Entre a motocicleta e o ônibus – Pesquisa Coppe/UFRJ busca razões da escolha pelo individual em vez do coletivo
Acidentes com motocicletas representam 40% do total de mortes no trânsito no país.
- Frota de motocicletas no Brasil chega a 29 milhões de veículos.
- Acidentes com motocicletas representam 40% do total de mortes no trânsito no país.
- Pesquisa da UFRJ aponta que 57,83% dos entrevistados usam motocicleta como passageiro por meio de aplicativos.

O número de motociclistas nas vias brasileiras cresce a olhos vistos. Aumento que provoca outro: o de conflitos, acidentes e mortes no trânsito. Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito, a frota de motocicletas no País já chega a 29 milhões (28.928.317, em maio do ano passado), sendo 1,3 milhão só no estado do Rio de Janeiro. As mortes em acidentes envolvendo motocicletas representam hoje cerca de 40% do total registrado em sinistros de trânsito no Brasil.
Buscar compreender os motivos que levam tantas pessoas a escolherem esse modo de transporte, verificar sua percepção dos riscos associados a essa opção e investigar até que ponto os fatores custo e tempo de deslocamento a influenciam foram os principais objetivos de pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio do Programa de Engenharia de Transportes do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe). A pesquisa se concentrou na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) e pode servir de importante subsídio para elaboração de políticas públicas de mobilidade e segurança no trânsito. Foram elencados, para realização das entrevistas os municípios: Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Japeri, Magé, Maricá, Mesquita, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Petrópolis, Rio de Janeiro, São Gonçalo e São João de Meriti. O critério foi a importância estratégica e o tamanho das frotas de ciclomotores, motocicletas, motonetas e triciclos.
Custos nacionais são altos
Embora a pesquisa da UFRJ se limite à RMRJ, o cenário é semelhante nos centros urbanos de todo o País. No ano de 2024, as internações causadas por acidentes de trânsito custaram ao SUS quase R$ 500 milhões, dos quais 60% com sinistros envolvendo motos, que representam 30% da frota de veículos motorizados. Segundo o Datasus, 33.893 pessoas morrem anualmente no Brasil em consequência de acidentes de trânsito – 93 por dia. Dados publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que, entre os anos de 2007 e 2018, esses sinistros custaram nada menos que R$ 1,5 trilhão, o que configura um grave problema de saúde pública.
Um dos motivos que provocou a expansão do número de motociclistas em nossas vias foi o aumento dos serviços de entrega por aplicativo, principalmente durante a pandemia de Covid-19. Passado o isolamento, o hábito permaneceu, inclusive no transporte de passageiros. As exigências de rapidez, o número de jornadas e as precárias relações trabalhistas oferecidas por algumas empresas, porém, levam a um descuido com as questões de segurança, resultando no crescimento dos índices de acidentes. Outro fator foi a insatisfação com o tempo de viagem nos centros urbanos, devido aos constantes congestionamentos. Há uma relação entre o tempo de deslocamento e o custo das viagens. As pessoas buscam modos de transporte mais rápidos e baratos.
Em análise recente, a Vital Strategies, no âmbito da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global, alerta para o fato de que o crescimento explosivo do número de motocicletas, inclusive no transporte remunerado de passageiros, além de ser responsável pelo expressivo aumento do número de acidentes no trânsito, vem prejudicando a utilização do transporte público de passageiros.
O “Estudo sobre motivações e racionalidades na escolha pela motocicleta como meio de transporte individual na RMRJ”, da UFRJ/Coppe, foi concluído em dezembro de 2025 e se constituiu em: pesquisa de campo; revisão bibliográfica; grupo de diálogo e escuta; e mesa redonda. Foram feitas 2.616 entrevistas, entre presenciais (95,95%) e on-line (4,05%).
A maioria dos entrevistados (57,83%) afirmou usar a motocicleta na condição de passageiro, através de serviço contratado por aplicativo, enquanto 12,31% utilizam o serviço de mototaxistas. A diferença entre os dois é que, no primeiro, a corrida é solicitada pelo celular, o passageiro já sabe de antemão quanto vai pagar, pode fazê-lo pela própria plataforma e tem acesso ao registro do condutor, e no segundo, a contratação pode ser feita em ponto físico ou por meio de uma central, os valores seguem uma tabela ou podem ser combinados, com pagamento direto ao mototaxista. Declararam andar na própria moto 27,06%. Apenas 2,64% afirmaram não utilizar o modal.

