornecimento de água e luz, por exemplo. Só nos lembramos o quanto são importantes em nosso dia a dia quando esses serviços se tornam precários ou deixam de ser prestados.

Mas, se pararmos para pensar, o transporte coletivo, em especial por ônibus, modal que leva a maioria dos passageiros brasileiros diariamente, faz as cidades funcionarem, com os trabalhadores chegando aos seus locais de trabalho, os estudantes, às instituições de ensino, e por aí afora. Mesmo aqueles que não o utilizam, dependem dele de alguma forma. E, se pouco atentamos para isso, o que dizer dos profissionais que estão por trás dos ônibus que cortam nossas cidades, transportando pessoas de um ponto para outro, por motivos diversos e em situações diferentes? Podemos dizer que a atividade do rodoviário constrói pontes entre pes­soas, e entre elas e a realização de suas tarefas diárias.

Reconhecida apenas no ano de 2012, pela Lei Nº 12.619, a profissão de motorista é a primeira em que pensamos quando falamos de transporte. Além da grande responsabilidade de transportar vidas, enfrentando o estresse do trânsito e problemas como a violência urbana, esse profissional, assim como o cobrador, é a nossa interface com o setor. Mas, por trás de um ônibus rodando, existe o trabalho de muitas outras pessoas, na garagem ou nas ruas.

 

Profissional versátil

Natanael Marcelino, com 31 anos de profissão e na mesma empresa – Viação Cidade do Aço – já desempenhou alguns desses papeis. Ingressou na VCA em 1991, como cobrador, foi manobreiro, motorista de transporte urbano, e passou pelo transporte rodo­viário intermunicipal, de turismo e também do executivo. Vê o trabalho do rodoviário como muito importante, pois atende à sociedade na prestação de um serviço fundamental. Acredita que a missão do motorista seja a mais difícil: “somos prestadores de serviço, dependemos do passageiro, mas, por mais que a gente tente, nunca consegue agradar a todo mundo”, lamenta. Mas por isso mesmo, defende: “nosso serviço deve ser diferenciado”.

Para Natanael, o transporte urbano é o que exige mais do profissional, principalmente quando não há a presença do cobrador. “Quando o passageiro embarca num ônibus rodoviário, para uma viagem intermunicipal, ele já está preparado para uma viagem mais longa, que acaba sendo também um passeio. O passageiro do urbano, geralmente está indo ou voltando do trabalho, ou seguindo para algum compromisso, tem horário, se estressa com o trânsito, o clima é diferente, e o motorista tem de se adequar”, diz. Para ele, é imprescindível gostar do que faz para se tornar um bom profissional. E sua trajetória já mostra que ele gosta muito. E filosofa: “quando você olha para o seu trabalho como uma coisa que você gosta, isso já favorece o seu dia a dia, ele fica mais leve”.

De tão entusiasmado e bom profissional, Natanael acabou passando também a instrutor, tarefa que abraçou com prazer e boa vontade. Ele ressalta que um motorista tem de lidar com muitas condições adversas nas ruas, e por isso precisa estar bem preparado, para atender sem se deixar afetar pelas adversidades, mantendo as condições físicas e psicológicas para prestar um trabalho de qualidade. Para ele, “embarcar e desembarcar os passageiros com a sensação do dever cumprido” é motivo de grande satisfação. Para os seus aprendizes, aconselha a sempre encarar o trabalho como se fosse o primeiro dia de empresa: com entusiasmo e vontade de aprender.

Todo esse afinco não passa despercebido, e o instrutor participou, a convite, de evento para jovens aprendizes – “Juntos Salvamos Vidas! – Maio Amarelo” – realizado pelo Sest Senat de Barra Mansa nos dias 17, 18 e 19 de maio. Natanael foi palestrante no primeiro dia do evento.

 

Precisa gostar do que faz

Outro motorista que considera que, para ser bom no volante e ter um bom relacionamento com os passageiros, tem de gostar muito do que faz, é o José ­Leandro Miranda, da Real Rio (Leandro Arara, nas redes sociais, onde está cada vez mais conhecido). Sua rotina de trabalho começa por volta das 11 horas, quando sai de casa, para começar no batente por volta de meio-dia, parando lá pelas 20 h. Leandro aponta dois fatores principais de geração de tensão no trabalho: a violência urbana, que, segundo ele, “sempre causa uma certa apreensão”, e a necessidade constante de atender bem, ao mesmo tempo, à empresa e aos passageiros, o que o faz sentir-se duplamente cobrado. Surpreendentemente, o trânsito não o estressa tanto: “já foi mais caótico, estou acostumado”, diz.

