Rodrigo Vieira, ex-secretário de Transportes do RJ: Transparência ativa nos Transportes

06/01/2020 | Edição nº 108

É exigida dos órgãos do Poder Público a máxima transparência nos seus atos, e tal premissa é estendida aos prestadores de serviços públicos concedidos e permissionados, em especial o transporte coletivo. A questão torna-se ainda mais importante quando, nesses contratos, são adotados modelos de cofinanciamento, seja pela criação de subsídios públicos, seja pelo investimento público na infraestrutura a ser concessionada.

Foto: Arquimedes Celestino

Entretanto, de forma diversa dos órgãos públicos, as empresas possuem suas estratégias de competição no mercado, em busca de maior participação e, principalmente, da preferência na escolha diária de modo de transporte de seus usuários, fazendo com que historicamente a informação fosse encarada como parte do segredo de seus negócios. Hoje isso acabou.

Inseridos em uma era digital e com a criação da Lei de Acesso à Informação, não há mais limites de acesso aos dados transacionais, e a suposta vantagem competitiva de outrora não se sustenta.

Entretanto, há uma imensa diferença entre possuir acesso aos dados e ter capacidade de extrair informação relevante. Na era do excesso de dados, o segredo do sucesso passa a ser a capacidade de se “fazer as perguntas certas”, para que as respostas sirvam de insumo para a execução e correção de estratégias de negócio, visando melhor atender aos milhões de clientes diários e prestar contas ao Poder Público, verdadeiro responsável do serviço concedido ou permissionado.

Pensando assim, não basta prover acesso aos dados, é necessário que as empresas desenvolvam um canal de distribuição das informações em uma plataforma de transparência pública ativa, com as funções de educar a sociedade, desmistificar preconceitos, e jogar luz sobre os verdadeiros fatores que influenciam na prestação do serviço ao público.

Desta forma, para serem absolutamente efetivas e exitosas no critério da transparência, cabe às empresas entenderem quais são os questionamentos da sociedade em todos os seus níveis, para que possam oferecer as respostas mais adequadas, ampliando a compreensão dos desafios do setor. E, ao mesmo tempo, a partir de produção e distribuição de análises consistentes, promoverem o debate que naturalmente irá auxiliar na formulação de novos conceitos e na criação de novas hipóteses, que deverão ser testadas e implementadas pelo mercado para a melhoria da oferta e consequente percepção a respeito da prestação de serviços. O processo é cíclico e expansivo, quanto mais exercitado, maiores serão os benefícios percebidos pela sociedade.

No segmento de transporte de passageiros do Rio de Janeiro, existe um case bastante interessante a respeito da diferença entre “obter o acesso aos dados” versus a “capacidade de analisar seu conteúdo” e, a partir deste conhecimento, direcionar ações de planejamento e gestão. Atualmente o Governo do Estado, através da Secretaria de Transportes e do Proderj, possui armazenada a totalidade da informação sobre as transações eletrônicas de transporte realizadas desde o ano de 2016. São mais de 3 bilhões de transações de bilhetagem eletrônica de ônibus, trens, metrô, barcas e vans intermunicipais disponíveis, em todas as suas características, criando o maior banco de dados de transações de transporte do País. Entretanto, nenhuma informação foi extraída destes dados para auxiliar na fiscalização, no planejamento ou na gestão do transporte público de passageiros do Estado. Esta é uma situação sem ganhadores, pois perde a sociedade, que não se beneficia de uma maior inteligência de transportes, perde o governo, que não consegue atuar efetivamente para melhorar o ambiente social e de negócios e perdem as empresas, que não podem contar com uma efetiva análise do poder concedente para orientarem a melhoria de sua concessão.

Entretanto, esta situação perde-perde ainda tem efeitos mais nefastos sobre o setor, pois, como se não bastasse, esta incapacidade de gerar e comunicar informações serve para ampliar o estigma de falta de transparência de um segmento que passou por uma profunda reformulação e que, atualmente, disponibiliza 100% da informação a respeito de sua prestação de serviço público de transporte ao poder concedente, com a defasagem de apenas um dia.

Para mudar esta situação, mais uma vez caberá ao segmento de transportes sobre rodas tomar a frente deste processo. Da mesma forma que propôs, promoveu, implantou e opera o mais abrangente sistema de bilhetagem eletrônica interoperável do País, está preparando um moderno ambiente online e aberto para distribuição de informações sobre a prestação de serviços de transportes do Estado, com a robustez de informação da maior base disponível no País e a credibilidade de fontes auditáveis, adotando a linguagem adequada para que um amplo debate seja realizado pela sociedade. Nesta jornada, existe a certeza de que, a partir do conhecimento difundido e do alinhamento de expectativas, será possível discutir os desafios do setor e encontrar as melhores soluções para melhorar a prestação de serviços à sociedade e, simultaneamente, realizar a prestação de contas ao poder concedente e aos órgãos de controle. A mudança já começou.

 

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