Internações no SUS: vítimas de acidentes de moto em relação às vítimas de acidentes de trânsito no total
Perfil dos entrevistados
Considerando-se apenas os pesquisados que utilizam motocicletas, em veículo próprio ou como passageiros (96,75% da amostra), identificou-se que 52,19 % são do sexo masculino, 43,94% pertencem ao sexo feminino e 3,87% não quiseram se identificar; 52% têm renda familiar de até um salário-mínimo e apenas 1% recebe mais de cinco salários-mínimos. A maioria está na faixa entre 18 e 44 anos (91,38%), sendo que 45,59% estão entre os 25 e os 34 anos, fase de atividade laboral, em que o tempo é importante para o cumprimento de compromissos e, portanto, influencia na escolha do modo de transporte. Quanto à escolaridade, cerca de 51% dos pesquisados têm nível médio completo. Pessoas com nível superior, completo ou não, chegam a 12,34%. O percentual dos economicamente ativos soma 90,36%, sendo que 49,78% trabalham formalmente e 40,58% como autônomos, reforçando a importância da economia de tempo nos deslocamentos, em especial porque sua principal motivação é o trabalho (60,21%), e o maior percentual – 35,44% – é de quem utiliza esse transporte entre 5 e 6 vezes na semana, chegando a 65,39% quando somado a quem utiliza diariamente e de 3 a 4 vezes por semana.
Na revisão bibliográfica, foram selecionados 20 artigos, com análises feitas em diferentes países, cujas conclusões demonstravam que itens como infraestrutura viária, questões sociodemográficas, fatores emocionais e escolha do modo de transporte têm influência na incidência de acidentes, sendo a utilização de motocicletas sempre relacionada ao aumento do número de sinistros de trânsito.

Impacto na saúde
Das ocorrências de trânsito atendidas pelo Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro na capital, em 2024, 77% envolviam motocicletas – três em cada quatro vítimas. O impacto na área de saúde é significativo. Dados da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro registram 80 vítimas de acidentes com motocicletas socorridas por dia nos hospitais, o que gera a necessidade de ampliação da capacidade de atendimento na área de trauma. Em termos nacionais, segundo a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), com base em dados do Ministério da Saúde, só de janeiro a novembro de 2024, o custo, para o Sistema Único de Saúde (SUS), de internações de motociclistas acidentados foi de R$ 233,3 milhões. Durante o ano todo, houve 148.797 internações – mais de um terço delas de jovens entre 20 e 29 anos.
Sensação de insegurança é ignorada
Embora uma parcela significativa dos respondentes (57,21%), ao ser perguntada sobre sentir segurança numa motocicleta, responder “nunca” (4,86%), “raramente” (26,35%), ou “ocasionalmente” (23,03%) e de 47% afirmarem já ter sofrido acidente utilizando esse veículo, a maioria (59,74%) parece ignorar os riscos e continua utilizando esse modo por ser mais rápido; 25,45% mantêm o uso sem qualquer alteração no comportamento, 10,16% dizem mantê-lo por ser mais barato, e 2,22% afirmam não dispor de outra opção de deslocamento. Só 2,43% relataram ter passado a evitar andar de moto após sofrer acidente ou saber de alguém conhecido que se evolveu em um.
As respostas mostram diferentes temores ante o enfrentamento do trânsito nesses veículos: medo de cair e ser atropelado, 23,18%; de colisão com outros veículos, 17,92%; de ser vítima de roubo ou furto, 15,76%; do comportamento de outros condutores, 14,22%; das más condições das vias, 13,14%; da exposição a más condições climáticas, 11,89%; e preocupação com a falta ou inadequação de equipamentos de segurança, 3,77%. Melhor administração do tempo, sensação de independência e conforto são algumas das vantagens apontadas pelos motociclistas. Veja nos gráficos abaixo os motivos que levariam os usuários de motos a mudarem para o transporte por ônibus:
Razões que poderiam levar à troca da moto pelo ônibus relacionadas ao custo
Razões que poderiam levar à troca da moto pelo ônibus relacionadas ao tempo

O grupo de diálogo e escuta usou método de pesquisa qualitativa e ouviu indivíduos que utilizam moto, seja como condutor ou passageiro, respeitando equilíbrio em questões como sexo, raça e áreas de moradia. A maioria (66,6%) está na faixa entre 25 e 44 anos. A consciência dos riscos convive com a continuidade do uso do veículo. Ao elegerem palavras para descrever a sensação despertada pelo uso da moto, aparecem, ao lado de “liberdade”, “independência”, “agilidade”, “medo”, “risco” e “tensão”, mostrando a dualidade de impressões. Estimulados a falarem sobre situações de sinistro ou riscos iminentes, vários participantes descreveram situações vividas e todos percebem o trânsito como ambiente hostil e perigoso. Diante de imagens sugestivas de acidentes com motos, foram despertados sentimentos de empatia. Mas vários participantes não consideram abandonar o uso das motos, apesar de reconhecerem os riscos inerentes. Comportamentos de risco foram atribuídos mais a causas como falta de educação no trânsito, pressa etc. do que ao modo de transporte em si.
