Um motorista e seu mais novo melhor amigo

03/02/2020 |

“Felizes os cães, que pelo faro descobrem os amigos”. A frase é do escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) e cabe bem na história que será contada aqui: a de um encontro, entre um homem e um cão que, ao se conheceram, se descobriram melhores amigos.

Foto: Michel de Souza

Tudo começou no dia 18 de outubro passado, uma sexta-feira, na autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, que liga a Zona Norte à Zona Oeste do Rio. O motorista de ônibus Michel de Souza, 44 anos, há quatro trabalhando na Viação Redentor, fazia seu itinerário diário, na linha 368 (Riocentro x Candelária), por volta das 7h30min, sentido Grajaú, quando escutou um barulho. Um cachorro havia sido atropelado.

“Ele caiu bem na minha frente e, logo em seguida, levantou cambaleando. O carro que o atropelou não teve culpa alguma, mas não parou pra ajudar”, conta Michel, que seguiu observando o cachorro. “Quando eu percebi que ele estava voltando, no sentido contrário ao trânsito, meio que no automático, liguei o alerta e fechei a passagem para evitar que ele fosse atropelado novamente. Atravessei o ônibus de um jeito que nenhum carro conseguisse passar. Falei com os passageiros e todos me apoiaram. Um deles inclusive ajudou e desceu comigo até a via, para pegar o cachorro”, lembra o motorista. E continua: “Não sei o que deu na minha mente. Só queria salvá-lo. Nem vi se era de raça. Depois, uma pessoa me falou que era da raça Sharpei”.

 

Serra: Homenagem à autoestrada

Após salvar o cachorro, Michel o colocou no ônibus. Alguns de seus clientes ajudaram a acalmar o animal. “Ele estava em estado de choque. Ficou quietinho. Todo mundo no ônibus ficou encantado com ele”, lembra o motorista, que amarrou um fio na coleira, prendendo-o próximo à roleta. “Ali ele ficou, enquanto eu continuava a viagem”. Ao encerrar o expediente, por volta das 10h, Michel se dirigiu à garagem da empresa, para entregar o ônibus e fechar as contas do dia, e depois para sua casa, em Madureira, para onde levou o cachorro. Em homenagem ao local onde foi encontrado, ele batizou o cão de Serra. O próximo passo foi levar Serra ao veterinário para se certificar de que estava bem. E, realmente, nada de grave foi diagnosticado, apenas alguns arranhões na cabeça, pescoço e rabo.

O motorista resolveu fazer um vídeo para divulgar nas redes sociais, com o objetivo de encontrar o dono do cachorro atropelado. Vários amigos compartilharam em grupos, em páginas do bairro na Internet e em suas redes sociais. O vídeo viralizou e o dono do Doky, nome real do Sharpei, foi localizado. Na verdade, quem entrou em contato foi o filho do dono, Carlos. “Ele me ligou na segunda-feira, disse que o pai estava internado no CTI e que o cachorro havia fugido por descuido de um pedreiro, que trabalhava em uma obra na casa. Passei meu endereço para ele ir buscar o Doky, mas na terça ele me ligou novamente dizendo que seu pai estava em estado grave e perguntando se eu poderia ficar com o cachorro por mais um tempo. Desde então, nunca mais entrou em contato e o Doky continua comigo”, revela Michel, 20 dias após o atropelamento.

 

Mudança na rotina: Passeio todos os dias

Segundo o motorista, sua rotina mudou desde que o Doky apareceu em sua vida. “Quando chego em casa, é uma festa. Ele pega a guia, olha para a minha cara e corre para o portão. Tenho que levar pra passear todo dia. As vezes, não dá tempo nem de tirar o uniforme. Ele me segue o tempo todo. Onde eu vou, ele vai atrás, sempre perto de mim. Está num chamego comigo, que só vendo. Parece que já está aqui desde filhotinho. A verdade é que não sei quem está mais feliz, ele ou eu”, conta sorrindo. Sobre um dia ter que devolver o cachorro para o dono, Michel afirma: “Ninguém nunca mais me procurou. Mas, se isso acontecer, vou sentir muito a falta dele. Outro dia, um cara me mandou mensagem no Facebook, oferecendo R$ 3 mil por ele. Perguntei: você tá louco? Ele me pediu desculpa e eu o bloqueei”.

