Vander Francisco Costa, presidente da CNT: “O coletivo deve vir antes do individual”

22/01/2020 | Edição nº 108

Revista Ônibus: A pesquisa Confederação Nacional de Transporte (CNT) de rodovias tem mostrado que as condições nas estradas brasileiras são bem precárias. A deste ano apontou problemas em 59% dos trechos avaliados. Esta situação afeta não só o transportador profissional, mas ameaça a vida de todos os motoristas e passageiros. Considera que esse esforço anual da CNT está conseguindo resultados práticos?

Vander Francisco Costa: A gente tem de reconhecer que resultados práticos imediatos, não. Mas nossa contribuição tem sido no sentido de criar a consciência de que há uma grande necessidade de investir. Este ano tivemos a oportunidade de apresentar esses números ao Congresso Nacional, o que foi muito positivo. Sabemos que o Brasil não tem recursos, e não culpamos este governo.

R.O.: A quem atribui a responsabilidade?

Foto: Divulgação / CNT

V.F.C.: Pessoalmente, acredito que a Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, não foi tão cidadã assim, uma vez que privilegiou muito o individual, em detrimento do coletivo. Quando você faz isso, há prejuízos para o todo. Hoje, os gastos públicos são quase que totalmente para pagar o funcionalismo dos três poderes. Precisamos convencer o Congresso Nacional de que isso precisa ser mudado. Há que haver uma maior fl exibilidade nos investimentos. As PECs que estão em discussão causam bastante polêmica, mas não se precisa mexer nos direitos já adquiridos. As regras podem ser mudadas para os entrantes, pois, ou fi camos como estamos, com toda essa crise, ou mexemos no funcionalismo público. Outro ponto importante: para acelerar investimentos na infraestrutura, é preciso contar com a iniciativa privada. Defendemos rodovias sob concessão, com um pedágio menor.

O motorista não reclama de pagar o pedágio numa via em boas condições de piso, com boa sinalização e um pedágio razoável.

R.O.: O que essa piora nas condições de nossas vias significa em termos de custos operacionais para o transportador rodoviário, seja de cargas ou de passageiros?

V.F.C.: Não gosto de falar em números, a não ser que sejam bem fundamentados e precisos. Mas, com certeza, a má qualidade das estradas gera custos ponderáveis, como gastos de manutenção, combustível, desgaste do motor, e imponderáveis, como tempo de viagem, que prejudica tanto os passageiros de um ônibus, como um transportador de carga, que vai levar menos cargas porque gastará maior tempo nos percursos. Não gosto de falar em percentual, porque, neste caso, por exemplo, é complicado. Um motorista não vê um buraco na pista e isso gera um problema mecânico, ou um pneu furado. Vai ter gastos em tempo e dinheiro que o outro, que conseguiu desviar, não terá. Mas pode ter certeza de que há prejuízos e que são importantes.

R.O.: A CNT acredita que é possível melhorar a qualidade dos serviços neste cenário de perdas econômicas para o setor?

V.F.C.: É possível, com as privatizações de rodovias. Existem vias que não oferecem viabilidade econômica para o investidor. Aí entram os subsídios cruzados. Ao receber a concessão de uma via com boas perspectivas de retorno, o concessionário assume outra, de menor fl uxo e menos interessante em termos econômicos. Em alguns casos, medidas como o acréscimo de uma terceira faixa já melhora o fl uxo. Tem de ser levado em conta que o transporte é um incentivador do crescimento econômico. Onde existe uma via com boas condições de tráfego e esse tráfego começa a aumentar, ali começam a surgir pontos de comércio, são gerados empregos, novas pessoas são atraídas para trabalhar ou morar no local. Isso signifi ca mais desenvolvimento, mais emprego, mais impostos, mais renda.

R.O.: E a proposta do governo federal de concessão de rodovias por outorgas?

V.F.C.: Sou a favor do projeto do governo, mas não concordo com a outorga, pois acredito que ela encarece o pedágio. O governo diz que isso será feito de forma fl exível, de acordo com o fl uxo. Acho que a outorga é um erro, a fl exibilidade o ameniza, mas não o corrige. Um pedágio menor atrai mais passageiros. Quanto mais pessoas usarem a rodovia, mais retorno terá o concessionário. E o usuário só pagará o que efetivamente usou. Pedágios altos podem propiciar o aumento do custo Brasil, uma vez que vão encarecer os valores dos fretes.

R.O.: Um antigo pleito do segmento de transporte de passageiros é a desoneração do setor. Acredita que a reforma tributária que está sendo discutida possa mudar a atual situação?

V.F.C.: Acreditamos que, antes de tudo, o Brasil precisa de uma reforma administrativa, até para viabilizar uma boa reforma tributária.

