Está chegando a hora

09/03/2021 |
Trabalhadores do transporte coletivo integram grupo prioritário da vacina contra a Covid-19

Após quase um ano de enfrentamento da pandemia da Covid-19, no final de 2020, o mundo celebrou a descoberta de várias vacinas contra a doença. No dia 8 de dezembro, o Reino Unido se tornou o primeiro país do Ocidente a vacinar a população contra o novo coronavírus, utilizando o imunizante da farmacêutica norte-americana Pfizer com a empresa alemã de biotecnologia BioNTech. Margaret Keenan, de 90 anos, foi a primeira a receber a dose. Antes disso, pelo lado oriental, entre junho e agosto, na China, a vacina Coronavac, da fabricante chinesa Sinovac Biotech, feita em parceria com o brasileiro Instituto Butantan, começou a ser aplicada em caráter emergencial em profissionais de saúde, autoridades governamentais e outros grupos especiais. Nos Emirados Árabes, a vacinação em grupos especiais iniciou em setembro, também com o imunizante da Sinovac.

No Brasil, imediatamente após aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para uso emergencial, das vacinas Coronovac e Astrazeneca, produzida pela Fiocruz em parceria com a Universidade de Oxford, a enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, recebeu a primeira dose, no Hospital das Clínicas, em São Paulo (SP), dia 17 de janeiro. No dia seguinte, o imunizante chegou ao Rio de Janeiro, onde a técnica de enfermagem Dulcinéia da Silva Lopes, 54 anos, e a idosa Teresinha da Conceição, 80 anos, foram as primeiras cariocas a receberem a vacina, em ato simbólico, no Cristo Redentor. Agora, apesar do atraso brasileiro na corrida pela aquisição dos imunizantes ou da importação de componentes para sua produção no Butantan e na Fiocruz, todos os estados já começaram a vacinação, com poucas doses. Mas, a promessa de produção de mais de 100 milhões de doses da Astrazeneca, até julho, e de outros 100 milhões da Coronovac, até setembro, acendeu a esperança de que mais brasileiros consigam ser vacinados ainda este ano.

“PARA CONTINUAR NAS ESTRADAS”
Para os trabalhadores do transporte coletivo de passageiros, cuja atividade é considerada essencial, que estão na ativa desde o começo da pandemia, a expectativa é ainda maior. Eles foram incluídos nos grupos prioritários para receber a vacina contra a Covid-19. Ao divulgar o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação, no dia 19 de dezembro, o governo federal anunciou a inclusão dos rodoviários de cargas e passageiros, que, na versão preliminar do Plano, encaminhada ao Supremo Tribunal Federal dia 12 de dezembro, não figuravam entre os públicos prioritários. A entrada dos rodoviários nos grupos principais da vacinação foi oficializada no dia 18 de janeiro, pelo Ministério da Infraestrutura. Foram incluídos profissionais como: motoristas e cobradores de ônibus; caminhoneiros; portuários, inclusive os da área administrativa; funcionários das companhias aéreas nacionais; funcionários de empresas metroferroviárias de passageiros e de cargas; funcionários de empresas brasileiras de navegação, entre outros. “Essa é uma grande notícia para nossos trabalhadores que continuaram, mesmo durante toda a pandemia, prestando um grande serviço ao nosso País. Esses profissionais terão o suporte do governo federal para garantir a vacinação como grupo prioritário e vamos garantir a segurança e as condições de que eles precisam para continuar nas estradas, portos e ferrovias”, afirmou o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.

EM DEFESA DOS RODOVIÁRIOS
O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, foi mais uma autoridade que defendeu a inclusão de motoristas de ônibus e outros rodoviários entre os grupos prioritários, devido ao risco diário de exposição em seus trabalhos. Segundo Covas, se as pessoas de maior risco forem imunizadas, a pandemia poderá ser controlada já no segundo semestre deste ano.

Colocar os profissionais do transporte na lista dos primeiros brasileiros a serem vacinados foi um pedido feito pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) ao Ministério da Saúde. “Esses profissionais são os responsáveis pela prestação dos serviços de transporte de vacinas, pessoas, alimentos, medicamentos e outros suprimentos necessários para atravessarmos o momento crítico que se abateu sobre o País. […] Nos ares, portos, estradas ou vias urbanas, esses profissionais são fundamentais”, destacou Vander Costa, presidente da entidade, em documento encaminhado ao governo. O entendimento sobre a essencialidade dos trabalhadores de transportes já havia sido demonstrado quando, no dia 30 de março do ano passado, também a pedido da CNT, o Ministério da Saúde incluiu caminhoneiros, motoristas de ônibus e trabalhadores portuários na segunda fase da Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe.

“Esses profissionais são os responsáveis pela prestação dos serviços de transporte de vacinas, pessoas, alimentos, medicamentos e outros suprimentos necessários para atravessarmos o momento crítico que se abateu sobre o País”
Vander Costa, presidente da Confederação Nacional do Transporte

CATEGORIA QUE MERECE APLAUSO
O presidente da Fetranscarga e do Conselho Regional RJ do Sest Senat, Eduardo Ferreira Rebuzzi, foi enfático ao defender a decisão do Ministério da Saúde de priorizar trabalhadores do transporte. “Durante a pandemia, a importância do setor de transporte para a mobilidade das pessoas e para o funcionamento da economia ficou mais evidente aos olhos públicos, quando não deixamos de trabalhar, um dia sequer, nas rodovias e vias urbanas do País. Os profissionais rodoviários, embora treinados e orientados, tanto pelas empresas como pelas diversas campanhas educativas promovidas pelo Sest Senat, para se protegerem adequadamente contra o contágio pelo vírus, acabam se colocando em risco, já que realizam seu trabalho externamente. Assim, a vacinação tem grande importância para essa destacada categoria profissional, que merece o aplauso de todos”.

Rebuzzi lembrou que a inclusão dos motoristas nos grupos prioritários foi defendida pela CNT e demais entidades que representam o setor, gerando expectativa nos profissionais de poderem trabalhar com mais tranquilidade. “Esperamos que a ampla vacinação possa trazer, aos poucos, uma maior normalidade no cotidiano das pessoas e, consequentemente, o reaquecimento da economia. E essa é uma mudança que deve ser muito valorizada”, finalizou.

A EXPECTATIVA DOS RODOVIÁRIOS
Estar entre os primeiros brasileiros vacinados, devido à sua atividade profissional, confirma a importância da classe trabalhadora dos rodoviários. Na edição número 110 da Revista Ônibus, publicada no começo da pandemia, a matéria especial de capa foi justamente sobre isso. Intitulada “Os heróis do transporte”, a reportagem mostrava como os profissionais rodoviários estavam enfrentando a pandemia, suas rotinas, medos e a relação com a família e os clientes. A Revista ouviu onze profissionais de empresas de ônibus, entre motoristas, mecânicos e supervisores, que contaram sobre a experiência de continuar trabalhando em meio à crise da saúde no estado do Rio de Janeiro. Agora, com a chegada da vacina e a entrada desses trabalhadores nos primeiros lugares da fila para a imunização, a Ônibus procurou alguns dos rodoviários entrevistados naquela ocasião, para saber como se sentem e quais as expectativas quanto à vacinação.

Marco Aurélio Vargas Garcia, 63 anos, motorista de turismo e fretamento da BelTour, diz que gostaria de ser vacinado o mais breve possível. “Penso que as vacinas são a forma mais eficaz de prevenção, principalmente contra as doenças infectocontagiosas. Sendo a vacina um instrumento de proteção, tanto individual quanto coletivo, é muito importante que a classe de rodoviários seja incluída entre os prioritários. Afinal, lidamos diariamente com um número grande de passageiros, o que aumenta o risco de contaminação para nós e para nossos familiares”.

Marcos Vinício Almeida de Araújo, 46 anos, motorista da Rio Ita, afirmou que está ansioso para ser vacinado e lamenta a morte de outros rodoviários. “Estamos perdendo muitos colegas. Então, esperamos o mais rápido possível sermos vacinados, porque estamos na linha de frente também. E outra coisa que nos preocupa é que nós, motoristas, não estamos mais conseguindo controlar os passageiros. A população já está saturada de usar máscara, da quarentena… Tem passageiro que embarca sem máscara, a gente avisa, ele passa pela roleta e tira novamente. Tem muita gente sem noção do que está acontecendo. Estamos precisando rápido dessa vacina, pra que a gente fique imunizado logo. Minha expectativa é grande e acredito que, em março, já estejamos tomando ao menos a primeira dose”.

Marcos Antonio Silveira Silvino, 46 anos, motorista plantonista da Viação Salineira, também aguarda ansioso pela primeira dose. “É grande a minha expectativa em receber logo a vacina, para que possamos transportar os passageiros pra todo canto – casa, trabalho, lazer e outros – com mais tranquilidade. Será de grande importância pra nós, rodoviários”.

Natanael Marcelino, 48 anos, motorista e instrutor da Viação Cidade do Aço, afirma ser louvável a prioridade para rodoviários. “Dentro do ônibus, temos várias pessoas, e ninguém traz escrito na testa que está infectado; muitas das vezes, a pessoa nem sabe que está infectada. Então, nós nos deparamos com um número de pessoas muito grande, todos os dias. E eu achei louvável essa prioridade para os profissionais do transporte, para esse Brasil funcionar, seja no âmbito rodoviário ou urbano. Assim como eu, com certeza, vários rodoviários estão satisfeitos com essa decisão. Agora, o que a gente pede a Deus é que essa vacina chegue rápido, e que sejamos vacinados o quanto antes; que haja uma aceleração na compra e chegada dessas vacinas, para dar um pouco mais de conforto, segurança e esperança, para trabalharmos mais tranquilos. Eu acredito que, em março ou abril, toda nossa classe rodoviária e mais alguns grupos prioritários vão estar vacinados. E peço a Deus para que todos os brasileiros sejam vacinados. Se Deus quiser, isso vai acontecer. Não num prazo curto. Mas, um dia vamos poder dizer que passamos por uma pandemia tão feroz no século XXI e que a ciência conseguiu, em tempo recorde, achar a imunização”.

Gilberto Santos da Rocha, 56 anos, supervisor da Viação Galo Branco, defende a importância da vacinação para os rodoviários. “Porque trabalham direto com o público. São muitas pessoas, entrando e saindo do coletivo todos os dias. Dar prioridade ao motorista na fila da vacinação é também preservá-lo e preservar os clientes do ônibus”.

COMO ESTÁ O PLANO DO GOVERNO
De acordo com o governo federal, a previsão é que os grupos prioritários sejam vacinados no primeiro semestre de 2021, seguindo as fases determinadas.

Primeira fase: trabalhadores da saúde, população idosa a partir dos 75 anos de idade, pessoas com 60 anos ou mais que vivem em instituições de longa permanência (como asilos e instituições psiquiátricas) e população indígena;
Segunda fase: pessoas de 60 a 74 anos;
Terceira fase: pessoas com comorbidades (como portadores de doenças renais crônicas, cardiovasculares, entre outras); Os trabalhadores do transporte coletivo serão contemplados na continuidade das fases, conforme aprovação, disponibilidade e cronograma de entregas das doses a serem adquiridas.

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