Ser rodoviário é ser essencial

19/08/2020 |

O que significa “essencial”? Segundo o dicionário, é o indispensável, o necessário, o primordial, algo ou alguém de fundamental importância, que não pode faltar, imprescindível, vital. Em uma das frases mais reproduzidas no mundo, de um dos livros mais famosos e mais lidos em todos os tempos, a palavra está lá: “O essencial é invisível aos olhos”, disse a Raposa ao se despedir do Príncipe, na obra do escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”. No poema “O amor é que é essencial”, de Fernando Pessoa, publicado em 1935, a mesma palavra se faz imponente no título, mostrando sua grandeza.

Esta palavra poderosa, usada pela Raposa para dar ao Pequeno Príncipe a dimensão do que é realmente importante, e por Fernando Pessoa, para falar do maior dos sentimentos, tomou conta dos noticiários nos últimos meses, para se referir aos trabalhadores cujas atividades não poderiam parar durante a pandemia do novo coronavírus. Trabalhadores essenciais, serviços essenciais, profissionais essenciais, atividades essenciais. Estas foram algumas das expressões usadas pela mídia ao falar dos médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde, bem como dos funcionários de supermercado e farmácia, entregadores, agricultores, distribuidores de alimentos e medicamentos, profissionais de segurança, de limpeza e do transporte.

 

Está na Constituição
O serviço de transporte público, na verdade, já era classificado como essencial pela Constituição Federal. Sua importância e a de sua classe de trabalhadores, porém, parece nunca terem sido de fato reconhecidas pela sociedade. Pelo menos até agora. A pandemia da Covid-19 não serviu apenas para evidenciar a fragilidade do mundo e do ser humano diante de um vírus ainda pouco conhecido, mas para marcar uma mudança de perspectiva sobre alguns valores e tipos de trabalhos, antes pouco respeitados. Sob essa ótica, os profissionais do transporte coletivo por ônibus subiram vários degraus em seu papel social. Ganharam reconhecimento. Ninguém mais tem dúvida de que eles são essenciais. Cabe a eles garantir que muitos outros trabalhadores consigam chegar a seus destinos; cabe a eles manter a roda girando, no sentido literal e figurado.

“O motorista do transporte público não era tão notado no nosso dia a dia. Mas, com a pandemia, ficou evidente o quanto esse trabalho é essencial. Eu precisei dos motoristas de ônibus para ir trabalhar, para que me levassem com certa segurança, pois eles cobravam o uso da máscara de quem embarcava sem a proteção”, defende a administradora Vanessa Cristine da Silva. A representante de vendas Cláudia Rodrigues da Rocha também acha que o trabalho dos rodoviários é fundamental e necessário, apesar do risco a que estão expostos. “Acredito que os mais velhos devem ser resguardados. Sempre tive respeito pela atividade desses profissionais, tanto dos motoristas como dos cobradores”, disse. Marcondes Luiz Pereira, auxiliar de serviços gerais, é ainda mais enfático. “Eles não poderiam deixar de trabalhar de jeito nenhum. Precisamos mais deles do que eles de nós. Principalmente, os agentes de saúde”.

 

“O motorista do transporte público não era tão notado no nosso dia a dia. Mas, com a pandemia, ficou evidente o quanto esse trabalho é essencial”
Vanessa Cristine da Silva – Usuária de ônibus

 

A Revista Ônibus conversou com onze desses profissionais de empresas de ônibus do estado do Rio de Janeiro (oito motoristas, dois supervisores e um mecânico) para saber como têm sido suas rotinas de trabalho em tempos de Covid-19, os medos que os afligem se contrapondo ao orgulho por se sentirem necessários, a relação com os passageiros e a família, e suas visões de mundo pós-pandemia.

