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Filmes de violência e mistério no dia a dia do transporte público

Cena 1 – Em uma fria noite de quinta-feira, uma mulher está sentada do lado…

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Por Redação Revista Ônibus • 18 de setembro de 2025
  • Analisando os pontos principais da matéria...

Cena 1 – Em uma fria noite de quinta-feira, uma mulher está sentada do lado da janela de um ônibus que trafega na capital paulista. Em um primeiro momento, está distraída digitando algo no celular; no momento seguinte, uma grande pedra atravessa e estilhaça o vidro da janela e ela tem seu rosto gravemente ferido, o nariz quebrado. É socorrida e levada para o hospital mais próximo. O ônibus não termina a viagem e fica dias na garagem esperando a reposição do vidro. Os outros passageiros embarcam no próximo veículo da mesma linha. O motorista, embora traumatizado pela violência, no dia seguinte continua seu indispensável trabalho. Apenas o desconhecido criminoso que lançou a pedra volta tranquilo para casa. O espantoso filme foi gravado pelas câmeras de segurança do veículo. Um caso que, isolado, já é assustador, mas foi apenas um evento, em mais de cinquenta parecidos que ocorreram naquele 27 de junho de 2025, dia em que as câmeras da imprensa registraram grandes filas de ônibus parados em avenidas, todos com vidros estilhaçados. E esse foi apenas um dia dos últimos meses de terror contínuo contra o transporte público paulista.

 


Cena 2 – Em uma larga avenida de Madureira, passageiros descem desesperados de um ônibus articulado e seguem a pé, sem rumo. Muitas pessoas mostram-se nervosas, outras gritam. O imenso veí­culo, em seguida, sai da faixa exclusiva e interrompe o tráfego em um dos sentidos da avenida. Outros ônibus são abandonados atravessados na pista, no sentido oposto, e obstruem totalmente a via. Nesta ensolarada tarde de terça-feira, 14 de julho de 2025, ao menos 15 ônibus municipais e 5 intermunicipais foram sequestrados e tiveram as chaves levadas por criminosos na Zona Norte do Rio. Um filme de guerra com barricadas, sirenes e muitos tiros, que criaram o caos no tradicional bairro do samba. Tudo isso captado pelos celulares dos moradores. E esse foi apenas um dos frequentes sequestros de ônibus por facções criminosas do Rio neste ano, a maioria deles com o intuito de criar barricadas e dificultar o acesso da polícia aos locais de refúgio dos bandidos.

 

As maiores metrópoles brasileiras, Rio e São Paulo, sofrem com ondas de violência quase inacreditáveis. São fenômenos bem diferentes em suas características, mas iguais em seu absurdo.

É difícil decidir qual dos dois thrillers é mais perturbador e inacreditável, apesar de serem 100% verídicos. Se a rotina carioca de submissão às facções, que envolve, além de dezenas de sequestros de ônibus só este ano, episódios com armas de fogo, incêndios e ameaças explícitas é mais violenta e perigosa, no sentido de criar riscos imediatos de mortes e pânico na população, o mistério total que envolve as motivações por trás dos mais de 1.000 ataques surpresa, com pedradas em ônibus em pleno movimento, em qualquer região da metrópole paulista, sem nenhum aviso prévio ou objetivo identificável, torna viajar de ônibus uma atividade de alto estresse até esse fenômeno violento ser esclarecido e controlado.

As várias linhas de investigação em São Paulo

Nos 70 dias de apedrejamento de ônibus em São Paulo, até o fechamento desta edição, a polícia vem investigando a nova onda de violência por meio do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), da Polícia Civil, com apoio de unidades regionais e da Divisão de Crimes Cibernéticos, diz a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo. Já a Polícia Militar tem reforçado a presença em coletivos e a prefeitura da capital colocou 200 guardas-civis para circular em ônibus, nas linhas mais afetadas pelos ataques, assim como rondas também passaram a ser feitas nas garagens e nos percursos das linhas. Os principais caminhos de investigação são disputas entre empresas, o que é veementemente negado pelos empresários (veja o depoimento do presidente da Fetpesp na página abaixo), desafios de internet e a já descartada participação do crime organizado.

Se em pouco mais de um mês do começo dos atentados, a Prefeitura havia registrado 506 ataques a ônibus na cidade de São Paulo, o ritmo parece ter diminuído, para cerca de 120 casos no segundo mês na capital. Porém, os apedrejamentos conti­nuam, os prejuízos acumulados pelas empresas aumentam e o medo dos passageiros de viajar perto das janelas também.

A cidade maravilhosa sequestrada

Diferentemente de São Paulo, não existe dúvida quanto às motivações relacionadas a essa nova escalada de violência contra o transporte público no Rio de Janeiro, em que, segundo o Rio Ônibus, sindicato das empresas de ônibus da capital, 99 ônibus foram sequestrados e três incendiados, desde o início de 2025. A maioria dos casos é claramente de retaliações a operações policiais. Esta situação afeta diretamente a população carioca, pois cerca de 11 linhas têm seus itinerários alterados diariamente devido à violência. O caso mais recente ocorreu no dia 18 de agosto, durante uma operação da Polícia Militar no Morro do Dendê, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio. Criminosos incendiaram um ônibus da linha Ribeira-Bancários e sequestraram outros 12 veículos menores, que foram utilizados como barricadas para dificultar a ação policial. Além dos coletivos, caçambas de lixo também foram incendiadas.

“Tiraram todo mundo do ônibus e falaram que iam tacar fogo, que iam matar. Foi um filme de terror ali na hora. Mandaram atravessar o carro, pegaram a chave do meu ônibus e do 37″ O relato, apresentado no Jornal Nacional de 18 de agosto, é de um motorista que, por segurança, não quis se identificar.

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