Mobilidade Urbana: perspectivas, avanços e desafios na Baixada

24/02/2020 |

O artigo apresentado pelo TransÔnibus mostrou como os aspectos socioeconômicos impactam na mobilidade e na vida dos 3,7 milhões de habitantes dos 13 municípios da Baixada Fluminense (Duque de Caxias, Belford Roxo, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Magé, Mesquita, Nilópolis, Queimados, Itaguaí, Japeri, Seropédica, Guapimirim e Paracambi). A Baixada integra a Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), que é o segundo polo econômico do Brasil, com um PIB (Produto Interno Bruto) de R$ 405 bilhões, representando 64% do PIB estadual, e abriga 22% da população total do Estado. Entre os municípios mais populosos do Rio, três estão Baixada: Duque de Caxias, Belford Roxo e Nova Iguaçu.

Mas, ao analisar a relação entre a mobilidade e a estrutura espacial urbana da região, o estudo identificou aspectos que afetam a qualidade de vida das pessoas e reduzem as horas de convívio familiar e de lazer, perdidas em longos deslocamentos. A principal recomendação do artigo técnico apresentado na Arena ANTP é a adoção de uma gestão integrada de políticas públicas voltadas ao controle do uso e da ocupação do solo. Segundo Thadeu André, um dos responsáveis pelo trabalho, “melhorar a qualidade de vida da população tem relação com o desenvolvimento de modelos de cidades sustentáveis, conectadas, habitáveis e inteligentes, capazes de suprir as necessidades de seus habitantes e tornar seu cotidiano mais eficiente”. Significa prover os municípios de equipamentos como hospitais, universidades, terminais rodoviários, ampliando a possibilidade de comércio e serviços na região.

Distribuição desigual de empregos

O estudo mostra, por exemplo, que a distribuição desigual de empregos na Região Metropolitana afeta a vida das pessoas e desnivela ainda mais a concorrência pelas melhores oportunidades. “De acordo com dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), a capital concentra 30% das oportunidades formais de trabalho, enquanto sua população em idade ativa (PIA) representa apenas 2,5% do total. Já os municípios de Japeri, Belford Roxo, Magé, Mesquita e Paracambi apresentam os maiores déficits de empregos formais, onde o percentual não alcança 10% de suas populações em idade ativa. Nova Iguaçu possui 6,6% da PIA e apenas 3% dos postos de trabalho. Segundo o Censo 2010, mais de 2/3 da população de Mesquita, Belford Roxo e Japeri não trabalham nas cidades em que residem. E, diariamente, mais da metade dos moradores de Nilópolis, Queimados e São João de Meriti se deslocam até outros municípios para trabalhar. Nova Iguaçu possui 47% da população nesta condição”, diz o estudo.

A concentração de postos de trabalho na capital, de acordo com o autor, implica sobrecarga de demanda pendular e picos concentrados, gerando superutilização dos eixos nos picos e ociosidade no contrafluxo e nos entrepicos. “A viagem pendular de pessoas que residem em um município e trabalham em outro supera uma hora. Cerca de 40% da população da Baixada vivem esta realidade diária”, diz. Além disso, o tempo médio de viagem no transporte público aumenta de acordo com a renda da população. “Pessoas de renda mais baixa são as que mais utilizam o transporte público, mais tempo gastam em seus deslocamentos e as que menos podem ajustar seus horários”, afirma Thadeu. E é na Baixada onde está o maior percentual de pessoas em idade ativa (PIA) com renda mensal de até meio salário mínimo.

 

Políticas públicas integradas

O estudo indica que a oferta de transporte sempre se deu a partir da demanda e não para a organização do espaço urbano. E a construção de autoestradas urbanas, nas quais os transportes coletivos não têm prioridade, contribui para a expansão horizontal das cidades e a formação de periferias. “A proposta seria avançar na construção de uma rede integrada, multimodal, com ligações transversais se juntando às radiais e favorecendo a conexão de centros secundários entre si e com suas vizinhanças. Isso contribuiria para tornar os municípios mais autônomos, com características urbanas, oferecendo amplo comércio e serviços”, diz.

Para Thadeu, a gestão integrada de políticas públicas voltadas ao controle e ocupação do solo deve ser prioritária. “O planejamento urbano deve induzir compromissos e responsabilidades em diferentes esferas, com o objetivo de integrar políticas de uso e ocupação do solo com políticas de transporte, de habitação e de saneamento, redefinindo a logística urbana. Ou seja, articular de forma equânime a cadeia de atividades típicas do cidadão (trabalho, consumo e lazer) para reduzir a necessidade de transporte motorizado de longa distância”, defende. Ele explica que alguns municípios da Baixada, como Duque de Caxias e Nova Iguaçu, já tendem a representar esses novos papéis de centro urbano na região. “O plano estratégico para o próximo ciclo de investimentos no Estado deve considerar o expressivo potencial da Baixada Fluminense e quebrar o paradigma metropolitano de fomento às viagens destinadas à capital”, defende o especialista.

Foto: Divulgação / RioTerminais

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