R.O.: O transporte rodoviário de passageiros tem sofrido com quedas de demanda, políticas tarifárias defi cientes, falta de segurança pública nas ruas e outros problemas. Como a CNT vê essa situação, e o que pode ser feito para amenizá-la?

V.F.C.: O que vai melhorar a atual situação é, em todos os casos, dar prioridade ao coletivo e não ao indivi dual. No caso do transporte de passageiros, por exemplo, tem de se analisar a questão da concorrência dos aplicativos. Um ônibus leva uma quantidade maior de passageiros, diminui o número de veículos nas ruas, contribui para diminuir os congestionamentos, oferece gratuidades a algumas categorias de passageiros. Ele tem de ter uma contrapartida. No caso de uma desregulamentação, precisamos saber: quem vai transportar o idoso gratuitamente? Nos pequenos municípios, com estradas de terra, quem vai levar os passageiros? Porque nas linhas e horários mais produtivos, há grande oferta de condução, mas e as pequenas linhas? E aquelas de maior extensão, em que a grande maioria dos passageiros vai até um determinado ponto, mas existem três, quatro, que precisam chegar ao ponto fi nal? Quem fará os percursos mais longos e de pouco fl uxo? Há cidades onde o índice de gratuidade no transporte chega a 20%.

R.O.: Com relação a esses benefícios, existem propostas de que o custo da gratuidade dada ao idoso caiba inteiramente ao governo. O que acha delas?

V.F.C.: Acho legítimo o pleito, é justo, mas precisamos ver que, na situação atual, o governo não consegue sequer conservar as vias, é improvável conseguir que absorva mais custos.

R.O.: Ainda sobre o transporte de passageiros: como vê o modelo brasileiro, em que a maioria das cidades não tem subsídios para o transporte coletivo, na contramão do que é praticado nas grandes cidades do mundo?

V.F.C.: As conversas com o governo têm sido no sentido de repensar todo o modelo de forma ampla, com a priorização do coletivo, seja nas vias, com faixas exclusivas, seja nos outros aspectos. Quando o cidadão vai para o automóvel, o trânsito piora. Quando o transporte tiver condições de ser rápido e efi ciente, o passageiro vai dar prioridade a ele. Então, é preciso dar essas condições.

R.O.: Sendo oriundo do setor de cargas, uma das características de sua administração no segmento foi o investimento na profissionalização dos rodoviários. Que marca pretende imprimir à frente da CNT?

V.F.C.: Expandir essa qualificação para todos os modais, com muita transparência para o empresário quanto ao que está sendo feito, em especial através do Sest e Senat. Oferecemos cursos para todos os níveis, desde os mais simples até o mais alto, dos vários setores. É importante trabalhar para o transporte como um todo. O Sest Senat está iniciando um processo de assessoria que vai facilitar muito essa qualificação profissional, pois pode ser feita durante uma ou duas horas, dentro do próprio horário de trabalho. Consideramos fundamental ampliar a comunicação com as bases, pois não basta termos o que oferecer. O empresário e os trabalhadores do setor precisam ter conhecimento de tudo o que podem usufruir por meio do Sest e do Senat.

R.O.: A seu ver, quais as perspectivas econômicas para o Brasil em 2020, e como o transporte brasileiro, em seus diversos modais, poderá ser afetado?

V.F.C.: Acredito que 2020 vai ser melhor do que 2019, mas nada de muito extraordinário. Pessoalmente, prefiro o crescimento lento, porém de forma mais sustentável e planejada, do que a criação de “bolhas” de desenvolvimento que não se sustentam. Medidas estruturantes já foram enviadas para o Congresso Nacional e acredito que a saída está na infraestrutura, nas licitações de aeroportos, rodovias. Imaginemos 10 mil quilômetros de estradas sendo privatizados – e existe capital privado para isso – e o que significaria o início dessas obras. Os benefícios para o comércio e outras atividades da região que viriam desses investimentos. As obras impulsionariam o desenvolvimento. Trabalhamos com o governo também no sentido de atrair mais operadores para o setor ferroviário, pois nesse modal há uma visão de que quem investe na infraestrutura tem de ser o proprietário dos trens, mas não tem de, necessariamente, ser assim. Da mesma forma que quem opera os aeroportos não opera os aviões nem é dono das aeronaves, o mesmo pode ser feito com o sistema ferroviário. Em suma, acredito que alguma coisa está melhorando, lentamente, mas as bases estão sendo lançadas. E, como estamos em época de fim de ano, aproveito para desejar a todo o setor e aos leitores da revista, boas festas e um ano próspero e feliz.

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