Para ele, um bom profissional, além de gostar do que faz, precisa entender a dinâmica do trânsito, conhecer de direção defensiva, e saber da importância da sua função para a mobilidade das pessoas. “Ser um bom motorista é um dom”, diz. Esse dom, porém, não prescinde de um bom preparo, acredita. Ele considera que a empresa em que trabalha oferece bom treinamento a seus motoristas e acredita que esse cuidado é fundamental. E, assim, há 11 anos ele cumpre sua rotina de rodoviário, na mesma empresa, onde já exerceu a função de cobrador, e com a mesma disposição. O que pode melhorar? Segundo ele, a cordialidade entre as pessoas. Embora muitos passageiros sejam simpáticos, ele se sente incomodado quando as pessoas entram no ônibus, sem aparentemente perceber que ali, por trás do volante, está um ser humano. “Às vezes, até ignoram quando a gente cumprimenta. Todos precisamos saber que sentimos as mesmas coisas, somos seres humanos com nossas preocupações, nossas dores, nossos sonhos, nossas contas para pagar no fim do mês”, desabafa.

 

Lidando com os rodoviários

Com mais de duas décadas no setor, há 20 anos no grupo Ponte Coberta, a psicóloga Valéria Cristina de Souza Correa sente que esse tipo de queixa vem aumentando muito entre os rodoviários que trabalham nas ruas. Os motoristas muitas vezes alegam sentir-se discriminados, com um número crescente de passageiros que não os “enxergam” e sequer respondem a um cumprimento. Em um dia a dia já cheio de tensões com o trânsito e outros problemas, esse tipo de comportamento vem afetando o ânimo desses profissionais.

Se, por um lado, Cristina percebe essa questão negativa, por outro, constata grande evolução no perfil dos rodoviários, nos últimos anos. “Noto evolução, não só no nível de escolaridade, mas no interesse por ter uma carreira e se aprimorar. Hoje é muito mais comum vermos motoristas cursando faculdade, por exemplo. A família é uma preocupação, noto a vontade de fazer com que os filhos se formem, criem um futuro melhor para eles. Normalmente, são pessoas fáceis de lidar, que gostam de um bom papo”, explica. Ela registra que os mais jovens têm uma visão de crescimento profissional diferente. Enquanto os mais antigos querem permanecer na empresa em que se sentiram acolhidos, os mais novos buscam aquelas que mais vantagens lhe oferecem no momento. “Às vezes, mesmo que, em nível salarial, não haja diferença”, analisa. Esse tipo de atitude vem levando as empresas a uma mudança também, pois há uma necessidade maior de estabelecer uma relação de confiança desse funcionário com a organização. As sucessivas crises por que passa o transporte coletivo de passageiros como um todo no estado do Rio de Janeiro, porém, criam dificuldades para que se ofereçam mais atrativos a esses profissionais. Cristina diz que a pandemia piorou ainda mais esse panorama, gerando tragédias pessoais para um grande número de rodoviários.

O retorno lento e gradual dos passageiros traz de volta, segundo ela, alguns colaboradores que haviam se afastado do setor para se arriscar em novas atividades, como negócios familiares ou empreendimentos pessoais. A crise provocada pela pandemia de Covid-19 levou à derrocada dessas expectativas e à intenção de retornar ao antigo trabalho.

