“Teremos uma ressignificação do transporte por ônibus”

19/08/2020 |

A indústria de carrocerias foi fortemente impactada pela pandemia, mas aposta na remodelação do sistema para viabilizar a manutenção e melhoria do transporte coletivo

Há cerca de um ano, a Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus no Brasil, nomeou Ruben Antonio Bisi como seu novo presidente. Engenheiro formado pela Universidade de Caxias do Sul, Bisi possui MBA em Gestão Organizacional, pela FGV, e em STC, pela Universidade de Northwestern, dos Estados Unidos, e está há mais de 45 anos na Marcopolo. Em entrevista à Revista Ônibus, ele apresentou os números da crise atual e se mostrou otimista e engajado na construção de novos significados e novas formas de financiar o uso de ônibus pela população, para evitar o colapso do sistema.

 

Revista Ônibus: No início de 2020, antes da pandemia, qual era o cenário que a Fabus tinha para fabricação de ônibus no Brasil?
Ruben Antonio Bisi:
Vamos um pouquinho para trás. Em 2014, chegamos a produzir 27 mil ônibus. Em 2015, foram 17 mil, em 2016 e 2017, 14 mil. Em 2018, começamos uma recuperação e fomos a 20 mil e, em 2019, chegamos a 22 mil. A nossa estimativa era que, em 2020, pudéssemos crescer mais 10%. Estávamos prevendo algo em torno de 24 ou 25 mil unidades. Esses números de produção são a soma do mercado interno e exportação.

Então, prevíamos uma continuidade da expansão, tanto é que as empresas, em janeiro e fevereiro, começaram a contratar. A Marcopolo estava pensando em contratar 1.000 funcionários e a Caio, 600. Em março, quando começou a pandemia mesmo, a situação foi para baixo.

 

R.O.: E quais foram os efeitos imediatos da crise?
Bisi:
Nós temos o número fechado até maio, em 6.242 unidades. Analisando esses valores, vamos chegar ao final do ano com algo em torno de 14 a 15 mil ônibus. Números de produção parecidos com os anos de 2016/2017.

Então, hoje nós temos um cenário, que vocês da Fetranspor, no Rio de Janeiro, acompanham bem. O transporte escolar está parado, o turismo também. O rodoviário interestadual e o internacional estão operando com 10% da frota. Os intermunicipais estão operando com 30% da capacidade. O fretamento eventual está parado. No fretamento constante, as empresas estão até pedindo mais ônibus, por causa de distanciamento, então existe um aumento de demanda, mas as transportadoras, que na maioria são de serviços múltiplos, estão usando os ônibus das linhas regulares, que estão paradas, para suprir esta demanda. E o urbano está operando com 60% da capacidade, em média. Muitos municípios estão operando com 40% da receita e 70% da frota, ou seja, tem aí um desequilíbrio entre a demanda e a receita. As prefeituras estão exigindo que se coloque mais ônibus, passageiros somente sentados etc. Esse desequilíbrio é um dos problemas que nós temos no setor.

 

R.O.: Em relação ao ano passado, essa queda representa quanto da produção?
Bisi:
De janeiro a maio, os primeiros cinco meses, a redução foi de 32% em relação ao ano passado, no cômputo geral. No ano passado, foram 9.228 unidades nesse período, e este ano nós estamos em 6.242. Em janeiro, houve um crescimento significativo em relação ao mesmo mês de 2019, mas em abril caiu 61%. Maio ficou em 41% a menos em relação ao ano anterior.

 

R.O.: Isso, no cômputo geral. E as exportações?
Bisi:
Nas exportações, em específico, no acumulado estamos com 53% a menos. Por quê? Porque a Argentina fechou, praticamente. Está em lockdown há 90 dias, não entram e não saem produtos. Este é o maior problema que nós temos hoje. Tínhamos, neste início de ano, a questão do Chile e a questão da Colômbia, que estavam com grandes problemas de greves, mas o Chile está retomando as importações. Nós estamos entregando vários produtos. A Caio está entregando, a Busscar e a Marcopolo também. O mercado africano também está bastante explorado. Na África, a pandemia não pegou tão pesado ainda. A África é compradora, podemos dizer.

 

R.O.: Quais as ações das montadoras para minimizar os riscos sanitários nas próprias empresas e nos produtos?
Bisi:
Todas as empresas fizeram uma série de procedimentos e protocolos. As indústrias de chassi e de carrocerias deram férias coletivas logo que começou a pandemia, afastaram os que têm riscos, maiores de 60 anos, com qualquer tipo de doença etc. Começou-se a trabalhar em home office, muitas pessoas estão em casa até agora, desde março.

