Entrevista: Marcus Vasconcellos, sócio da ARM Gestão

27/11/2020 |

AS EMPRESAS PRECISARÃO TRABALHAR FORTEMENTE NAS SUAS ESTRUTURAS INTERNAS DE CUSTOS

O entrevistado desta edição é Marcus Vasconcellos, um dos sócios da ARM Gestão, empresa de consultoria especializada na solução de problemas empresariais de alta complexidade. O economista tem ampla experiência em mercado de capitais e gestão empresarial, inclusive no exterior. Tendo iniciado sua trajetória profissional na década de 1980, Marcus Vasconcellos passou por grandes grupos e colecionou histórias de sucesso. O especialista falou à Revista Ônibus sobre a situação das empresas brasileiras na crise econômica causada pela pandemia e sua visão sobre mais esse impacto sobre as empresas de transporte por ônibus.

RO: Como vê a situação das empresas brasileiras no momento atual? E especificamente no Rio de Janeiro, em relação aos outros estados?
MV: A economia brasileira, como um todo, apontava para uma melhora em 2020, ainda que ligeira. O mercado estava mais otimista, apostando em políticas econômicas mais coerentes. Mas a pandemia interrompeu projetos de mudança no mundo todo, e aqui não foi diferente. Imaginava-se um movimento ascendente, e sobreveio a crise.
Medidas governamentais atenuaram o baque, como a flexibilização de contratos de trabalho, a negociação com a própria Receita Federal e a postergação de pagamentos de tributos, a suspensão de execuções e despejos e, principalmente, o auxílio emergencial, que deu uma injeção na economia. Mas a verdade é que os pagamentos são adiados, as pessoas têm um pequeno alívio, mas as dívidas não desaparecem. Nem as pessoais, nem as das empresas ou do governo.
Especificamente o estado do Rio de Janeiro já vinha vivendo momentos de incerteza e dificuldades financeiras há alguns anos. Isso, é claro, se reflete nas empresas. Há uma grande expectativa para saber como solucionar a crise e uma tensão nas organizações empresariais. Mas, por incrível que pareça, no caso da recuperação judicial, os números estão menores do que o esperado. Isso não quer dizer que a situação não esteja bastante crítica, ainda mais que o Estado já estava com sérios problemas econômicos e sociais.

RO: Dentre as suas clientes, há empresas do setor de transporte por ônibus?
MV: Sim, temos clientes desse setor.

RO: A partir da sua experiência, qual o grau de dificuldades de reestruturação de organizações desse segmento, que já vinha enfrentando séria crise, agora agravada pela pandemia?
MV: Realmente, essas empresas já vinham sofrendo com problemas como tarifas insuficientes, gratuidades não compensadas, competição crescente do transporte ilegal. De 47 empresas na cidade do Rio de Janeiro, 17 fecharam. Das 30 que sobraram, três lançaram mão do instrumento legal da recuperação judicial como ferramenta para ajudar a reestruturação de seus negócios. As dificuldades do setor são bastante sérias.

 

“Essas empresas já vinham sofrendo com problemas como tarifas insuficientes, gratuidades não compensadas, competição crescente do transporte ilegal. De 47 empresas na cidade do Rio de Janeiro, 17 fecharam.”

 

RO: Quais as maiores dificuldades para essas empresas se manterem atuando e conseguirem prestar um bom serviço?
MV: São várias. As empresas de transporte estão sofrendo grandes dificuldades no País todo. Se tomarmos a cidade do Rio como exemplo, veremos que a tarifa de R$ 4,05 não remunera os investimentos necessários para manter os ônibus rodando, e não permite renovar a frota. Esta fase de pandemia do coronavírus agravou muito o quadro, com grande queda de demanda, e as empresas não têm como controlar esse fluxo de passageiros. A falta de subsídio é outro problema sério. No atual modelo, o custo é pago apenas pela tarifa. Não é o que acontece na maioria das grandes cidades do mundo, e a sociedade vai ter de decidir quanto a um novo modelo, porque, do jeito que está, o sistema vai colapsar.

RO: Que pontos estratégicos devem ser observados para a viabilização dos negócios? E no que o poder concedente pode ajudar?
MV: As empresas precisarão trabalhar fortemente nas suas estruturas internas de custos, para criar organizações eficientes e aumentar a qualidade do serviço, para se tornarem mais competitivas. Mas, para isso, precisam de tarifas mais justas. Quanto ao poder concedente, pode viabilizar várias soluções, a começar pela criação de um novo modelo, com a oferta de subsídios e o estabelecimento de um sistema muito transparente, deixando claro quem custeia as gratuidades, por exemplo. Em algumas linhas, o percentual de passageiros não pagantes
chega a 30%, 40%. Isso torna o negócio insustentável. Há que se honrar os contratos de concessão, pois isso não acontece atualmente, o que gera grande insegurança jurídica. É recomendável a otimização de linhas – traçado, horário, frequência –, uma vez que temos uma nova realidade em que muitas viagens deixaram de ser feitas, a população criou novos hábitos etc.

RO: Na sua opinião, o que se pode tirar de positivo de uma situação crítica como a atual?
MV: Certamente, a maioria das empresas foi obrigada a planejar e executar planos de redução de custos, desperdícios e implementação de novas tecnologias. A necessidade nos obriga e nos dá coragem para tomar decisões que estavam engavetadas há muito tempo. Esses ganhos devem ser incorporados ao fluxo de caixa futuro, tornando as companhias mais eficientes e produtivas.

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