Retomada de passageiros requer estratégias de melhoria do transporte público
Uso de transporte por aplicativo aumentou 1000% no mesmo período, passando de 1% para 11%.
- Demanda de passageiros de ônibus caiu 45% entre 2017 e 2024 no Brasil.
- Uso de transporte por aplicativo aumentou 1000% no mesmo período, passando de 1% para 11%.
- 53% dos usuários que continuam a usar ônibus dizem que o fazem por falta de opção, indicando possibilidade de migração para outros meios de transporte.
A retomada da demanda de passageiros é hoje um dos principais desafios enfrentados pelo setor de transporte público por ônibus no Brasil. Se antes da pandemia da Covid-19 já havia uma tendência de queda no número de usuários transportados, a crise sanitária acentuou o problema. Segundo relatório sobre a evolução dos níveis de demanda da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), “dados nacionais e internacionais têm revelado uma mudança estrutural nos padrões de mobilidade, marcada por novos hábitos, maior individualização dos deslocamentos e maior sensibilidade à percepção de confiabilidade e conforto”.
O perfil dos deslocamentos e do próprio usuário de ônibus mudou. Pesquisa sobre a mobilidade da população urbana, realizada em 2024 pela NTU e pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), revelou que o crescimento do sistema de trabalho em home office e da educação à distância, bem como a digitalização de serviços, reduziram a necessidade de deslocamentos diários, principalmente de trabalhadores e estudantes, considerados os públicos principais do transporte coletivo urbano. Outro estudo, de 2023, promovido pelo Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mostrou que mais de 10% dos entrevistados passaram a optar pelos modos de transporte individuais, como carro, veículo contratado por aplicativo e motocicleta.
Individual x coletivo: a eterna luta
Esse cenário resultou, conforme indica a pesquisa NTU CNT, numa queda na utilização do ônibus de 45% para 31%, entre 2017 e 2024, e um aumento de mais de 1000% no uso do transporte por aplicativo, que passou de 1% para 11%, com as motos crescendo 120%. Se, no primeiro ano do levantamento, os modos coletivos e individuais dividiam-se igualmente na preferência do passageiro (50% para cada), em 2024 as viagens por aplicativo, carro e moto chegaram a 68%. A questão não afeta apenas a sustentabilidade financeira dos sistemas públicos de transporte, mas a qualidade de vida da população, com a piora do trânsito, o aumento dos acidentes e da poluição aérea e sonora e o maior custo de mobilidade para as famílias de baixa renda.
Os principais fatores apontados pelos passageiros para a substituição do ônibus por outros meios foram: pouco conforto, falta de flexibilidade dos serviços e tempo elevado de viagem. A situação para o setor de transporte por ônibus torna-se ainda mais grave a partir da constatação de que 53% dos usuários que ficaram disseram utilizar este modo por ser a única opção disponível, indicando a possibilidade de migração no caso de surgirem alternativas.
Mudanças no padrão de deslocamento: Meios de transporte mais utilizados