Doky chegou na hora certa. Em julho, o motorista se separou da esposa, que se mudou levando o cachorro do casal, Spike, de quem ele sempre cuidou, desde novinho. A casa ficou vazia, só com Michel e a mãe, que chegou de Portugal. “Sinto muita falta do Spike, ele era meu parceiro. Aí aparece este, que caiu de paraquedas na minha vida. Deve ser coisa do destino. Deus me colocou no caminho dele e ele no meu”, diz.

Michel sempre foi apaixonado por cachorros e teve vários ao longo de seus 44 anos, a maioria quando criança. “Mas, o Doky é o mais dócil e o mais carinhoso de todos que já conheci”.

 

“Minha vida é dirigir”

Além do amor pelos cachorros e pelos dois filhos, do primeiro casamento – Lohan, de 11 anos, e Carla, de 10 –, Michel também ama a profissão escolhida. “Me arrependo é de não ter começado a trabalhar em ônibus mais cedo; eu adoro, minha vida é dirigir”, afirma o motorista, que iniciou no transporte coletivo em 2015. “A Redentor foi minha primeira empresa e espero que seja a única, porque é uma empresa de família, me sinto muito bem naquela garagem. Quero ficar lá até me aposentar”. Questionado sobre o segredo para ser um bom profissional, ele não titubeia: “antes de tudo tem que amar o que faz”.

Sua jornada começa ainda de madrugada: acorda 1h30min para estar na garagem da empresa, em Jacarepaguá, às 3h. Como faz a primeira viagem do dia, tem um grupo de clientes fixos e alguns se tornaram até amigos. “Sou muito vira-lata, falo com todo mundo, dou bom dia pra todo mundo, independentemente se a pessoa vai me responder. Insisto até que uma hora ela responde. Na garagem também, falo com manobreiro, pessoal da limpeza, pareço até político em época de eleição”, diz, achando graça. Depois da história do Doky, Michel ficou famoso, não apenas entre os passageiros e colegas de trabalho. “Outros motoristas passam e buzinam, policiais me cumprimentam. Outro dia, até no supermercado eu fui reconhecido”, conta.

 

“Foi amor à primeira vista”

Sobre outros casos, como motorista, que marcaram sua história, ele lembra de uma vez em que ajudou um passageiro, sem dinheiro, a chegar até o local onde faria uma entrevista de trabalho. “Ele conseguiu o emprego e depois voltou para me pagar. E hoje se tornou meu cliente diário. Todos os dias, sou eu quem o leva para o trabalho; como é a vida, né?”. Em outra ocasião, ao saber da possibilidade do ônibus ser assaltado, falou em voz alta, ao volante: “uma hora dessas e tem P2 dentro do carro”. P2 é o termo usado para designar a seção de inteligência da PM e seus policiais costumam andar à paisana. Sua fala bastou para que os suspeitos desembarcassem. “Um olhou para o outro e disse que aquele ônibus não servia para eles”, lembra.

Mas, entre todas as histórias já vividas como rodoviário, Michel é categórico ao afirmar que a do Doky foi a mais importante. “Foi amor à primeira vista. Se deixarem, ficaremos juntos até os últimos dias da vida dele ou da minha”.

Ao que tudo indica, Machado de Assis estava mesmo certo. Doky parece ter reconhecido em Michel um grande e fiel companheiro. Mas, é fato também que Michel tem o faro dos amantes dos cães. Com seu gesto solidário, encontrou um novo melhor amigo.

Fotos: Michel de Souza

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