Ipea mostra que mobilidade contribui para a desigualdade no Brasil

15/06/2020 | Edição nº 109

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), realizado no ano passado, mostra que os meios de transporte interferem, diretamente, no acesso a oportunidades de empregos e serviços de saúde e educação, contribuindo para a desigualdade. O trabalho, realizado em parceria com o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), apresenta os primeiros resulta- dos do Projeto Acesso a Oportunidades e faz um retrato dessas desigualdades nas maiores cidades brasileiras no ano de 2019.

Nesta edição, o estudo inclui estimativas de acessibilidade por mo- dos de transporte ativo (a pé e de bicicleta) para as 20 maiores cidades do País, e por transporte público para se- te grandes cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Porto Alegre e Curitiba). Segundo o Ipea, o projeto combina dados de registros administrativos, de imagens de satélite e de mapeamento colaborativo, além de pesquisas amos- trais. Foram utilizadas informações do Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e dos Ministérios da Saúde, da Educação e da Economia.

Os resultados revelam que, em todas as cidades pesquisadas, a população branca e de alta renda tem mais acesso às oportunidades do que negros e pobres, independentemente do meio de transporte considera- do. Além disso, a concentração de atividades nas áreas urbanas, aliada à performance das redes de transporte, garante altos níveis de acessibilidade ao centro das cidades, enquanto nas regiões de periferia não se vê oportunidade alguma.

São Paulo e Rio de Janeiro

São Paulo foi considerada como a cidade mais desigual de todas, com indicador maior que nove, quando analisado o acesso a emprego em até 30 minutos de caminhada. Ou seja: o número de empregos acessíveis aos 10% mais ricos em São Paulo é mais do que nove vezes maior do que o número de empregos acessíveis aos 40% mais pobres. Já o Rio de Janeiro apresenta uma das menores desigualdades neste quesito, por conta da aglomeração da população de renda baixa próxima ao centro da cidade. Com relação à educação, com exceção de Brasília, em todas as cidades pesquisadas se gasta entre cinco e dez minutos de bicicleta para se chegar até a unidade de ensino médio mais próxima.

O estudo foi apresentado dia 16 de janeiro, em entrevista coletiva concedida pelo técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea e doutor em geografia, Rafael Pereira, e pelo gerente de Políticas Públicas do ITDP, Bernardo Serra, autores do estudo, juntamente com os pesquisadores Vanessa Gapriotti Nadalin e Carlos Kauê Vieira Braga. De acordo com Rafael, “os padrões de acessibilidade urbana afetam as condições econômicas e sociais das pessoas e têm impacto sobre o desempenho econômico e ambiental das cidades”.

Os dados das 20 cidades pesquisadas estão disponíveis em uma plataforma interativa, permitindo consulta por cidade, meio de transporte e atividade (trabalho, saúde ou educação). Nos próximos anos, o projeto buscará incluir mais cidades e áreas metropolitanas, considerar modo de transporte privado e calcular novas estimativas de acessibilidade, com mais indicadores e para outros tipos de oportunidades. “O objetivo é que o material seja um guia para o planejamento e avaliação de políticas públicas que promovam cidades sustentáveis e inclusivas”, explica Rafael Pereira.

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