MetrôRio teve queda de 28% em sete anos
O caso do metrô carioca não é diferente. Segundo Diego Garcia, gerente de Estratégia e Governança do MetrôRio, em sua palestra durante o Rio de Transportes, realizada em dezembro do ano passado, a queda de passageiros entre 2019 e 2025 foi de 28%, tendo seu momento de pico em 2020, no auge da pandemia, com 84%. De acordo com Garcia, o mesmo vem acontecendo nos metrôs de várias cidades pelo mundo. A diferença, no entanto, é que a cidade do Rio possui uma população de menor renda, dependente do transporte público, com alta concentração de moradores longe do Centro, resultando, conforme dados do IBGE 2022, no maior tempo médio do País entre a casa e o trabalho.
Garcia falou sobre a importância de subsídios, mas ressaltou o fato de que a Tarifa Social do Rio (para metrô e trem) beneficia apenas passageiros com renda até R$ 3.200,00.
Portanto, independentemente do modo de transporte, a questão crucial é a retomada da demanda de passageiros do transporte público, que, mesmo com o retorno das atividades após a pandemia e a adoção de subsídios emergenciais em várias cidades, continua abaixo dos patamares anteriores à crise sanitária. Assim, é urgente a necessidade de estratégias para a volta dos usuários que migraram para o transporte individual e para a retenção dos atuais clientes.
Confiança do usuário e qualidade do serviço
O secretário de Mobilidade e Infraestrutura do Espírito Santo e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Transporte e Mobilidade (Consetram), Fábio Damasceno, defende uma mudança de paradigma que priorize a confiança do usuário e a qualidade do serviço, em vez de uma espera passiva pelo retorno dos antigos índices de demanda. Para o secretário, é necessário avaliar se a perda de passageiros registrada desde 2019 é uma tendência reversível ou a nova realidade das cidades brasileiras.
“Devemos trabalhar com essas duas visões e planejar o transporte dentro desses cenários. Muitas vezes, a gente fica preso em 2019 e acaba segurando até investimentos para a melhoria do sistema, esperando uma retomada de passageiros que, na verdade, pode ser que não venha”, alerta, destacando que o planejamento deve focar em um sistema tão confiável que atraia até mesmo quem hoje prefere o automóvel.
“Existe uma curva de melhoria que precisa ser feita nas cidades. Isso envolve frota, atendimento ao usuário, infraestrutura, confiabilidade nos horários, previsibilidade e segurança. E sugere muitos investimentos, como em corredores e faixas exclusivas, por exemplo. Acredito que esse contexto de melhoria pode não ser para esse passageiro de 2019, mas para um novo passageiro que queira usar um sistema mais confiável”, reforça Damasceno.
Passageiro diz o que o faria voltar para o ônibus
Segundo o diretor técnico da NTU, Matteus Freitas, em palestra durante o Rio de Transportes, 63,5% das pessoas que deixaram de utilizar o ônibus afirmaram que poderiam voltar a usá-lo, caso os motivos que os levaram a substituí-lo fossem resolvidos, como conforto, rapidez das viagens, pontualidade e serviços mais flexíveis. Mesmo considerando a cobrança de tarifas maiores, o passageiro retornaria ao ônibus após adoção dessas medidas.
A NTU sugere 28 ações estratégicas (veja quadro abaixo), divididas em sete eixos — reforço da oferta, política tarifária, regulação, infraestrutura, planejamento, tecnologia e comunicação e governança —, que podem levar ao resultado esperado de recuperação da demanda. De acordo com Freitas, cidades como Goiânia (veja matéria a seguir) e Brasília, que adotaram ao menos 11 das estratégias sugeridas, conseguiram recuperar os passageiros pré-pandemia e até aumentar. Outras cidades que implantaram de cinco a sete dessas ações já retomaram mais de 80% da demanda de 2019.
Ações estratégicas para recuperação da demanda: Evidências nacionais e internacionais

Estratégias integradas produzem resultados melhores
O diretor técnico também apresentou gráficos do European Metropolitan Transport Authorities, que mostram sistemas menos impactados pela crise sanitária e que já se recuperaram, como os de Belgrado, Berlim e Oslo; sistemas que tiveram muito impacto e recuperaram ou estão próximos de recuperar a demanda, como Cracóvia, Londres e Budapeste, e o sistema de Praga, que foi muito impactado e ainda encontra dificuldade de recuperação.
Portanto, conforme destaca o relatório da NTU: “embora ações pontuais possam gerar impactos localizados, a experiência internacional e nacional demonstra que estratégias integradas, que combinam diferentes frentes de intervenção, produzem resultados mais rápidos, robustos e duradouros. A articulação entre requalificação operacional, incentivos tarifários, regulação modal, redesenho da rede e investimentos em infraestrutura fortalece a atratividade do sistema e melhora a experiência do usuário”.
Ciclo vicioso do transporte público

Ciclo virtuoso do transporte público