 

O novo dia a dia, o medo e a preocupação com a família
A rotina de todos os entrevistados é praticamente a mesma desde o início da pandemia, quando o assunto é higiene e limpeza. Agora, além do uniforme e crachá, eles só saem para trabalhar levando também: máscara, um vidro de álcool em gel ou um recipiente com álcool líquido (ou os dois) e luvas. Antes de começar a jornada, no caso dos motoristas, mesmo estando seguros de que a empresa fez a higienização dos ônibus, alguns ainda dão um toque final usando seu próprio produto para limpar cada pedacinho do espaço no qual passarão boa parte do dia, dirigindo.

“No terminal tem uma funcionária da empresa higienizando tudo, a cada viagem. Mas, mesmo ela limpando, eu vou lá e limpo de novo. É a primeira coisa que eu faço”, conta Maria dos Anjos Freitas1, 50 anos, motorista da Expresso São Francisco, empresa sediada em Nilópolis, na Baixada Fluminense. Ela também oferece o álcool em gel para os passageiros ao embarcarem. “Eles gostam e agradecem”, afirma. O medo do contágio a acompanha durante todo o expediente. “Sempre fico apreensiva com quem está entrando no ônibus, imaginando se a pessoa está contaminada. É complicado, porque o vírus está aí e contamina fácil. Eu já perdi amigos para esta doença e até colegas de profissão, de uma empresa do Rio, onde trabalhei”, lamenta.

Para Erilberto Arruda Batista2, 41 anos, motorista da Viação Ponte Coberta, de Mesquita, também na Baixada Fluminense, o mais difícil tem sido manter o distanciamento. “A turma é muito apegada, muito unida. A gente teve que se adaptar para evitar o contato físico. Foi uma mudança radical”, revela. Segundo o motorista, a apreensão é grande quando sai de casa. “Eu me preocupo com minha família. A gente fica com medo, e às vezes até entra em pânico, porque sabe que o vírus mata. Mas, precisa trabalhar para manter os compromissos. Não podemos deixar de ir à luta”. Uma das preocupações de Erilberto é com a sogra, de 75 anos, que mora com ele. “A gente a ama e quer que fique ainda muito tempo do nosso lado”.

O motorista de fretamento e turismo da Bel-Tour, que transporta funcionários da indústria naval, Marco Aurélio Vargas Garcia3, 63 anos, confessa que, apesar dos cuidados adotados, não se sente seguro. “Quem não fica apreensivo? A gente trabalha transportando pessoas. Mesmo com todo o aparato, os ônibus sendo higienizados e a empresa colocando um ônibus a mais para que cada um leve, no máximo, 23 pessoas para conseguir manter o distanciamento, a gente fica com receio”, afirma. Na opinião de Garcia, parte da população tem sido muito negligente e falta conscientização. Ele defende a importância da prevenção. “O fim da pandemia depende de cada um de nós. Todo mundo tem que cumprir as recomendações. É questão de saúde”.

Atuando nos bastidores, orientando a equipe da operação e também os clientes, o supervisor da Viação Galo Branco, de São Gonçalo, Gilberto Santos da Rocha4, 56 anos, conta que o dia a dia tem sido bastante trabalhoso, mas que o cuidado dedicado aos funcionários tem valido a pena. “As pessoas não tinham noção do perigo que era. Nós temos trabalhado muito na orientação do pessoal, sempre conversando sobre a importância do uso da máscara e como lidar com o passageiro. Nossos ônibus já saem da garagem higienizados e temos funcionários nos terminais que também fazem esse serviço. Instalamos uma máquina para que os clientes, antes de entrar no ônibus, possam higienizar as mãos”.

 

“Fica tudo preparado no portão: já tem um local pra eu deixar a roupa e a máscara de molho e evitar contaminação, porque sei que tenho grande possibilidade de levar o vírus pra dentro de casa, por lidar com várias pessoas durante todo o dia”
Natanael Marcelino – Viação Cidade do Aço

 

Regiane Alves de Oliveira5, 33 anos, supervisora comercial e operacional da JH de Paula Transporte e Turismo, lembra as dificuldades nos primeiros dias da pandemia. “A rotina da mudança foi árdua. Nossa vida, no começo, era correr atrás de álcool em gel, que estava em falta, pra garantir a proteção dos funcionários e dos clientes. Nós não podíamos parar o serviço, porque tendemos empresas de energia e mineração, que também não tinham como parar. Meu papel, no início, foi o de organizar os EPIs e orientar sobre seu uso. A máscara ainda não era obrigatória, mas, mesmo assim, disponibilizamos para os motoristas e fizemos luvas também. Colocamos adesivos nos ônibus e preparamos toda a equipe. Fizemos um trabalho de conscientização para a prevenção”.