Para Rosa Emília da Conceição, responsável pela Gestão de Pes­soas e Organizacional do TransÔnibus, “Essa classe trabalhadora compõe a força de trabalho que assegura a mobilidade das pessoas nas cidades. Ela anima um sistema, muitas vezes desconhecido em suas características estruturais de: habilidades, expertise e dedicação. Suas atividades sofrem todas as interferências externas e adversas, tais como: engarrafamentos, chuvas, temperatura, acidentes, interdições por obras, manifestações, questões de segurança pública, eventos diversos… mas o serviço não pode parar! O usuário só consegue ver a ponta dessa estrutura, que são os que ­realizam/entregam os serviços (motoristas, despachantes, fiscais, cobradores), porém, nos bastidores efervescentes das empresas, se mobilizam inúmeros profissionais que garantem o atendimento a todos os requisitos para realização das viagens: são mecânicos, eletricistas, borracheiros, lavadores, abastecedores, pessoal da administração, do planejamento, do controle, do monitoramento, instrutores – também rodoviários. Enfim, cada empresa é estruturada por mais de 60 cargos, que trabalham incansavelmente e dedicadamente para que as cidades se movimentem e para que os outros segmentos econômicos executem e entreguem suas atividades à população.”

 

A voz da experiência

Rubens dos Santos Oliveira também tem vasta experiência com os profissionais rodo­viários. Afinal, além de 42 anos de profissão, representa a categoria, como presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Passageiros de Niterói a Arraial do Cabo – Sintronac. Ele percebe uma grande mudança nos profissionais, do tempo em que ingressou na profissão para os dias atuais. A modernização dos veículos levou-os a se atualizarem, e, segundo Rubens, criou mais responsabilidades para os motoristas: “Temos de ter cuidado redobrado com idosos, pes­soas doentes e crianças a bordo, sem a figura do cobrador para nos ajudar, e por isso também temos de receber dinheiro e dar troco”. Rubens percebe uma crescente frieza dos passageiros, que parecem ver o motorista apenas “como um robô”, só notando a importância do profissional rodoviário quando há um problema grave que impede o ônibus de chegar, como um congestionamento, um acidente ou uma paralisação dos serviços. A sociedade parece não compreender as dificuldades diárias desses trabalhadores, segundo sua percepção. “Hoje, trabalhamos tensos todo o tempo.

Os erros de um motorista de ônibus ficam muito expostos, é uma pressão bem grande, pois os passageiros acham que todos os problemas são por nossa culpa. Se há um atraso, uma quebra do veículo, uma demora por causa de um embarque de cadeirante, as pessoas reclamam do motorista”, diz. Ele frisa que existem muitos profissionais por trás de um ônibus que circula nas ruas de nossas cidades, mas quem se expõe é o profissional do volante. O problema mais sério, porém, para o líder sindical, é a violência urbana. As agressões, depredações e incêndios prejudicam as pessoas que precisam ser transportadas diariamente. Ele sente a necessidade urgente de conscientização da população, pois “cada um tem de zelar pelo seu meio de transporte”, diz.

Para o presidente do Sintronac, a situação é muito preocupante, pois “o País não investe na juventude, e os problemas sociais não se resolvem”, o que parece gerar um círculo vicioso. Ele mostra grande preocupação com a crise das empresas de ônibus do estado do Rio de Janeiro. “A gente sabe que as empresas não ganham muito dinheiro, como a mídia diz. Não sou empresário, mas sei que transporte público, assim como educação e saúde, é dever do Estado”, ressalta, pois acredita que, se o poder concedente terceiriza a atividade, tem de garantir o equilíbrio econômico-financeiro das operadoras. Rubens lembra dos tempos em que trabalhou na CTC e diz que o serviço prestado pela estatal era muito ruim. Para ele, os governantes precisam pensar na importância do transporte público para a sociedade e evitar que a situação se agrave mais. Acredita que a pandemia piorou muito uma crise que já era grande. Diz que a categoria também tem propostas para a melhoria do transporte público e, consequentemente, da mobilidade urbana, e que pretende realizar, em breve, um seminário para provocar uma análise conjunta dos problemas do setor, na busca de soluções.

 

Heróis anônimos

Para Armando Guerra Junior, presidente da Fetranspor, o profissional rodoviário é o grande responsável por manter o sistema de transporte coletivo funcionando. “Existem pessoas nas garagens cuidando desde a limpeza dos ônibus até a manutenção, pintura, acompanhamento do GPS. E há ainda os fiscais, despachantes, e os motoristas, que são os nossos representantes perante o público. Eles prestam um serviço importantíssimo para a sociedade, e merecem todo o nosso respeito e reconhecimento. A Fetranspor criou recentemente o Portal do Rodoviário, prestigiando esses profissionais que, anonimamente, mantêm o nosso ônibus de cada dia circulando pelas ruas de nossas cidades”, conclui.

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