Trabalhadores do transporte público: guardiões da mobilidade

08/03/2021 |

Revista Ônibus: Qual sua análise da situação do transporte público no mundo, neste período de pandemia, e em que cidades ou regiões considera que o impacto foi mais grave?

Mohamed Mezghani: Quando a pandemia do coronavírus começou a se espalhar rapidamente pelo mundo, causou uma parada completa nas rotinas diárias, destruindo recursos globais e mudando muitos setores em um futuro próximo. Na comunidade de transporte público, vimos impactos enormes, e estamos lidando com essa mudança há quase um ano. Não tem sido uma época fácil para o setor, com perda de receitas, menos passageiros, etapas e custos extras para implementar todas as necessárias medidas de segurança a bordo. No entanto, embora tenham ocorrido muitos danos, sentidos em todo o setor, também houve momentos de positividade. Cada um no transporte público tem um papel diferente a desempenhar, para prevenir a propagação do vírus, promover a importância desse transporte durante a pandemia e manter os serviços essenciais funcionando. Ficou clara a força da comunidade do transporte público durante Sustainable Bus ENTREVISTA o surto inicial e depois dele. O árduo esforço demonstrado por seus trabalhadores, atendendo suas comunidades locais e cidades, tem sido notável. Na UITP (Associação Internacional de Transporte Público), nós os chamamos de nossos Guardiões da Mobilidade. Seu nível de dedicação tem ajudado a tranquilizar os passageiros e a manter nossas cidades em movimento. Como uma associação, nosso papel tem sido primeiro apoiar e tranquilizar nossos membros internacionais, para que saibam que pertencem a uma família global. A pandemia fortaleceu a relevância e o alcance da UITP como associação e nos permitiu atender nossos membros de novas maneiras.

A Covid-19 causou uma queda muito grande no número de passageiros e, portanto, na receita, na maior parte do mundo, com uma queda inicial de 90% em alguns locais. Além disso, operadores e autoridades em todo o mundo tiveram que gastar mais com novas infraestruturas nas estações e a bordo, e precauções extras de limpeza para manter esses meios o mais higiênicos possível. Investimento financeiro e apoio governamental, além da garantia da tranqüilidade dos passageiros, são vitais para o setor, que busca se reerguer da melhor forma. Com isso em mente, na UITP voltamos o foco para como a reconstrução do transporte público deve ser. Isso nos levou a desenvolver um manifesto detalhado para promover e garantir que nosso setor tenha um futuro brilhante: “De volta para uma mobilidade melhor”. Estamos trabalhando para garantir um amanhã melhor para o transporte público e aproveitar uma oportunidade histórica e única para recomeçar e moldar o futuro de nossas cidades para melhor. Com foco em respirar melhor, mover-se melhor e trabalhar melhor o #BetterMobility (#MelhorMobilidade) nasceu. O setor de transporte público avançou na linha de frente para ajudar a combater a pandemia e deve fazer parte do cenário quando buscarmos reconstruir nossas cidades para além da Covid-19.

RO: O que deve mudar na visão de governos e operadoras, na forma de operar o transporte público daqui para diante?

MM: O transporte público vem sofrendo com sua imagem negativa. Ele é visto como a opção de mobilidade de quem não tem outra escolha. Frequentemente, os governos não veem os muitos benefícios que o transporte público gera para a economia (acesso a empregos, menos congestionamentos), o meio ambiente (menos poluição e emissões de gases de efeito estufa) e a sociedade (benefícios para a saúde, segurança no trânsito, inclusão social). Portanto, é importante mudar a percepção do setor. Eu realmente espero que, com o papel essencial demonstrado durante a pandemia, essa percepção mude para melhor. As operadoras precisam defender os benefícios do transporte público e fortalecer sua comunicação, para inspirar sentimentos positivos quanto ao transporte público. Com relação às operações, precisamos projetar sistemas mais flexíveis e sob demanda, serviços mais responsivos à necessidade de consumo. É importante antecipar a demanda e melhor se planejar para isso.

RO: No Brasil, o sistema de transporte público está debilitado, em decorrência, principalmente, de um modelo de financiamento obsoleto que onera demais os passageiros. Que modelos têm obtido bons resultados, garantindo um bom serviço à população, com remuneração justa para o operador?