Na volta para casa, mais um ritual de prevenção, acompanhado pelo medo de levar o vírus para algum membro da família. “Fica tudo preparado no portão: já tem um local pra eu deixar a roupa e a máscara de molho e evitar contaminação, porque sei que tenho grande possibilidade de levar o vírus pra dentro de casa, por lidar com várias pessoas durante todo o dia”, afirma Natanael Marcelino6, 48 anos, motorista e instrutor da Viação Cidade do Aço, empresa sediada em Barra Mansa, no Sul Fluminense. “A gente lida com profissionais da área de saúde, de transporte, do comércio, todos os tipos de trabalhadores. E não tem como saber quem está infectado”. Ele entende o perigo da pandemia. “Tem uma quantidade enorme de pessoas perdendo a vida para esse vírus. E, pelos relatos, quem pega sofre muito. Por isso, causa medo. Mas, a gente tem tentado ser preventivo. Diante desse desafio, não podemos recuar. Temos que partir pra cima, pra vencer”.

Marcos Vinício Almeida de Araújo7, 46 anos, motorista da Rio Ita, de São Gonçalo, também cumpre todos os procedimentos recomendados. “Trabalho de manhã com uma roupa e à tarde, com outra. Minha mulher não me deixa entrar em casa com o uniforme, de jeito nenhum. Vou direto pra garagem, e ali mesmo me troco”, conta o profissional, que tem atuado em dois turnos, atendendo à equipe de um hospital em Niterói. “De manhã, levo a turma que vai trabalhar e trago o pessoal da noite, que terminou o plantão. À noite, é o contrário”, diz. Marcos sempre pede proteção a Deus quando inicia seu dia, principalmente pelo fato de transportar profissionais da área da saúde. “Eu transporto enfermeiros e, apesar de não ter contato físico, fico preocupado. As pessoas à minha volta também ficam. Parece que estão com medo de mim, porque sabem que trabalho para um hospital”.

 

“Por um lado, a gente sente satisfação, por estar trabalhando e podendo oferecer alguma coisa pra nossa família. Por outro, tem muita responsabilidade e medo, porque transportamos vidas. É tudo misturado”
Ubiratan Jorge de Lima Costa – Viação Reginas

 

Para Ubiratan Jorge de Lima Costa8, 48 anos, motorista da Auto Viação Reginas, empresa de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a profissão tem rendido vários sentimentos diferentes nos últimos meses. “Por um lado, a gente sente satisfação, por estar trabalhando e podendo oferecer alguma coisa pra nossa família. Por outro, tem muita responsabilidade e medo, porque transportamos vidas. É tudo misturado”, diz. Uma de suas principais preocupações é com o manuseio do dinheiro. “Ao terminar cada viagem, no ponto final, vou ao banheiro, lavo as mãos, higienizo, passo álcool em gel. Mas, no momento em que pego a primeira nota, a higienização já não vale mais. Quando chego em casa, só me aproximo da minha esposa e do meu filho depois de tomar um banho reforçado. Até porque minha esposa tem diabetes, é do grupo de risco”, explica.

Marcos Antônio Silveira Silvino9, 46 anos, motorista da Auto Viação Salineira, de Cabo Frio, na Região dos Lagos, trabalha como plantonista. Sua rotina segue na mesma batida da dos demais colegas, tanto quando inicia a jornada de trabalho, como no final, ao retornar para casa. No começo, a doença parecia algo ainda distante para ele. “A gente ouvia muito falar da situação no Rio, via os casos aumentando, e só depois o problema foi se aproximando daqui”, lembra. Silveira fala da preocupação com a família e principalmente com a esposa, hipertensa, e as netas pequenas, que moram com ele. “Quando chego em casa, elas correm para querer abraçar. Tem que ter cuidado e atenção o tempo todo”.

Para Paulo Victor Pinheiro10, 34 anos, motorista da Viação Nossa Senhora de Lourdes, da cidade do Rio de Janeiro, o medo é consequência da exposição e do manuseio de dinheiro que o trabalho exige. “O mais perigoso é lidar com as pessoas e lidar com o dinheiro. São situações que tornam a gente mais vulnerável”, diz. “Mesmo assim, agradeço a Deus porque estou trabalhando, enquanto vejo tanta gente desempregada. Mesmo estando muito expostos, pelo menos estamos trabalhando e podendo sustentar nossa família”, completa. Pinheiro não vacila quanto aos cuidados com a higienização. “Quando deixo o ônibus na garagem, vou ao banheiro, lavo as mãos e antebraço pelo menos duas vezes e passo o álcool em gel. Quando chego em casa, deixo o sapato na porta e vou direto tomar banho, enquanto minha esposa vem com o álcool pra limpar celular, sapato, maçaneta, chave de carro, tudo”.

 

“Outro dia estava no meio do caminho para o trabalho e tive que voltar, porque tinha esquecido a máscara. Ainda estamos nos acostumando com todo o processo de nos protegermos, tanto no trabalho como em casa”
Luciano Castro – Cidade das Hortênsias

 

O mecânico Luciano Castro11, 49 anos, está há 25 na Cidade das Hortênsias, empresa sediada em Petrópolis, na Região Serrana. Para ele, que tem trabalhado durante todo o período da pandemia, a rotina ficou preocupante. “A gente mexe com ônibus, que vai pra rua e volta pra garagem o tempo todo. E a gente não sabe quem está transportando, se a pessoa que viajou estava contaminada. Além da nossa preocupação normal com máscara, álcool em gel a toda hora, ainda tem isso”, afirma. O dia a dia é praticamente o mesmo dos demais trabalhadores. “A gente tem que tomar cuidados que antes não precisava. Outro dia, estava no meio do caminho para o trabalho e tive que voltar, porque tinha esquecido a máscara. Ainda estamos nos acostumando com todo o processo de nos protegermos, tanto no trabalho como em casa, tanto quando sai de casa. como quando chega”.

 

Clientes, reconhecimento, realização e o novo mundo
O grande segredo para se sentir realizado no trabalho é gostar do que faz. Disso ninguém discorda. Mas, quando esse trabalho se transforma em risco para o profissional e sua família, o “gostar do que faz” ganha um peso ainda maior. E o reconhecimento por parte dos clientes e da sociedade em geral passa a ser uma motivação para enfrentar os desafios. Os entrevistados da Revista Ônibus dizem sentir muito orgulho de seu papel social e têm consciência da importância do seu trabalho, principalmente neste período difícil pelo qual o Brasil e o mundo estão passando.

“A gente recebe vários elogios dos passageiros; eles dizem que a gente é muito guerreiro”, conta Maria dos Anjos. E reproduz uma das falas que já ouviu: “que Deus abençoe e guarde sua vida, porque você está fazendo um trabalho arriscado”. Para a motorista, o que move seu dia a dia, principalmente neste momento de incertezas, pode ser resumido em uma frase: “tenho muito amor pelo que faço”. Maria acredita que o mundo será transformado após a pandemia. “Estou confiante de que as coisas vão melhorar. Basta terem consciência de que precisam se cuidar, preservar a família e amigos. Para quem está realmente vendo o sofrimento dos outros, com perda de parentes e amigos, vai haver mudança. Não é possível que, com um vírus desse, devastador, não se aprenda nada. Acredito que a maioria verá o mundo de outra forma”.

