Entrevista com Otávio Vieira da Cunha, presidente executivo da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU)

19/08/2020 |

Não há como fazer planejamento de transporte sem participação dos entes públicos

A Revista Ônibus ouviu o presidente executivo da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Otávio Vieira da Cunha Filho, sobre a situação do setor empresarial de transporte por ônibus por todo o País. Com mais de 40 anos de trabalho no segmento, Cunha é também membro do Conselho Diretor da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).

 

Revista Ônibus: A pandemia do novo coronavírus atingiu fortemente a economia do País. Quais foram os efeitos nas empresas de transporte por ônibus?
Otávio Vieira da Cunha Filho: Os efeitos são muito graves. Estamos caminhando para o colapso.
Cálculos recentes da NTU revelam prejuízo acumulado de R$ 3,72 bilhões, do início da pandemia até o dia 30 de junho; queda de 60% no número de passageiros e aumento de 80% nas demissões, além de redução e paralisações do serviço em várias cidades.

 

R.O.: Qual a principal dificuldade?
Otávio:
Nossa principal dificuldade é manter o equilíbrio econômico-financeiro das empresas. E para isso precisamos do auxílio do governo federal, o que ainda não conseguimos. Esta é outra dificuldade, ter nosso pleito atendido.

 

R.O.: Em que partes do País as empresas foram mais afetadas?
Otávio:
Temos empresas afetadas em várias partes do Brasil, mas em 182 sistemas, o cenário o, até 15 de maio, era de paralisação total dos serviços de transporte público por ônibus, dois a mais do que em abril. Nesse universo estão 176 municípios do estado de Santa Catarina, além das cidades de Araguaína-TO, Ilhéus-BA, Jaboticabal-SP, Nova Pádua-RS, João Pessoa-PB e Penápolis-SP.

 

R.O.: Quais foram as ações da NTU, como representante dessas empresas, para tentar combater esses problemas?
Otávio:
Como representante de mais de 500 empresas associadas, todas sofrendo com efeitos da pandemia, sejam eles mais leves ou graves, a NTU vem fazendo sucessivas reuniões com interlocutores do governo federal, seja diretamente ou com apoio de outras entidades parceiras ligadas ao setor de transportes urbanos, como a Frente Nacional de Prefeitos e outras, para expor a situação das empresas e propor alternativas para que se mantenham em operação. Na segunda quinzena de março, e até o dia 5 de abril de 2020, os prejuízos foram completamente absorvidos pelas empresas, sem qualquer apoio ou subvenção. Na segunda fase, de 6 de abril até 15 de maio, já com a vigência da Medida Provisória nº 936, os prejuízos foram parcialmente amortizados. Com a prorrogação da antiga MP, agora Lei 14.020, o setor terá mais 30 ou 60 dias de benefício às empresas, dependendo do caso, até somar 120 dias de suspensão de contrato ou redução de jornada e salário. Não é suficiente para resolver a situação, só traz um alívio temporário.

Por essa razão, nossa principal proposta de resgate do setor, formulada até o momento, é o projeto elaborado com base na proposta levada por entidades ligadas ao transporte público para o governo federal, ainda no início da pandemia. A sugestão é criar um programa que consiste na aquisição mensal de créditos eletrônicos de passagens, enquanto perdurar a crise de Covid-19, em volume suficiente para cobrir a diferença entre receita e despesa das empresas. O transporte público é atividade essencial e precisa continuar rodando, mesmo com baixa demanda. Segundo a proposta, cada crédito eletrônico de passagem corresponde a uma tarifa pública vigente no sistema de transporte coletivo por ônibus de cada localidade. Assim, o governo federal poderia usar os créditos do programa Transporte Social como um estoque a ser empregado agora, depois da crise do coronavírus, para distribuir entre os beneficiários dos seus próprios programas sociais. A proposta é assinada pelo Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana, Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) e NTU. Desde que foi proposto, o programa já serviu de subsídio para a criação de projetos de lei no Congresso. Infelizmente, ainda não teve o desfecho que o setor espera, porque não foi acatado pelo governo federal.

 

“A sugestão é criar um programa que consiste na aquisição mensal de créditos eletrônicos de passagens, enquanto perdurar a crise de Covid-19, em volume suficiente para cobrir a diferença entre receita e despesa das empresas. O transporte público é atividade essencial e precisa continuar rodando, mesmo com baixa demanda”

 

R.O.: Já se pode verificar algum resultado? Existe luz no fim desse túnel?
Otávio:
Acreditamos que existe, sim. Está havendo uma discreta melhora na demanda, que chegou a cair 80% no auge do distanciamento social, e agora a queda está em torno de 60%. Mesmo assim, as contas não fecham, porque o serviço depende dos usuários pagantes, e a oferta caiu menos que a demanda. Existem ainda as aglomerações em determinados horários e cidades, mas isso depende das decisões do poder público. É ele quem define quanto ao dimensionamento da frota, não nos cabe essa decisão. Efetivamente, a solução para o setor passa, inevitavelmente, pelo socorro financeiro do governo federal.