MM: O transporte público é um serviço universal que oferece acesso a todos, em todo lugar e a qualquer hora, em muitos lugares. Não é um serviço puramente comercial. Na maioria dos casos, as rotas, tarifas e níveis de serviço são definidos por uma autoridade pública, em nível local ou regional. Portanto, é lógico que aqueles que impõem as restrições contribuam para o seu financiamento, oferecendo uma compensação pelas obrigações de serviço público. Isto é válido tanto para operadores públicos quanto privados, uma vez que todos têm de cumprir estas obrigações. Não é aceitável que as autoridades subsidiem combustível ou construção de estradas, mas não apoiem as operações de transporte público. Não se trata de subsidiar os custos operacionais ou cobrir um déficit, mas de compensar a consequência da decisão da autoridade de definir o serviço e fixar as tarifas.

“Não é aceitável que as autoridades subsidiem combustível ou construção de estradas, mas não apoiem as operações de transporte público”
Mohamed Mezghani – Secretário Geral da UITP

RO: Na sua opinião, qual a importância do transporte público na economia de um país?

MM: Ele é essencial para a vida na cidade: é a força vital na qual as cidades fluem. É mais do que conectar pessoas do ponto A ao ponto B; o transporte público oferece às pessoas um movimento fácil pela cidade. O objetivo deve ser ter sempre ótimas opções de mobilidade urbana à sua porta, para qualquer tipo de viagem que seja a sua. Sabemos que a contribuição que traz para a economia de uma cidade e do país é relevante, não importa a que parte do mundo nos referimos. O setor gera empregos, leva e traz as pessoas ao seu local de trabalho, supermercado, educação, artes e lazer. A experiência mostra que um dólar investido no transporte público gera até quatro dólares na economia local. Além disso, os projetos de transporte público criam 25% mais empregos do que a construção de infraestrutura rodoviária, pelo mesmo valor investido. Não se trata apenas de economia, é claro. O transporte público é um componente vital para o futuro do meio ambiente. Ao transferir as pessoas de viagens individuais de carro para o transporte de massa, as emissões são reduzidas e nossas cidades se tornam lugares mais saudáveis, limpos e felizes para todos. Por passageiro, o transporte público emite três a quatro vezes menos CO2 do que os carros. Quanto à segurança rodoviária, o risco de se envolver em um acidente é quatro a dez vezes menor no transporte público do que no automóvel. O transporte público é extremamente importante para a economia local e nacional, e devemos sempre divulgar isso. É vital garantir que o investimento e o envolvimento no transporte público estejam no topo da agenda para os tomadores de decisão nos níveis de governo local e central. Nossas cidades precisam de transporte público, portanto o setor precisa de apoio e investimento.

RO: Que medidas, na sua opinião, poderiam evitar um colapso do sistema brasileiro neste momento?

MM: A queda nas receitas de viagens e de tarifas é uma tendência geral em todo o mundo. Como em muitos países, o apoio do governo é fundamental e necessário. Sem ele, o transporte público pode não sobreviver a esta crise. O governo não pode se lembrar do transporte público apenas quando serviços essenciais são necessários durante lockdowns, e esquecê-lo quando ele precisa de suporte. Conforme claramente expresso acima, o transporte público é fundamental para a economia, para a sociedade e para o meio ambiente. As consequências da falta de apoio financeiro seriam mais onerosas do que o montante desse apoio.

RO: Há um movimento mundial para aumentar o uso do transporte público, para melhorar a qualidade de vida nas cidades. Respeitando as diferenças entre regiões e culturas, quais são os principais pré-requisitos para se oferecer um bom transporte público?

MM: Esta questão não tem nada a ver com culturas ou diferenças regionais, mas com vontade política. Existem bons sistemas de transporte público em todo o mundo, em todos os tipos de contextos. O transporte público bom ou ruim é, em primeiro lugar, o resultado das escolhas políticas feitas em todos os níveis de governança: nacional, regional e local. Sendo assim, um pré-requisito essencial é o sistema institucional que rege o transporte público. Há uma necessidade de autoridades de transporte, uma agência metropolitana e municipal que realizem o planejamento multimodal e definam os níveis de serviço. Ele deve cobrir a área de influência do deslocamento local e ir além das fronteiras administrativas, porque os passageiros não escolhem seu local de trabalho (se puderem), ou sua casa com base nas fronteiras administrativas. A autoridade traduzirá a estratégia de mobilidade em elementos táticos como o tipo de rede, os meios, o sistema de tarifas, a localização dos pontos de transferência etc. E então vem o nível operacional, nas mãos dos operadores, que implantam meios e recursos para prover a oferta de transporte público aos cidadãos. Uma consideração importante é o nível de integração entre os diferentes meios e operadores. Quanto mais integrado for o serviço, mais fácil será utilizá-lo e se deslocar na cidade. Os viajantes não se importam com quem opera o sistema, o que eles desejam é acesso contínuo, um sistema de preços simples e informações integradas que lhes possibilitem viajar pela cidade sem problemas. A coordenação entre o transporte público de massa e os novos serviços de mobilidade é importante, pois fará possível viajar de porta a porta, e não apenas de estação a estação. E para tornar o transporte público mais atraente e eficiente, é essencial dar-lhe prioridade sobre os carros nas estradas, para garantir que não se fique preso no trânsito.

