Futuro incerto – Está muito difícil prever cenários e ter expectativas para 2022

06/12/2021 |

O ano de 2021 está acabando, mas não trouxe o impacto positivo que a indústria de carrocerias esperava, para superar a retração de 2020, fechada em 26,7% (totalizando mercados interno e externo). Os números refletem o quanto a pandemia tornou insustentável uma situação que já estava crítica dentro do sistema, e que atingiu, principalmente, a produção de ônibus do segmento urbano, onde a redução chegou a mais de 38%, ainda em outubro. Na avaliação de Ruben Antonio Bisi, presidente da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus no Brasil, o momento é de cautela, e não dá para prever cenários nem ter muitas expectativas para 2022. Tudo ainda é incerto e vai depender de vários fatores externos, como o avanço da vacinação, o êxito de políticas públicas sanitárias de prevenção do Covid-19, aumento da flexibilização, da retomada da economia, da oferta de emprego e das contrapartidas do governo para ajudar o setor.

Os dados não mentem. Enquanto, neste ano, a demanda de passageiros no segmento urbano caiu 80%, aumentando o desequilíbrio de caixa das operadoras em todo o território nacional, a indústria de carrocerias também contabiliza suas perdas, como relata Antonio Bisi, ao apresentar os índices da produção fechados em 2021. Para o presidente, este é o segmento que mais preocupa o setor, que não renova suas frotas há quase dois anos e onde grande parte das empresas não consegue bons financiamentos devido aos seus demonstrativos financeiros, nem contrapartidas por parte do governo, para se recuperar e equacionar essa conta.

“Esse desequilíbrio entre receita e demanda continua sendo o maior desafio no setor. Principalmente no segmento de ônibus urbano, que não se sustenta por muito mais tempo só com tarifa, se a economia não se recuperar ou se não houver um aporte do Estado. Ele sofreu uma evasão de 80% de passageiros, onde, já em outubro, registrava 37,3% de perda em comparação a 2020, que fechou com 40%. Além do que, as empresas do transporte urbano tiveram um prejuízo econômico muito grande, em torno de R$ 21,3 bilhões, e tem aquelas que ainda estão em recuperação judicial. Todo o sistema está praticamente falido, vivendo uma das maiores crises da sua história, e esse cenário se reflete na produção de ônibus no Brasil”, enfatiza.

“Esse desequilíbrio entre receita e demanda continua sendo o maior desafio no setor. Principalmente no segmento de ônibus urbano, que não se sustenta por muito mais tempo só com tarifa, se a economia não se recuperar ou se não houver um aporte do Estado”

Ruben Antonio Bisi, presidente da Fabus (Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus)

MERCADO INTERNO
“Se formos aos índices, para comparar as perdas que temos tido gradualmente, em 2020, a produção de ônibus nacional tinha caído 26,5 % com relação a 2019, sendo produzidas 13.592 unidades no total. Até outubro deste ano, nós já estávamos com 25,8% a menos que no ano passado, no mesmo período, e com uma produção de 10.085 apenas. Por segmento, no mercado interno, então, nós temos uma queda no urbano de 38,1% com relação a esse mesmo período, no ano passado, onde foram produzidas 5.725 unidades, e este ano só foram produzidas 3.544”, avalia. Ainda dentro dos índices passados pelo executivo, em 2020, no rodoviário, foram produzidas 1.796 unidades, e este ano foram apenas 1.421, gerando uma queda de 20,9%. E, no mercado de micro-ônibus, no ano passado foram produzidos 2.784, e, este ano, até outubro, foram produzidos 1.981.

FRETAMENTO
Segundo Bisi, o fretamento foi o único segmento que se destacou mais positivamente. No ano passado fechou sua produção com 889 unidades, e encerrará este ano com 1.116, gerando crescimento de 25,5%. “Mas acreditamos que, com o avanço da campanha de vacinação, mais a flexibilização nas restrições de isolamento, não haverá necessidade de as empresas manterem o deslocamento dos seus funcionários e, com isso, também não haverá demanda que justifique aumentar a produção da frota, que é basicamente voltada para o transporte entre empresas para a mobilidade segura desse perfil de público”, constata. Ele também ressalta que, mesmo que sejam flexibilizadas as restrições de isolamento e as aglomerações voltem a ser permitidas, os investimentos em dispositivos para manter os protocolos de segurança dentro dos ônibus continuarão sendo mantidos – entre eles, os tecidos antibacterianos dos assentos, dispositivos de higienização e eliminação de micróbios e bactérias por luz ultravioleta nos ares- -condicionados, um sistema semelhante nos sanitários, além de uma fumaça seca, chamada BioSafe, que forma uma névoa imunizante que mantém o interior dos carros descontaminados por três dias.