 

R.O.: Já há um consenso de que nada será igual, depois dessa pandemia, esperando-se um “novo normal”. O que vai mudar no relacionamento empresa de ônibus/rodoviário e empresa de ônibus/cliente?
Otávio:
Sim, acreditamos que para todos os setores, em geral, nada permanecerá do jeito que era antes da pandemia. Haverá mudanças em vários processos, formas de atuar. O mesmo vale para o transporte coletivo urbano. Como se trata de um vírus que veio para ficar por muito tempo fazendo parte da nossa rotina, entendemos que o ônibus terá de mudar sua forma de operar, como já vem sendo cobrado das autoridades e da sociedade em geral. As empresas terão que investir cada vez mais em tecnologia, para proporcionar maior segurança aos colaboradores e aos passageiros. Já temos conhecimento de montadoras e encarroçadoras que estão desenvolvendo modelos de ônibus coletivos com nova configuração interna, permitindo maior distanciamento entre os passageiros. Temos muitas mudanças pela frente.

Enquanto tudo isso não se consuma, o setor segue investindo cada vez mais nos protocolos de segurança sanitária (quadro abaixo), reforçando e cobrando o uso da máscara pelos colaboradores e passageiros, uso de álcool em gel e outros cuidados que devem perdurar por muito tempo, até que tenhamos a vacina contra o vírus.

 

“Está havendo uma discreta melhora na demanda, que chegou a cair 80% no auge do distanciamento social, e agora a queda está em torno de 60%. Mesmo assim, as contas não fecham, porque o serviço depende dos usuários pagantes, e a oferta caiu menos que a demanda”

 

R.O.: As crises, muitas vezes acabam por trazer avanços, novas maneiras de se ver as coisas, mudanças de comportamento. Vê algum aprendizado trazido pela pandemia de Covid-19 que possa ter efeito positivo para o operador de transporte urbano por ônibus?
Otávio:
Certamente que sim. O enfrentamento de um desafio dessa proporção não pode ocorrer sem provocar mudanças positivas, porque nos tira completamente da zona de conforto. E, assim como temos buscado alternativas para a situação econômico-financeira do setor, as empresas também estão se movendo para encontrar soluções que atendam às novas demandas por segurança sanitária; por maior investimento em tecnologia; em inovação, mas nada disso será possível sem que tenhamos o apoio do governo federal para superar os atuais desafios trazidos pela pandemia.

 

R.O.: Que expectativas o empresário do setor pode ter, pós-pandemia?
Otávio:
Esperamos que essa pandemia ajude o setor a concretizar a expectativa por mudanças profundas e estruturais em todo o sistema de transporte coletivo urbano do Brasil, pois somente quando esse atual modelo for revisto poderemos, de fato, acreditar que um novo transporte público vai surgir para atender às reais necessidades da sociedade por um serviço eficiente, de qualidade e a preços módicos. Somente com o apoio do Estado é que podemos caminhar nessa direção, afinal nosso planejamento passa por ações conjuntas entre poder público, gestores do serviço nos estados e municípios, e as empresas. O transporte coletivo urbano é um serviço de natureza essencial, público e concedido à iniciativa privada, portanto, não há como fazer planejamento sem a participação dos entes públicos.

 

Protocolos de segurança adotados:
Passageiros

• Manter as janelas dos ônibus abertas para uma melhor circulação do ar, sempre que possível;
• Evitar os horários de pico nos transportes públicos;
• Escolher rotas que envolvam apenas um meio de transporte, evitando trocas de linhas ou modais que aumentam o risco de exposição, sempre que for viável;
• Lavar sempre as mãos com sabão até a metade do antebraço, esfregando também as partes internas das unhas, antes e depois de usar o transporte público; alternativamente, limpar as mãos com álcool em gel 70° INPM;
• Evitar cumprimentar com beijos, apertos de mãos e abraços;
• Limpar com álcool em gel 70° INPM objetos tocados frequentemente;
• Evitar tocar nas áreas do rosto (principalmente nariz, olhos e boca) antes de higienizar as mãos;
• Quando tossir ou espirar, proteger a boca na parte interna do antebraço ou com um lenço descartável;
• Procurar manter uma distância de, pelo menos, 1 metro de quem estiver tossindo ou espirrando;
• Utilizar lenços descartáveis quando estiver com o nariz escorrendo,
descartando o lenço usado imediatamente no lixo;
• Evitar sair de casa, caso apresente sintomas de gripe ou similar;
• Seguir as orientações oficiais do Ministério da Saúde e autoridades sanitárias, evitando mensagens falsas que circulam pela Internet e WhatsApp (fake news).

Operadores
• Desligar o sistema de ar-condicionado dos ônibus ou usar no modo de ventilação aberto;
• Manter as janelas dos ônibus abertas para uma melhor circulação do ar, sempre que possível;
• Reforçar a limpeza diária interna dos veículos, a desinfecção e limpeza de balaústres e pega-mãos, fazendo a higienização dos veículos com mais frequência no decorrer do dia, sempre que possível;
• Disponibilizar espaços para cartazes e outros materiais informativos sobre a prevenção do coronavírus na frota e demais canais de comunicação da empresa (sites, redes sociais, TV de bordo);
• Orientar os funcionários sobre métodos de prevenção contra o coronavírus;
• Colocar à disposição dos funcionários, nas áreas administrativas e nas garagens, álcool em gel 70° INPM.

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