E também tem a questão da Medida Provisória 936, que flexibilizou os horários, e houve suspensões de contrato. Tem fábrica que reveza, com 30 dias de trabalho e 30 dias parada.

Dentro das empresas foram feitos vários protocolos de higienização, medição de temperatura, testes para ver a contaminação. Eu diria que hoje o trabalhador está mais protegido dentro da empresa do que em casa.

 

“O transporte urbano está operando com 60% da capacidade, em média. Muitos municípios estão operando com 40% da receita e 70% da frota, ou seja, tem aí um desequilíbrio entre a demanda e a receita”

 

R.O.: E nos produtos?
Bisi:
Nos produtos, várias ações foram tomadas por nossos associados. A Caio e a Irizar criaram barreiras para que os profissionais, seja o motorista ou cobrador, fiquem protegidos. Barreiras que são facilmente adaptáveis e fáceis de instalar. Também se fez alterações no ar-condicionado, que, com uma luz ultravioleta, consegue eliminar micróbios e bactérias, e a instalação de uma luz semelhante nos sanitários, a Biosafe, lançada pela Marcopolo. Tem a higienização por uma fumaça seca, que mata micróbios e bactérias por três dias. É uma névoa que descontamina todo o ambiente e dá para ser aplicada no ônibus urbano e no ônibus rodoviário. A Irizar lançou a ideia de retirar um assento para aumentar a distância entre os usuários, e a Marcopolo lançou a versão 3 por 1, ônibus com dois corredores com uma cortina com tecido antibacteriano. Essas são algumas providências que foram feitas neste momento.

 

R.O.: Quais são os cenários futuros com os quais a Fabus trabalha?
Bisi:
No curto prazo, o governo ajudou as empresas, tanto os operadores quanto a indústria, com a MP 936, para diminuir o impacto. Contamos com a desoneração da folha, estamos trabalhando para isso, pois, se não tiver essa desoneração, vai aumentar a tarifa em torno de 5% a 6%. Foi suspenso o pagamento das prestações, pelo BNDES, por três meses. Estamos brigando, a Anfavea, a Fabus, o Simefre e a Fiesp, pela volta do Reintegra, para viabilizar as exportações. Estamos trabalhando num programa com o governo federal, chamado Frota Verde, de reciclagem de ônibus.

Com o Ministério da Economia, temos falado bastante sobre a possibilidade de um programa, que estamos chamando de Programa Emergencial de Transporte Social, o PETS. O deputado Jerônimo Goergen apresentou este projeto ao ministro Paulo Guedes. A ideia é que o governo compre passagens antecipadamente, para os beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família e esse auxílio emergencial de R$ 600,00, que poderiam ser usadas em até doze meses, fora do horário do pico.

 

“No curto prazo, o governo ajudou as empresas, tanto os operadores quanto a indústria, com a MP 936, para diminuir o impacto”

 

Produção de ônibus no Brasil – Comparativo primeiro semestre 2019 / 2020

 

R.O.: E a perspectiva para o longo prazo?
Bisi:
Para o longo prazo, vemos que o sistema de ônibus urbano não se sustenta mais. Ele já estava com problemas muito sérios: receita, falta de demanda, excesso de gratuidades e é um sistema muito caro. Estava pesando aí de 14% a 15% no salário dos trabalhadores. Então, estão quebrando empresas. No Rio de Janeiro, e no Brasil inteiro. Neste momento estamos alertando, fazendo várias reuniões, com a Frente Nacional de Prefeitos, a ANTP, o Ministério da Economia, o da Infraestrutura, além de enviar cartas para o presidente, para o ministro Braga Neto, alertando que, se o governo federal não der um auxílio ao sistema de transporte coletivo, ele entrará em colapso. As receitas caíram e ele não consegue se sustentar. Não adianta oferecer financiamentos e prorrogação de pagamentos. É necessária, do nosso ponto de vista, uma remodelação do sistema de transporte urbano.

O ideal seria um sistema nacional de transporte público, por demanda, com integração dos modais, integração das cidades metropolitanas, com adoção de um bilhete único, receitas extratarifárias, como pedágio urbano, percentual sobre estacionamento, aumento do IPVA dos carros para subsidiar o sistema, venda de mídia interna e externa nos ônibus, a CID combustíveis… Então, estas receitas extratarifárias deverão formar um fundo que possa ajudar as empresas.