“Se formos fazer uma média no cômputo geral, o mercado interno sofreu uma queda de 25,8% na sua produção anual, mas os investimentos para manter a qualidade e segurança do serviço não pararam”, enfatiza Bisi. Já na questão do transporte intermunicipal, o dirigente acredita que as medidas de precaução adotadas sejam o suficiente, e que as empresas comecem a sinalizar uma melhora na demanda, com o aumento de passageiros, ainda que de forma gradual.

MERCADO EXPORTADOR
Com relação ao mercado exterior em 2021, de acordo com Antonio Bisi, se formos comparar com as exportações do ano passado, até o início deste último trimestre, havia sido registrada uma queda de 18%, totalizando 1.950 ônibus produzidos. Enquanto que, em 2020, no mesmo período, a produção externa chegou a 2.398 unidades. Para o executivo, esse resultado se deu porque todos os principais mercados vizinhos também foram afetados pela pandemia e ainda não se recuperaram. Ao avaliar esse contexto mercadológico, disse que o Brasil está se abrindo mais rapidamente porque vem avançando na vacinação, mas o cenário latino-americano ainda reflete muito de suas perdas: “O Chile começou a liberar suas fronteiras agora, a Argentina parou de comprar com a crise que se instalou lá, e o México também está com o índice de compras muito baixo”, pondera.

Ao mencionar os mercados importadores, disse que a Colômbia foi o único país que comprou regularmente; também citou a África, com algumas exportações pontuais, e a Guatemala. Mas é o crescimento da retração nos últimos dois anos o que mais preocupa o presidente: “A retração na produção de ônibus para o mercado externo vem aumentando desde o início da pandemia, este ano exportamos menos da metade do que se exportou em 2018, ano em que os números chegaram a 4.400 unidades produzidas. E, em 2019, foram 3.597. Nossa produção externa vinha se destacando antes do surgimento do Covid-19 e está vamos comemorando essa expansão. Mas esperamos que esses prejuízos possam ser mitigados com o aumento da vacinação e da flexibilização e, consequentemente, com o reaquecimento da economia nesses países também”, salienta.

“Todo o sistema está praticamente falido, vivendo uma das maiores crises da sua história, e esse cenário se reflete na produção de ônibus no Brasil”
Ruben Antonio Bisi, presidente da Fabus (Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus)

PROGRAMA CAMINHO DA ESCOLA
Entre as perspectivas para impulsionar a produção interna, o setor continua apostando nos programas com o governo, como o Caminho da Escola, onde serão entregues, até o final do ano, cerca de duas mil unidades, dos sete mil ônibus licitados em 2021. Contudo, vale lembrar que as empresas vencedoras ficam habilitadas a fornecer os veículos, mas é preciso que haja efetivamente futuras solicitações de compra por parte dos estados e municípios que forem aderindo ao programa. “Espera-se que esses números continuem crescendo, mas não estamos vendo uma fomentação por parte do governo para a compra de mais unidades. Inclusive, já deveria ter sido lançado um novo edital para suprir o primeiro semestre de 2022. Contudo, continuamos na expectativa de que ele saia até o final de dezembro”, ressalta.

O Programa Caminho da Escola foi criado no governo Lula, em 2007. E visa renovar, ampliar e padronizar a frota de veículos escolares, da rede pública de educação básica, para o uso em áreas rurais e ribeirinhas, no âmbito nacional, a fim de viabilizar o deslocamento do estudante e garantir a segurança e qualidade do transporte (seja ele ônibus, embarcação ou bicicleta), além de reduzir a evasão escolar. Diante dessa crise, o programa tem trazido um maior fôlego para a produção nacional de ônibus.

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