Somente este ano, 56 ônibus foram destruídos por incêndios criminosos

09/06/2017 | Edição nº 98

Com este título, que mais parece um grito de desabafo e socorro, a Fetranspor fez publicar, em 3 de maio deste ano, um comunicado à sociedade, demonstrando os graves prejuízos que a falta de segurança pública no Estado do Rio de Janeiro vem causando às empresas de ônibus, à mobilidade urbana da Região Metropolitana mas, principalmente, àqueles que dependem dos ônibus para exercerem suas tarefas diárias. No texto original, constava o número 51. Mas, até o momento de produção desta matéria, já outros cinco ônibus foram consumidos pelo fogo, diminuindo a oferta de transporte para a população, que vive em clima de guerra civil.

Foto: Vladimir Platonow/Agência Brasil

 

Medo faz parte da vida no Rio

Imagens veiculadas pelas páginas dos jornais ou telas de TV mostram diariamente como a violência urbana tira a paz dos fluminenses. Os ônibus, infelizmente, têm destaque nesse noticiário. Depoimentos de passageiros assustados, porém, contrastam com o silêncio das autoridades.

Um ônibus queimado não deixa como prejuízo apenas a lembrança dos momentos de terror vividos por passageiros e rodoviários. Existe um ônus financeiro para a empresa, a diminuição de oferta de transporte para um número considerável de passageiros, a falta de confiança no meio de transporte que passa a ocorrer e a consequente perda de usuários. Enfim, é uma questão com muitos lados, que precisam ser analisados cuidadosamente.

 

Quem repõe o ônibus queimado?

Se um carro particular sofre um dano, existe um seguro para garantir que o proprietário possa substituí-lo. Carros particulares, motos, frotas de táxi, veículos que trabalham com aplicativos, como o Uber, todos possuem seguros. Os ônibus, não. Não há um modelo que cubra eventos como a queima dos coletivos, ou quaisquer outros. Esse tipo de perda também não é incluído na tarifa. Este é o primeiro lado da questão.

Outro aspecto importante é como a população percebe o transporte coletivo e a cobrança da tarifa. O mesmo usuário que se revolta ao ver incendiado o ônibus que utiliza rotineiramente, responde ao aumento de tarifa como se fosse um ataque pessoal às suas finanças. Da mesma forma, o dono de automóvel, que reaje ao aumento do combustível, do óleo, do estacionamento, dos impostos e de outras despesas, parece ignorar que manter um serviço de transporte público implica esses e outros custos, quando o assunto é reajuste. O usuário precisa saber que, ao contrário do que acontece em quase todas as metrópoles do mundo, no Rio de Janeiro o passageiro paga sozinho pelos custos de seu deslocamento, pois o governo não absorve qualquer parcela desses gastos. E que os reajustes são inevitáveis, porque os custos aumentam. Por isso estão previstas revisões tarifárias no contrato de concessão. Quando o poder público não concede o aumento, ele não está, na verdade, protegendo a população, mas solapando a capacidade de investimento do empresário, que já não conta com subsídio, nem com segurança pública, e nem mesmo com o seguro. Os incêndios e depredações agravam bastante essa situação.

Foto: Divulgação

 

Prejuízos financeiros e de imagem

Na ponta do lápis, danos por assaltos, depredações e incêndios a ônibus oneram a cada dia mais o serviço e são arcados pelas empresas. Pois o mesmo governo que exige a implantação de ar-condicionado em cada veículo é aquele que lhe tira as condições de investimento. Uma tarifa cara para o bolso do usuário, ao contrário do que se pensa, é prejudicial ao operador de transporte, pois leva à perda de passageiros. Em especial em períodos de crise, como acontece no Rio de Janeiro, afetado profundamente pelo duro momento atravessado pelo País.

O terceiro lado que vamos examinar é o da imagem do serviço, considerado um bem intangível. Quando utilizamos um meio de transporte, estamos confiando a nossa própria vida àquele que o conduz. Acidentes são passíveis de acontecer em qualquer modo de transporte, mas cada um vai preferir um meio que lhe pareça mais seguro.

A segurança pública é dever do Estado, e as empresas não podem arriscar a vida de seus clientes colocando, por exemplo, seguranças a bordo de seus veículos. Além de inviável economicamente, é proibido por lei. Assim, o segmento procura criar outros mecanismos de proteção, como o SAFE (Sistema de Acompanhamento de Frota em Emergência, parceria com o Disque Denúncia), a colocação de câmeras, GPS, biometria facial e outros. Ou seja, como no caso da tarifa, ao empresário cabe o prejuízo, mas não a solução.

 

Marketing do mal e números

O que está por trás dessa onda de incêndios criminosos contra ônibus? Por ordens das facções criminosas, a entrada de policiais em seus redutos era revidada com ações como o fechamento de estradas e a queima de pneus. Até que resolveram prejudicar ainda mais a população, queimando ônibus. Para os líderes do tráfico, os coletivos funcionam como uma espécie de outdoors ambulantes e de grandes proporções que, em fogo, chamam a atenção de todos, funcionando como uma ação de marketing do mal.

Só este ano, já foram incendiados 56 ônibus, numa média de um coletivo queimado a cada dois dias e meio no Rio de Janeiro. De janeiro de 2016 para cá, o setor já acumulou prejuízo de 42 milhões de reais. Em todo o País, esse tipo de evento criminoso se tornou comum. Foram incendiados 801 ônibus, de 2015 até agora, segundo a NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos).

 

Decisão do setor

Em vista disso, o empresariado do Estado do Rio de Janeiro decidiu que, a partir de agora, entrará na Justiça buscando a reparação desses grandes prejuízos, prestará queixa-crime contra envolvidos nos episódios de vandalismo e, em caso de ser constatado risco para os passageiros ou rodoviários, vai paralisar os serviços nas linhas atingidas e informar a decisão ao Ministério Público Estadual.

Para enfrentar o cenário de crise, são necessárias medidas firmes e, às vezes, remédios amargos. Há que haver mudanças urgentes, para evitar outras quebras de empresas de transportes por ônibus. Até agora, no Estado do Rio de Janeiro, sete empresas fecharam as portas, em decorrência desse triste panorama.

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