Sobre a possibilidade de mudança para o transporte público, a maioria demonstrou falta de confiança no sistema, com observações sobre problemas como baixa frequência, longos tempos de espera e falta de segurança pública nos pontos. A discussão mostrou que a precariedade da infraestrutura influi na escolha por um modo de transporte. Mesmo avaliando a hipótese de instalação de faixas exclusivas/preferenciais e corredores para ônibus que permitam a diminuição do tempo de viagem, alguns dizem ainda preferir a moto, por ser mais ágil e prática. Outros fizeram menção a situações internacionais, em que o transporte público é muito eficiente e o uso de motocicletas é residual, o que mostra que isso é possível. Foram sugeridas medidas como políticas integradas que assegurem disponibilidade de linhas, horários regulares, possibilidades de integração, conforto e segurança.
No dia 5 de dezembro, durante o 22o Congresso Rio de Transportes, foram apresentados resultados da pesquisa de campo, em mesa redonda que reuniu acadêmicos e especialistas em mobilidade urbana e transporte. Na primeira rodada, o crescimento do uso da motocicleta foi associado à insuficiência de investimentos em transporte público e às mudanças de hábito decorrentes da pandemia. Os participantes consideraram que a manutenção desse panorama pode aumentar desigualdades e expor a população a riscos cada vez maiores, sinalizando para a necessidade de um replanejamento das políticas de mobilidade urbana da RMRJ. Na segunda rodada, foram abordadas dificuldades de regulação do transporte intermunicipal, face à necessidade de integração operacional entre os municípios e as ações que buscam tornar o transporte coletivo mais competitivo. Foi reforçada a necessidade de ações estruturais, operacionais e institucionais que levem os usuários a uma mudança modal e, na terceira e última rodada, enfatizou-se a necessidade de priorização do transporte coletivo, conforme determina a Política Nacional de Mobilidade Urbana.
Devido à importância da pesquisa para a formulação de políticas públicas de mobilidade urbana, a reportagem ouviu o coordenador do estudo, professor Glaydston Ribeiro, sobre a possibilidade de apresentação ao poder público. Segundo ele, isso pode ser feito “por meio de um relatório objetivo, que ressalte as principais descobertas e recomendações para a gestão pública”. Glaydston considerou essencial “a realização de um workshop com os mesmos gestores, visando fomentar discussão colaborativa sobre as motivações que levam à escolha pela motocicleta, bem como explorar soluções eficazes para aprimorar a competitividade do transporte público, aumentar a segurança viária e promover a integração de diferentes modos de transporte”. Para o professor, a disposição de preferir a moto, mesmo com o aumento do número de acidentes, é “um reflexo claro da falta de competitividade do transporte público frente à flexibilidade e à eficiência do modo individual”. Ele acredita que “o impacto real desses resultados será visível no aumento da eficiência do transporte público e na melhoria da qualidade de vida da população, que passará a ter mais opções seguras e eficientes para se deslocar na cidade”. A diretora de Mobilidade Urbana da Semove, Richele Cabral, falou sobre a importância do estudo da UFRJ: “A pesquisa é sempre um método confiável para entendermos o porquê de certos comportamentos e nos debruçarmos sobre determinadas situações, na tentativa de modificá-las para melhor. Entender os reais motivos da opção pela motocicleta, a percepção dos riscos que esse modo de transporte acarreta, como as pessoas lidam com isso, e como se pode agir para atraí-las para o transporte coletivo é de grande importância para diminuir o número de acidentes de trânsito, desafogar o sistema de saúde, diminuir as emissões de poluentes, entre outras vantagens”.