Por outro lado, temos que ter uma redução do custo das empresas. Redução ou eliminação de ICM sobre combustíveis, fim da função de cobrador, do dinheiro dentro do ônibus, os impostos – ISS, IPVA e outros. E, por fim, o governo tem que investir em infraestrutura: corredores, BRTs, vias segregadas, semáforos inteligentes etc.

 

R.O.: A Fabus tem uma ideia de como será o novo normal no serviço de ônibus?
Bisi:
Será uma ressignificação, como estou chamando. Vamos ter um novo protocolo de higiene e distanciamento, mas o mais importante é a redução da tarifa, senão o sistema não se sustenta. O usuário vai para o transporte individual, para o patinete, para a bicicleta. Ele vai a pé ou de transporte clandestino. O que precisamos é de uma tarifa mais palatável, ônibus melhores, subsidiados uma parte pelo Estado, para o sistema se sustentar.

O que nós vemos é que existe um aumento das passagens aéreas. Em função da taxa cambial e da debilidade das empresas aéreas, elas não vão conseguir fazer tantas promoções como faziam, para atrair os passageiros de média distância, e aí o ônibus entra como alternativa de mobilidade das pessoas de uma cidade para a outra e de um estado para outro. Mas os ônibus também vão ter que ser ressignificados. A sanitização dos veículos; o ar-condicionado, que tem que tirar o ar contaminado e jogar um limpo, sem contaminação (para isso servem as luzes ultravioleta nos ares-condicionados); tem que ter uma forma de aumentar a capacidade dos ônibus. Estamos pleiteando um aumento do comprimento para versões com cabines individuais. No passado, nós lançamos os semileitos, leitos e o transporte executivo, e eles foram ganhando devagarinho uma participação no mercado.

O double deck também é um serviço diferenciado, em cima vai um tipo de passageiro, embaixo, outro. Nós acreditamos que, com um sistema de separar o passageiro numa microcabine com cortina, uma poltrona confortável, com wi-fi, carregador de celular e computador, conseguiremos trazer passageiros que estavam dentro do avião. Então, no setor rodoviário estamos investindo pesadamente nesta questão de ressignificar.

No sistema de fretamento acreditamos que vai aumentar a demanda, porque os trabalhadores das empresas que contratam vão querer mais espaçamento, para eles terem menos lotação por ônibus. As empresas vão querer colocar higienizadores, um ar-condicionado que realmente filtre o ar. Estamos trabalhando muito com os fornecedores de ar-condicionado para que o passageiro volte para o ônibus e se sinta mais protegido. Nós temos uma oportunidade de retomar o passageiro que o avião nos roubou.

Na questão de micro-ônibus, nós temos aí uma possível nova demanda, que é o serviço on demand, ou seja, muitas cidades não vão disponibilizar um ônibus grande de meia em meia hora, para transporte de passageiros em bairros de baixa demanda. Então, o usuário vai solicitar, por aplicativo, um micro-ônibus, que o pegue e leve a um troncal ou a uma linha de BRT, com uma tarifa integrada. Essa é a forma de não deixar o sistema ir para um transporte individual, de continuarmos a ter um transporte público e administrado pelo poder público, mas acionado pelo passageiro, sob demanda.

 

“Vamos ter um novo protocolo de higiene e distanciamento, mas o mais importante é a redução da tarifa, senão o sistema não se sustenta”

 

R.O.: Qual solução propõem para os horários de pico?
Bisi:
A questão é achatar o horário de pico, né? As políticas até já começaram, mas ainda são emergenciais e precisam se transformar em estruturais, para você estender os horários de atividade e diminuir o fluxo no pico. As pessoas ficam menos aglomeradas e, em futuros surtos, que podem vir, terão mais proteção. Com isso também se precisa de menos ônibus e dá para baratear a tarifa.

 

R.O.: O mercado exterior tem boas perspectivas?
Bisi:
Na exportação, o dólar é favorável ainda, ele não vai para R$ 3,00, deve ficar em R$ 4,50. Nós temos uma desgravação de imposto de importação no México e nos países que estão debilitados, como Argentina, Bolívia e Equador, em que muitas empresas de ônibus pequenas, familiares, estão quebrando. Então, na hora em que reabrir esse mercado, eu acredito que a demanda vai ser maior do que tínhamos anteriormente.

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