 

“A gente recebe vários elogios dos passageiros; eles dizem que a gente é muito guerreiro”
Maria dos Anjos Freitas – Expresso São Francisco

 

De acordo com Erilberto, o carinho já era algo evidente entre ele e os passageiros e, agora, tende a aumentar. “Os idosos são os que mais demonstram. Eles falam que mesmo com tudo isso, a gente está trabalhando e tendo cuidado com todos”. O reconhecimento dos clientes o deixa realizado. “Quando você presta um serviço e vê que as pessoas reconhecem que você fez aquilo com amor e qualidade, você fica feliz”. E acrescenta: “eu gosto de ser motorista, amo fazer isso. Mas, nesse momento, por causa da pandemia, realmente tem sido um sacrifício, não vou negar”. Sobre o pós-pandemia, Erilberto acredita que hábitos de higiene, limpeza e distanciamento serão mantidos. Ele também acha que “as pessoas passarão a valorizar mais a vida, os parceiros, a oportunidade de fazer o que se gosta, irão investir mais nelas mesmas, porque perceberam que tudo passa muito rápido. Desde que me entendo por gente, nunca vi nada assim. Este ano nos ensinará que a vida pode passar e mudar tudo, de uma hora pra outra”.

 

“Fiquei orgulhosa da nossa equipe. A gente conseguiu agir de maneira rápida, todo mundo se envolveu, os próprios motoristas ajudaram muito. Mostramos a importância do trabalho em equipe e da união”
Regiane Alves de Oliveira – JH de Paula Transporte e Turismo

 

No serviço de fretamento, Marco Aurélio diz lidar com pessoas muito conscientes, que obedecem a todas as normas de segurança. E acredita que tudo isso, pelo que a humanidade está passando, vai se transformar num grande aprendizado. “Infelizmente, ainda tem muita gente, até esclarecida, que não entendeu o que está acontecendo. É questão de educação. Mas, acho que vai melhorar em todos os sentidos e as pessoas irão ter mais consciência. Eu espero que melhore. Afinal, o planeta está dando tanta dica, nos dizendo que está respirando com dificuldade”.

O supervisor Gilberto também desfruta da opinião de que o esforço do setor de transporte tem sido reconhecido pelos passageiros. “Frequento muito o terminal e vejo os clientes falando que a empresa se preocupou em colocar álcool em gel para eles, por exemplo”. E acrescenta: “a gente lida com todo tipo de cliente, do adolescente ao idoso; e eles sabem que a gente se preocupa. Principalmente aqueles que nós já conhecemos, por serem passageiros diários”. Sobre a crise, Gilberto acredita que ficarão como aprendizado a humildade e a empatia. “Vai ter mais amor ao próximo, mais aproximação. Porque esse vírus não escolheu entre ricos, pobres, pretos ou brancos, ele veio para arrebentar mesmo”. E faz um alerta: “ainda não acabou. Mesmo com os cuidados, não se pode relaxar, para não ter a segunda onda, como em outros países”.

Para Regiane Alves, na relação entre passageiros e empresas de ônibus, o saldo pós-pandemia será positivo. “No nosso caso, tudo foi conversado e negociado, sempre fizemos tudo com muito cuidado. Fiquei orgulhosa da nossa equipe. A gente conseguiu agir de maneira rápida, todo mundo se envolveu, os próprios motoristas ajudaram muito. Mostramos a importância do trabalho em equipe e da união”, afirma. Regiane acredita que, a partir de agora, a sociedade vai mudar no que diz respeito à higiene e à empatia. “As pessoas vão se conscientizar mais sobre a prevenção. Acho que envolve também cuidar do próximo, porque isso não é algo individual. Temos que proteger quem está ao nosso lado e o meio ambiente. O excesso de consumo talvez tenha causado isso tudo. Espero que as pessoas tenham mais consciência”.

Para Natanael, a sociedade tem visto o profissional do transporte com outros olhos atualmente. “As pessoas respeitam bastante o nosso trabalho e sabem que somos essenciais para o dia a dia delas”, afirma. Como uma das linhas que opera, quando está atuando como motorista, liga Barra Mansa à cidade do Rio de Janeiro, Natanael virou uma espécie de consultor dos passageiros sobre a situação da pandemia. “As pessoas perguntam como está o vírus na outra cidade. Elas passaram a nos ver como conhecedores do cenário. Mas, na realidade, somos apenas condutores de ônibus, porém conscientes do nosso papel, cuidando das nossas vidas e das vidas daqueles que transportamos”. Ele defende que o transporte público não está entre as maiores fontes de contaminação do novo coronavírus. “Os estudos não conseguiram provar isso. Mas, temos que continuar trabalhando conscientes”.

 

“Muitos ainda vão sofrer com demissão, empresas sem conseguir se manter, o retorno vai ser difícil”
Marcos Vinício Almeida de Araújo – Rio Ita

 

Na visão de Marcos Vinício, vai demorar para a humanidade se adaptar à normalidade. “Muitos ainda vão sofrer com demissão, empresas sem conseguir se manter, o retorno vai ser difícil”, diz. Mas, ele acredita na evolução. “Ainda temos que aprender muita coisa com essa pandemia. A gente nunca imaginou que algo assim poderia acontecer. Depois que tudo acabar, a gente vai tentar ligar os pontos. Os governantes vão ter que olhar mais para o povo, em termos de prevenção. A família vai ser mais unida, o mundo vai ser mais unido”, afirma. Sobre o papel do rodoviário, Marcos Vinício se diz orgulhoso em poder atender à população neste momento tão difícil. “Eu gosto da minha profissão e me sinto realizado por estar contribuindo nesta época da pandemia. Nós também estamos na linha de frente”.

Ubiratan acredita que a sociedade sabe da importância do trabalhador rodoviário e do serviço que as empresas de ônibus prestam. “Muitos têm consciência da nossa responsabilidade e do quanto somos importantes, como serviço de primeira necessidade. Pra mim, ser motorista é tudo”. Sobre o mundo pós-pandemia, ele está esperançoso. “O povo está mais sensível e solidário. Acho que o vírus machucou a humanidade de uma maneira muito profunda. Vai mudar muito o ser humano em sua forma de olhar a vida e o próximo. Eu, sinceramente, acredito que o amor ao próximo vai ganhar uma dose de energia. Infelizmente, de forma dolorida. Mas acredito que vai acontecer uma mudança nas pessoas que estão com o coração aberto, de querer o bem do próximo”.

 

“As pessoas evitam encostar umas nas outras e passam álcool em gel o tempo todo. Dá pra sentir o cheiro dentro do ônibus”
Paulo Victor Pinheiro – Viação Nossa Senhora de Lourdes

 

O reconhecimento por parte dos clientes é fácil de ser percebido, segundo Silveira. “Eles ficam preocupados com a gente. Há uma certa solidariedade, e dá para notar a gratidão também. Eles, às vezes, falam entre si sobre isso. Alguns são passageiros de todos os dias e criamos até uma certa amizade. Por isso, nos preocupamos uns com os outros. Eles perguntam como eu estou, como está a família, o trabalho. Os mais idosos são os mais solidários”, diz. O motorista da Região dos Lagos é mais um que se sente orgulhoso pelo trabalho. “Nos colocamos na linha de frente, nos arriscando. A gente está ali, de cara, recebendo todo mundo”, afirma. E completa: “Eu amo demais essa profissão, gosto de lidar com o público. Dizem que é estressante, mas só para quem não ama”. Silveira também falou sobre como imagina o futuro. “Vai mudar muita coisa. Tudo isso aproximou as pessoas. Porque o vírus não escolheu quem iria afetar. Então, acho que as pessoas vão se unir e ter mais amor e menos orgulho entre elas”.

Segundo Paulo Victor, a maioria dos passageiros já se acostumou à nova realidade. “As pessoas evitam encostar umas nas outras e passam álcool em gel o tempo todo. Dá pra sentir o cheiro dentro do ônibus. Ontem vi uma senhora oferecendo para uma jovem. O povo está bem solidário”, conta. O motorista afirma que, mesmo com a redução do número de ônibus, no começo da crise, as pessoas demonstravam gratidão aos rodoviários. “Elas costumam dizer que sabem que o trabalho da gente é difícil”. Paulo Victor também faz parte do time dos profissionais realizados. “Eu me sinto feliz, porque faço o que eu gosto. A gente é de suma importância. Se a gente não trabalhar, o médico não vai trabalhar. Sei que a maioria dos médicos tem carro, mas tem pessoas que trabalham na farmácia, na expedição de algum hospital e dependem da gente, e os médicos dependem delas”, diz.

O mecânico Luciano se diz bastante orgulhoso do seu trabalho. “Eu me sinto muito importante por estar na ativa num momento como este que estamos vivendo, em que grande parte dos trabalhadores precisou ficar em casa. Saber que a empresa conta comigo, que estou ajudando, que meus colegas contam comigo, que os passageiros contam com meu trabalho para fazer a manutenção dos ônibus, me dá muito orgulho”. Para ele, tudo isso vai passar, e a vida voltará ao normal. “Vai ser uma fase ruim, um momento ruim da vida do ser humano que ficou pra trás, mais uma doença que superamos. Mas, vai mostrar que nós não somos nada, e temos que ter mais amor e mais união”.

 

Profissionais de empresas de ônibus do estado do Rio de Janeiro

1 – Maria dos Anjos Freitas, 50 anos, motorista da Expresso São Francisco há 2 anos, na linha Nilópolis – Nova Iguaçu, é solteira e mora sozinha, em Mesquita, mas é vizinha da mãe, dona Teresa, de 75 anos, do irmão e da cunhada. “Minha preocupação é com ela, que é idosa”. Maria já recebeu o Prêmio Alberto Moreira, como melhor motorista, pelo Rio Ônibus, quando trabalhava em uma empresa do Rio. Em outra ocasião, foi tema de matéria do jornal Extra, sobre mulheres na direção de ônibus. “Tenho muito amor pelo que faço”.

2 – Erilberto Arruda Batista, 41 anos, motorista da Viação Ponte Coberta, de Mesquita, há 3 anos, atualmente na linha circular Rosa dos Ventos. Casado com a dona de casa Ana Cristina, é pai de Lucas, 20 anos, e Samuel, 14. Nordestino, de Fortaleza, chegou no Rio aos 13 anos e foi morar em Cabuçu, Nova Iguaçu, onde vive até hoje, com a esposa, o filho mais novo e a sogra, de 75 anos, uma de suas preocupações na pandemia. Desde que começou a trabalhar como motorista na empresa, opera na mesma linha, e conhece a maioria dos passageiros. “A gente pega um carinho por eles e eles por nós. Quando a gente faz alguma coisa por alguém, surge daí um relacionamento, e, às vezes, até uma amizade”.

3 – Marco Aurélio Vargas Garcia, 63 anos, motorista de turismo e fretamento da Bel-Tour há 10 anos, é separado e tem três filhos (Pedro, 23 anos, Thaís, 29, e Marco Aurélio, 34), todos casados. Mora em Quintino, Zona Norte do Rio, e está ansioso para ser avô. “Enquanto os netos não chegam, me distraio com umas galinhas que crio no quintal”. Para ele, a crise servirá de aprendizado. “As pessoas irão ter mais consciência”.

4 – Gilberto Santos da Rocha, 56 anos, supervisor da Viação Galo Branco, de São Gonçalo, há 31 anos. Seu trabalho é organizar a escala dos motoristas, cobradores e fiscais e as saídas dos ônibus. “Gosto muito daqui e do que eu faço. Às vezes fico em casa dois dias e já venho trabalhar no outro dia, cheio de gás”. Casado com a dona de casa Denise, Gilberto mora em Porto da Pedra e tem cinco filhos do relacionamento anterior (Cintia, 35 anos, Maria Eugênia, 34, Rafael, 30, Jessica, 29, e Monique, 27). Os filhos estão todos casados e já lhe deram nove netos, sendo dois gêmeos.

5 – Regiane Alves de Oliveira, 33 anos, trabalha há 11 anos na JH de Paula Transporte e Turismo. Atualmente, exerce o cargo de supervisora comercial e operacional. Casada com o mecânico Carlos Eduardo, Regiane destaca a união e o trabalho em equipe como fatores positivos advindos da crise. “Fiquei orgulhosa da nossa equipe”.

6 – Natanael Marcelino, 48 anos, motorista e instrutor da Viação Cidade do Aço há 29 anos. Seu trabalho é tanto interno, orientando os demais motoristas, como na rua, atuando nas diversas linhas da empresa. Casado com a babá Jociane Silvério de Souza Marcelino, Natal, como é mais conhecido, tem dois filhos – Filipe, 20 anos, que está estudando para ser militar, e Lucas, 13 anos. Mora em Barra Mansa com a família, que é sua prioridade em tudo que faz. Já o trabalho é motivo de orgulho. “Nosso objetivo é transportar vidas”.

7 – Marcos Vinício Almeida de Araújo, 46 anos, motorista da Rio Ita há 10. “Foi meu primeiro trabalho como motorista de ônibus”. Antes da pandemia, ele operava na linha Venda das Pedras – Candelária, mas atualmente está fazendo serviço de fretamento para um hospital de Niterói. Casado com a nutricionista Patrícia, Marcos tem dois filhos – Jéssica, 23 anos, e Marcos Vinício, 19 anos, que está fazendo curso de aperfeiçoamento de barbeiro, na Califórnia. Uma das coisas que o deixa triste é não poder visitar o pai, de 82 anos, que mora com a irmã. “Ela não me deixa ir lá, mas está certa. Só quando passar a pandemia”.

8 – Ubiratan Jorge de Lima Costa, 48 anos, motorista da Auto Viação Reginas, de Duque de Caxias, na linha 017 (Variante – Piriquito). Casado com Jocenã, enfermeira, mas que não exerce mais a profissão, é pai de Gabriel, 19 anos, que este ano fará o Enem para tentar uma vaga em faculdade de Ciências da Computação. Todo dia ele sai de casa, ainda de madrugada, para pegar o ônibus às 3h05 na garagem. “Sempre converso com meu filho e minha esposa sobre coisas da jornada de trabalho e dos extremos que vivemos. É muito assustador, porque foi uma coisa que atingiu o planeta, todos os países, uns mais, uns menos, mas todos foram atingidos”.

9 – Marcos Antônio Silveira Silvino, 46 anos, motorista plantonista da Viação Salineira, de Cabo Frio, há 9 anos. “Cada dia estou em uma linha”. Casado com a dona de casa Maria Aparecida, tem duas filhas (Gabriela, 19 anos, e Karen, 24). Karen é casada e mora numa casa embaixo da dos pais, em São Pedro da Aldeia. Ela tem três filhas, sendo que as duas mais velhas, desde pequenas, vivem com os avós. As netas são os xodós de Silveira.

10 – Paulo Victor Pinheiro, 34 anos, motorista da Viação Nossa Senhora de Lourdes há 3 anos, opera na linha 679 (Grotão – Méier). Pinheiro nasceu no Rio, mora em Olaria, é casado com Janaína Sales, que trabalha como promotora de vendas, em supermercado, e tem dois filhos de uma união anterior (Juliana, 15 anos, e Ana Luiza, 3 anos). As filhas moram em Piabetá (Magé) e, desde que começou a pandemia, só as viu de longe, sem poder abraçá-las. Para matar a saudade, se falam todos os dias por chamada de vídeo. “A menor me mandou mensagem pedindo pra eu buscá-la. Machuca né? Aí, explico e peço pra ter paciência”.

11 – Luciano Castro, 49 anos, mecânico da Cidade das Hortênsias há 25 anos. Como profissional, começou aos 15 anos. Casado com a dona de casa Maria Eliane, é pai de Elaine, 27 anos, e Lidiane, 15. Mineiro de Cataguases, chegou em Petrópolis, com a família, ainda criança. Atualmente, mora em Itaipava, distrito de Petrópolis. Trabalhou durante todo o período da pandemia e se sente orgulhoso por isso. “A gente se orgulha por fazer um trabalho que é importante. Isso ficou muito claro durante a pandemia”.

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