“Os projetos de transporte público criam 25% mais empregos do que a construção de infraestrutura rodoviária, pelo mesmo valor investido”

RO: Que exemplos de medidas bem-sucedidas para tornar o transporte público mais seguro durante a pandemia poderia citar?

MM: O transporte público enfrentou grandes desafios quando a pandemia começou, e o setor exigiu muito daqueles que trabalham na linha de frente. Não para minha surpresa, eles seguiram em frente e assumiram o que era necessário para manter nossas cidades em movimento. Houve, e continua a haver, muitos heróis não celebrados nestes tempos difíceis, e como os passageiros ainda precisam usar suas redes locais – para acessar trabalhos essenciais, obter alimentos ou suprimentos médicos, estar com seus familiares – nossos trabalhadores estão lá. Os serviços podem ter sido reduzidos, mas as suas tarefas aumentaram. Quando a pandemia começou, a UITP publicou um folheto detalhado, para operadores de transporte público e autoridades, sobre a melhor forma de reagir a uma pandemia. Ele contém conselhos de especialistas e informações sobre o que é necessário para tornar as viagens durante uma pandemia global o mais seguras possível. Isso inclui medidas extras sobre limpeza, infraestrutura recém-instalada, nas estações e nos veículos, e recomendações sobre o uso de máscaras. Todo esse trabalho árduo, é claro, custa mais caro e, com a queda das receitas, o setor deve ser aplaudido por sua resposta.

A mídia, às vezes, não detalha com precisão o quão seguro o transporte público é, e continua sendo, durante a Covid-19. É por causa de todas essas medidas extras e da atenção das equipes que o transporte público tem sido considerado um dos locais mais seguros durante a pandemia. Pesquisas e dados confirmam isso, e tornamos essas informações amplamente conhecidas por meio de nossos canais, juntamente com nossos membros. Também mostramos muitos exemplos do que nossos membros estavam fazendo para manter o transporte público em movimento, com segurança, durante a Covid-19.

RO: Como vê a mobilidade urbana pós-pandemia?

MM: Em muitas cidades, o lockdown deixou claro quanto espaço é usado pelos carros. Eu diria desperdiçado. As pessoas se apropriaram desse espaço para caminhar, pedalar… para curtir a cidade. Portanto, é fundamental repensar como o espaço é compartilhado e dar prioridade aos meios mais eficientes. Em outras palavras, devemos movimentar pessoas e não carros.

O desafio de reduzir o uso individual de automóveis oferece a oportunidade de acelerar o desenvolvimento de soluções de mobilidade compartilhadas e sob demanda. Temos diversas opções de transporte disponíveis, o que permite construir pacotes de mobilidade de acordo com as necessidades das pessoas. Isso significa que o transporte público de massa é e continuará a ser a espinha dorsal da cidade, mas será complementado por soluções sob demanda / compartilhadas. Isso fará com que ele seja de porta a porta, e não apenas de estação a estação.

Além disso, a transformação digital estará no centro das mudanças que impactarão o transporte público, tornando-o mais eficiente e mais focado no cliente, mas também mais resiliente. Trata-se de ter uma melhor programação para gerenciar a demanda e o número de usuários, sistemas de planejamento inteligente, manutenção preditiva, o uso de IA para melhor gerenciar a frota, mas também para personalizar os serviços de acordo com as expectativas e comportamentos das pessoas. A MaaS (Mobilidade como um Serviço) também estará no centro dos novos desenvolvimentos, para tornar essa redefinição uma realidade para os viajantes.

E, claro, as questões relacionadas às mudanças climáticas e à descarbonização continuarão na agenda porque, infelizmente, os incômodos do transporte individual não desapareceram com a crise do coronavírus. Essas prioridades irão moldar as prioridades das partes interessadas no transporte público.

Comente aqui

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *