Empresas do Rio reduzem a zero a compra de ônibus novos em 2021

01/06/2021 |

Idade média da frota de ônibus na capital fluminense dobra, em dez anos. Fabricantes anunciam dificuldades na indústria de ônibus em todo o País

As vendas de ônibus novos estão estagnadas e a idade média das frotas em operação despencou. No município do Rio, a redução no número de aquisições de coletivos caiu 90%, de 2012 para 2020. Em 2021, nenhum ônibus novo foi comprado na capital fluminense. Esta é a realidade de todo o País, denunciada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, que emitiu carta aberta ao mercado, relatando queda nas vendas e alta no custo de insumos da indústria.

Segundo a entidade, os preços do aço e dos componentes de plástico sofreram reajuste de 115%; freios, 154%; vidros, 48%; eletrônicos, tintas e químicos, 30%. Em outubro do ano passado, as montadoras sentiram o impacto da baixa produção, com o fechamento da Marcopolo, em Duque de Caxias, então maior fabricante de ônibus do Brasil. O episódio rendeu a demissão de 800 funcionários diretos.

Em 2012, quando a idade média da frota carioca era de 3,4 anos, foram comprados 1.602 ônibus novos. De 2013 até 2016, a média de aquisição anual foi de 1.043 coletivos. A partir de 2017, o setor começou a sentir os impactos da crise financeira no País, registrando apenas 433 veículos novos, seguidos de 403 e 484, em 2018 e 2019, respectivamente, quando a idade da frota já batia 5,67 anos. Em 2020, com o colapso econômico acentuado pela pandemia, somente 174 ônibus novos foram emplacados no Rio de Janeiro, os últimos comprados na cidade. E nenhum este ano, até maio.

MERCADO DE ÔNIBUS NO BRASIL
Segundo a Fabus, no primeiro trimestre de 2021, a produção de ônibus no País caiu 30% em relação ao mesmo período do ano passado, quando esse número já estava 18% abaixo do que o registrado em 2019. Ou seja: em dois anos, houve um encolhimento de 42% do setor. Se no segundo semestre do ano passado, as perspectivas dos fabricantes eram otimistas, a segunda onda da pandemia de Covid-19 e a falta de políticas públicas compensatórias que possibilitem, efetivamente, a retomada dos investimentos, tornaram o cenário extremamente sombrio para este segmento.

Diversos diretores de concessionárias que comercializam ônibus novos no Rio de Janeiro confirmam que, em 2021, as transportadoras de passageiros cariocas têm adquirido apenas peças de reposição e serviços. As vendas de ônibus novos estão paralisadas. E mesmo as peças de reposição estão com vendas reduzidas, por conta da menor quilometragem de operação total, o que gera menos desgaste e, portanto, menor demanda por reparos. Esses executivos alertam também que algumas empresas, que, apesar de tudo, tentam renovar a frota, estão tendo dificuldade de crédito, pois a viabilidade financeira do setor está abalada, por conta da diminuição da demanda de viagens e tarifas deficitárias. Já os revendedores de ônibus usados falam em excesso de oferta, por conta do encerramento das atividades de diversas operadoras de transporte de passageiros. Cada empresa que fecha disponibiliza todos os seus veículos para venda. O mercado, em todo o País, está demandando pouco e não absorve todas as ofertas.

“Hoje, os ônibus estão com idade média de 6,3 anos. Com a redução de 50% no número de passageiros transportados, desde março do ano passado, muitas empresas perderam até a capacidade de custeio de seus insumos básicos, incluindo combustíveis e salários. Queremos atender a população e garantir qualidade aos deslocamentos dos cariocas. Mas, como proporcionar este cenário com a metade da receita? É preciso que o poder público compreenda que este serviço é essencial e precisa, urgentemente, de recursos externos para cobrir o desequilíbrio e continuar operando”, explica Paulo Valente, porta-voz do Rio Ônibus (Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro).

Ao completar um ano de pandemia e isolamento social, o Rio Ônibus registra redução de 3,5 milhões para 1,8 milhão nos embarques diários. O reflexo na arrecadação financeira é a perda de R$1,2 bilhão, o que ameaça a operação e gera incertezas sobre o futuro da prestação do serviço.

Menos passageiros e tarifas deficitárias geram menor capacidade de renovação da frota. Ônibus mais velhos significam menor qualidade do serviço e, portanto, menos interesse dos usuários em utilizar o modal e menos disposição política, na sociedade, de arcar com os custos crescentes. O que retorna à questão crucial: cada vez menos passageiros e tarifas ainda mais deficitárias. Um claro círculo vicioso.

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